Resenha: Jane Eyre, de Charlotte Brontë

Em 2021 me propus a ler mais clássicos. Fiquei com medo de começar, claro, minha experiência com eles não tinha sido tão boa inicialmente, mas desta vez foi muito mais tranquilo. Jane Eyre foi o livro escolhido da vez e devo dizer que, apesar dos percalços, foi uma grande jornada ao lado da protagonista sofredora. #lendoclássicos





O livro
O enredo começa em algum lugar no norte da Inglaterra, no final do reinado de George III (1760–1820). Jane Eyre, a personagem título, é uma órfã que foi acolhida pela tia da parte de pai em sua casa, a propriedade de Gateshead Hall. Mas a infância de Jane é marcada pelo abuso moral da parte da tia e dos primos, em especial o primogênito, que também a bate. O comportamento de Jane, que nada mais é do que uma reação aos abusos que sofre, é visto como malcriação e sua tia, a Sra. Reed desencoraja os filhos e até os empregados da casa a interagirem com a menina, o que aumenta ainda mais seu sofrimento e seu isolamento. Os livros são sua única companhia.

Resenha: Jane Eyre, de Charlotte Brontë


Jane Eyre é um romance de formação, onde acompanhamos a história de vida de uma pessoa e seus pensamentos, suas dores e amores, suas visões sobre a vida e a sociedade. Ainda que seja indiscutivelmente um fruto de seu tempo, o romance aborda temas muito atuais como opressão feminina, relacionamentos, educação das crianças, moralidade. Jane é uma mulher solitária, mas bastante inteligente e com um senso muito forte de si mesma. E ela luta contra as injustiças da maneira que consegue. Se antes era uma criança intransigente, às vezes até malcriada, ela vai passar por uma intensa transformação após sair de Gateshead Hall.

E o que era eu? Entre a dor do meu coração e o esforço desesperado de ser fiel aos princípios, eu me abominava. Não tinha o consolo da autoaprovação. Nem mesmo do amor-próprio.

A Sra. Reed despacha Jane para uma escola rígida, Lowood, de preceitos cristãos, cujo objetivo é "endireitar" meninas, onde elas percam qualquer "luxúria" e "soberba" em seus corações. Na verdade as crianças sofrem com abusos, frio e comida ruim, onde qualquer reclamação é vista como um desvio de caráter das meninas. Porém é a retidão e o trabalho na escola que moldarão grande parte da personalidade da jovem Jane, que fica em Lowood por oito anos: seis como aluna e dois como professora, mas a adolescência da jovem Jane nós não vemos e ela explica isso no livro.

Toda essa parte sobre a infância de Jane me pareceu uma longa introdução, pois sua vida começa de fato quando ela consegue um emprego como preceptora, uma tutora ou professora particular, em uma residência chamada Thornfield Hall. Ansiosa por ter novas experiências, por conhecer melhor o mundo que a rodeava, Jane deixa Lowood rumo à propriedade longe dali. Bem recebida pela governanta, Jane será a responsável pela educação de uma garotinha nascida na França. Mas é a chegada do padrão, o Sr. Rochester, que vai agitar de vez a vida da pacata Jane Eyre.

Houve momentos em que a leitura foi bem devagar, mas você ainda quer saber o que vai acontecer com Jane porque, ainda que ela seja chatinha em alguns momentos, é uma personagem fascinante. Chatinha para os nossos olhos atuais, é claro, pois Jane quebra padrões para a sua época, é firme em suas decisões e não se submete aos caprichos do patrão. Ela tem uma visão de mundo que foge aos padrões femininos da época. Um exemplo disso é quando ela decide abandonar Lowood em busca de novas experiências.

Patrão esse, aliás, que precisa ser discutido, pois ele é uma mala. Típico personagem byroniano, que diverge dos padrões morais de sua época, um transgressor, mas ainda assim dotado de grande capacidade de afeição, o Sr. Rochester é também sofisticado, educado e inteligente, uma pessoa com seus segredos e desejos. Admito que quando ele aparecia eu tentava decifrar esse sujeito de comportamento tão errático e tentava imaginar o que CACETE Jane teria visto nele, mas né? Como controlar os próprios sentimentos? Acredito que a ideia da autora era justamente essa.

O romance é um híbrido entre três gêneros: é um livro gótico por excelência, já que se utiliza do horror, do sobrenatural, do mistério em vários momentos; e também uma história de amor, já que trata da paixão e do amor entre as pessoas, entre pessoas predestinadas a se encontrar e; é também um romance de formação, onde acompanhamos o desenvolvimento e o crescimento de uma personagem, seus revezes e seus sucessos.

A religião é também um aspecto muito importante no livro, pois vemos várias passagens bíblicas sendo mencionadas pelos personagens, usando-se de parábolas e passagens em diálogos e descrições. Mas gostei muito que a parte gótica do enredo destoasse da mística cristã e apostasse no sobrenatural em si. Há eventos e passagens na vida de Jane que são inexplicáveis e que a marcaram profundamente.

Em resumo, na condição de homem, ele gostaria de ter podido me convencer e obedecer.

A edição que li foi o ebook da José Olympio e adorei a tradução de Heloísa Seixas. A leitura não foi arrastada ou truncada como muitos esperariam que um livro clássico, de 1847, fosse. Há várias notas de rodapé para explicar as passagens bíblicas mencionadas pela autora, que são várias.


Obra e realidade
Para um romance de 1847 é bastante interessante a forma como Jane Eyre foi construída. Ela é uma mulher à frente do seu tempo, presa às convenções sociais e morais de uma sociedade que nunca deu às mulheres o que lhes era devido. Jane sempre quis ser autossuficiente, independente, trabalhando para se manter e para ter o que quisesse. Ela não pensava em casamento como uma de suas primas, que queria agarrar um ricaço para ser sustentada por ele. Jane é dotada de uma coragem que destoa da sociedade em que ela estava inserida, onde mulheres precisavam ser submissas, caladas, incapazes de proferir opiniões.

A personagem de Jane já sinalizava com os novos tempos, com o movimento feminista, com as sufragistas, ao mostrar uma mulher que quer vencer na vida, que quer amar e viver em seus próprios termos. Não é o que todas nós queremos? Que ninguém nos oprima ou nos desrespeite, que não nos subestime, nem nos silencie. Jane Eyre tem um pouco de cada uma de nós.

Ler um livro escrito no século XIX é uma experiência parecida com viver - começa devagar.

Prefácio escrito pela tradutora Heloísa Seixas

Charlotte Brontë


Charlotte Brontë foi uma escritora e poeta inglesa, a mais velha das três irmãs Brontë que chegaram à idade adulta e cujos romances são dos mais conhecidos da literatura inglesa. Jane Eyre é seu segundo romance.


Pontos positivos
Jane Eyre
Protagonista feminina
Romance de formação
Pontos negativos
Pode ser bem lento



Título: Jane Eyre
Título original: Jane Eyre
Autora: Charlotte Brontë
Tradutora: Heloísa Seixas
Editora: José Olympio
Ano: 2021
Páginas: 630
Onde comprar: na Amazon!


Avaliação do MS?
Fui surpreendida por Jane Eyre. Comecei a ler desconfiada de que não gostaria, que poderia achar chato, mas logo notei que não conseguia mais parar a leitura. Jane é cativante, sua história nos prende rápido e você não consegue deixar de virar as páginas para descobrir seus próximos passos e o que vai ser de seu destino. Quatro aliens e uma forte recomendação para você ler também!




Até mais! 🍂


Já que você chegou aqui...

COMPARTILHE

Seja o primeiro a comentar.

ANTES DE COMENTAR:

Comentários anônimos, com Desconhecido ou Unknown no lugar do nome, em caixa alta, incompreensíveis ou com ofensas serão excluídos.

O mesmo vale para comentários:

- ofensivos e com ameaças;
- preconceituosos;
- misóginos;
- homo/lesbo/bi/transfóbicos;
- com palavrões e palavras de baixo calão;
- reaças.

A área de comentários não é a casa da mãe Joana, então tenha respeito, especialmente se for discordar do coleguinha. A autora não se responsabiliza por opiniões emitidas nos comentários. Essas opiniões não refletem necessariamente as da autoria do blog.