Resenha: Pandora, de Anne Rice

Pandora foi o primeiro livro de Anne Rice que li. Foi na febre causada pelo filme Entrevista com o Vampiro, as livrarias estavam atoladas de livros a respeito, com novas traduções das obras da autora, além de outros trabalhos semelhantes. Pandora me chamou a atenção na época por ser uma mulher contando sua longa história como humana e como vampira.

👓 Este livro faz parte do Projeto Releituras!





O livro
Ao contrário do que diz a sinopse do livro nas livrarias online, o narrador do livro não é David Talbot, o jornalista que entrevista Louis em Entrevista com o Vampiro. A narradora é a própria Pandora, que recebe um caderno do jornalista, uma caneta e passa a escrever a história de sua longa vida, mesmo tendo recusado o pedido inicial. Pandora é uma vampira implacável, mas que vive uma vida que poderíamos chamar de low profile, matando apenas quando é necessário. Vampiros muito antigos não precisam se alimentar todos os dias, portanto Pandora pode aproveitar a existência com maior liberdade.

Resenha: Pandora, de Anne Rice


Agora quero alcançar uma vítima que, para mim, não é fácil de dominar: meu passado.

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Sentada em um café parisiense, os óculos escondendo seus olhos opacos, a vampira escreve e escreve, deleitando-se com o som da caneta no papel. Pandora tem 2 mil anos de idade. Quando ainda era uma mulher mortal, vinha de uma família importante de Roma, filha de um senador. David quer saber sobre Marius, um importante e temido vampiro que foi amante de Pandora. Mais que tudo, quer conhecer essa vampira tão antiga, tão sábia de seu ponto de vista. Faz sentido um vampiro jovem e inexperiente querer conhecer os mais antigos. Não foi o que Louis tanto pediu a Lestat e este negou qualquer ajuda? É uma existência que eu consideraria miserável, vivendo para sempre, vendo os entes queridos indo embora, talvez até mesmo fazendo-os de vítimas. No lugar de David, eu também gostaria de compreender esse mundo o máximo possível.

Pandora era ainda uma criança quando conheceu Marius, um jovem charmoso que volta a encontrar na adolescência. Com riqueza de detalhes, mergulhamos na Roma que Pandora conheceu, suas intrigas, seus modos de vida, seus mistérios. Essa é uma mulher independente, com ideias consideradas transgressoras para sua época, uma mulher dona de si e que sabia o que queria. O mundo romano via as mulheres como mantenedoras do lar, mães e esposas e Pandora seria o equivalente a uma socialite solteira, rica e que gostava de viver a vida, ou seja, o completo oposto do padrão.

Mas as divergências políticas não tardam em atingir sua família. Pandora se vê em um navio para Antióquia antes que perceba o que está acontecendo. Novamente, a descrição dos lugares, as sensações de Pandora, tudo isso é bem descrito e você se sente em seu lugar, chorando, pranteando, desesperada por não saber mais qual é o seu lugar no mundo. Mas Pandora é uma sobrevivente. Ela logo se ergue, resolvendo botar sua vida nos eixos. Ao mesmo tempo, ela começa a ser assolada por estranhos sonhos onde sente desejo de sangue...

Aquelas palavras que você falou antes, ❝menina❞ e ❝mulher❞, elas sempre me limitaram. Eu só quero agora caminhar sem medo, com os braços nus e os cabelos caídos nas costas, entrar em todos os antros perigosos que eu quiser.

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Em algum momento de sua nova vida em Antióquia, Pandora reencontrará Marius. Um Marius diferente, modificado, sem dúvida ainda charmoso, mas amaldiçoado. Os dois encontram um no outro um parceiro intelectual e acho que até um parceiro de sangue, já que ambos dividirão a vida ao longo das décadas, discutindo filosofia, política e as mudanças intensas que assistem no mundo romano.

Um ponto muito positivo é o fato de Anne usar a história de Pandora para falar sobre temas importantes como a posição da mulher na sociedade através dos séculos. Desde o começo vemos que Pandora não é uma mulher que aceita facilmente as convenções limitantes à mulher. Se ela consegue certa liberdade e posição é por causa do dinheiro da família e a posição de seu pai no senado, o que acaba influenciando sua vida posterior em Antióquia. Mas ela sem dúvida se questiona se o fato de ser mulher não a impediu de ajudar a família num momento de desespero, se ser homem teria sido diferente. Pandora quer transcender os papéis comumente atrelados à figura feminina e o faz isso ao se tornar uma vampira. Pandora entendia que o dom das trevas, ou seja, se tornar vampira, era a libertação do feminino e do masculino, uma libertação final.

Anne também não esconde toda a violência do período. São descrições vívidas dos abusos cometidos pela Guarda Pretoriana, a perseguição aos opositores. Nem mesmo crianças escapavam da fúria dos soldados. Em um mundo em que direitos humanos não existiam, todo tipo de violência era cometido com frequência e visto como parte da vida. Este era o mundo que achava divertido ver pessoas morrendo numa arena, afinal de contas, estraçalhadas por animais selvagens ou por gladiadores.

Essa releitura foi muito mais gostosa do que as duas anteriores que fiz. O estilo de Anne Rice não é um dos meus favoritos, mas seus personagens são tão cativantes e apaixonantes, tão fáceis de amar e odiar na mesma medida que você quer continuar a leitura. Teve momentos de altos e baixos, mas no final o saldo é muito positivo. Apesar de eu não achar necessário ler outros livros da autora, algumas pessoas podem se sentir meio perdidas com relação o nome dos personagens. Hoje é fácil procurar no Google, mas na época em que comprei esse livro admito que fiquei bem perdida. 😅

Minha edição não tem esssa capa acima, é uma capa vermelha, com detalhes em dourado e papel branco que dói nas vistas. Essa capa nova é posterior de quando a Rocco padronizou as capas das Crônicas Vampirescas, mas não houve mudança no conteúdo. A tradução é de Adalgisa Campos da Silva e está ótima. Não encontrei problemas de revisão ou tradução no livro.


Obra e realidade
Uma das coisas que fiz assim que terminei a (re)leitura de Pandora foi buscar mais informações sobre a cidade de Antióquia. E entendi porque Anne Rice centralizou toda a ação e boa parte da vida de Pandora nessa cidade. A atual Antáquia, na Turquia, foi fundada no final do século IV a.C. por Seleuco I Nicátor, que a tornou a capital do seu império. Seleuco fora um dos generais de Alexandre III da Macedônia e o nome Antíoco era comum entre os membros de sua família.

Segundo Flávio Josefo, Antióquia era a terceira maior cidade do Império Romano, com uma população de cerca de meio milhão de habitantes. Nesta cidade o culto à deusa Astarte, a mais importante deusa fenícia, pelas mulheres da cidade de Antioquia chocava os cristãos, de forma que foi abolido por Constantino I. Deusa da fertilidade, sexo, amor e guerra, era um escândalo que mulheres bem educadas da cidade entrassem em seu templo e logo ele foi visto como uma abominação.

Anne Rice


Anne Rice é uma escritora norte-americana, autora de séries de terror e fantasia.


Pontos positivos
Vampiros!
Sombrio
Roma antiga
Pontos negativos
Pode ser meio lento
Não tem em ebook


Título: Pandora
Título original em inglês: Pandora
Autora: Anne Rice
Tradutora: Adalgisa Campos da Silva
Editora: Rocco
Páginas: 203
Ano de lançamento: 1998
Onde comprar: na Amazon!


Avaliação do MS?
Comparado com Entrevista com o vampiro, este livro flui muito melhor e a história tem mais apelo. As lamúrias de Louis enchem o saco e até concordo com Lestat quando ele reclama no final. Já aqui temos uma vampira que, voluntariamente, resolveu contar sua vida ao jornalista, passando pelas memórias boas ou ruins, desvendando um pouco do passado dos vampiros e de como eles surgiram. Se você curta uma boa história de sugadores de sangue, vai curtir esse aqui! Quatro aliens para o livro e uma forte recomendação para você ler também!




Até mais! 🧛🏼‍♀️


Agora no século XX, quando assisto a intriga e à carnificina em filmes e na televisão e por todo o nosso mundo ocidental, fico pensando se as pessoas não precisam disso, não precisam ver violência, carnificina e morte em todas as formas. A televisão às vezes parece uma série de gladiadores.

Página 33


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