Resenha: Entrevista com o vampiro, de Anne Rice

Dificilmente alguém fã de filmes de terror desconhece o longa Entrevista com o vampiro, derivado do livro de mesmo nome, de Anne Rice, certo? Fenômeno na estreia e depois filme cult, o longa figura fácil em listas de filmes preferidos dos fãs do sobrenatural e dos dentuços seres das trevas. Mas e quanto ao livro? Tem diferenças? Dá para ver o filme e curtir o livro na boa?





Parceria Momentum Saga e
editora Rocco


O livro
Dividido em quatro partes, começamos a jornada com o vampiro Louis conversando com um jovem jornalista que conheceu em um bar. O misterioso e belo homem alega ser um vampiro e o jornalista acredita que pode conseguir uma boa história. Assim ele coloca fitas num gravador e espera que o homem que se diz vampiro comece a falar. Louis é refinado, educado, meio melancólico e bastante detalhista ao contar sua história e lembrar sobre a sua juventude em Nova Orleans.

Resenha: Entrevista com o vampiro, de Anne Rice


Diferenças fundamentais entre o roteiro, escrito pela própria Anne Rice e seu livro de sucesso já começam aqui. Enquanto no filme Louis perde esposa e filho, no livro ele perde o irmão e, com isso, perde a cabeça, quase morrendo de culpa por sua morte. Ele administra a fazenda de Pointe Du Lac, nos arredores de Nova Orleans, onde mora com a mãe e a irmã. E enquanto se afunda na tristeza pela morte do irmão, da qual se acha culpado, Louis é visitado por um vampiro: Lestat.

Tom Cruise, para mim, ficou perfeito interpretando Lestat e não consegui dissociar sua imagem do Lestat do livro. O vampiro aqui é tão ácido e cruel quanto no filme, talvez com um tom mais debochado e bem porra-louca. Lestat quer a fazenda para dar abrigo ao velho pai, já cego e adoentado. E enquanto isso, junto de Louis, ele busca sobreviver e fazer dinheiro. Vampiros juntando dinheiro para pagar as contas, fala se não é a coisa mais humana a se fazer?

O tom do livro é bem melancólico já que seu narrador é Louis. E Louis sofre por ainda ter qualquer consideração pela humanidade. Ele se preocupa com sua condição, fica curioso sobre sua origem e reluta em matar seres humanos. É carente de respostas sobre a natureza dos vampiros e busca em Lestat um mestre que o vampiro não é. Lestat, na melhor descrição possível para o personagem, está cagando para a origem dos vampiros. Com uma ira pela vida em si, Lestat vive a vida no limite, como se fosse morrer a qualquer momento.

Por trás do seu sorriso de escárnio havia sempre a promessa de que sabia coisas maravilhosas ou terríveis, de que havia atingido um estágio do qual eu nem suspeitava. E, durante todo o tempo, me diminuía e me repreendia por meu amor pelos sentidos, por minha relutância em matar e por quase desmaiar frente à morte. Gargalhou estrondosamente quando descobri que podia me ver no espelho e que as cruzes não me afetavam, e me confundia com seu silêncio sempre que lhe perguntava sobre Deus e o diabo.

Página 41

Esse tom melancólico tornou a leitura bem chatinha em alguns momentos. Agora eu entendo a reclamação de Lestat, no final do filme, onde ele diz "ainda reclamando, Louis?", porque MELDELS, sabe? Como ele se lamenta e revisita momentos difíceis para ficar falando das dificuldades da vida imortal. E ficou reclamando sobre a falta de assistência de Lestat por várias páginas. Nessa parte eu concordo que Lestat, de fato, o deixou solitário, um vampiro recém-criado e abandonado no mundo, com um tutor que não tinha interesse algum em ensinar.

Lestat prende Louis ao seu lado por causa de Cláudia, que no filme é mais velha, com uns 12 anos, mas que no livro é bem menor, cerca de 5 anos de idade. Anne Rice percebeu que uma criança tão pequena teria dificuldades em se comportar como adulta no longa e por isso acabou mudando a idade da garotinha de cachinhos dourados no roteiro. Mas Cláudia continua sendo inteligente, ardilosa e talentosa para mentiras, tal como no filme e, de certa forma, muito mais cruel. Uma menina que anda de colo, mas que na verdade se transforma, ao menos psiquicamente, em uma mulher. Não dá para imaginar a frustração de ser assim.

A narrativa de Anne pode parecer cansativa, mas acho que a ideia era passar essa sensação de plenitude, de uma pessoa inundada por emoções, como Louis. São frases carregadas de sentimentos, de emoções complicadas, de memórias duras e arrastadas, pois não é assim que seria a vida de um vampiro de mais de 200 anos? Tem horas que isso meio que deixa cansada de tanto ler as lamúrias do pobre Louis. Mas é assim que o personagem é, amargurado e mais humano do que muita gente por aí.

A tradução deste livro é de Clarice Lispector, estando muito rica e bem-feita. Não encontrei erros de tradução ou de revisão, mas a diagramação me incomodou um pouco, com frases pulando parágrafos e às vezes descontinuando os diálogos. A edição é em capa dura, macia, com detalhes em dourado, com um luxo sombrio que a história merece e um fitilho vermelho para você marcar as páginas.


Ficção e realidade
Como eu comentei num texto recente, o que mais me chama a atenção nos vampiros de Anne Rice é sua humanidade. Drácula tem seu apelo, é claro. Principalmente aquele do filme de Coppola, mas uma coisa que o conde da Transilvânia não tem é a humanidade que os vampiros de Rice exibem. Vampiros lutando para pagar as contas? Para sobreviver mais um dia? Para se esconderem da luz já que o sol é letal? Os monstros costumam representar nossos medos mais profundos. O vampiro é um morto reanimado por uma força sobrenatural, que se alimenta de sangue, representando uma descontinuidade na ordem da vida. Saber que vampiros sofrem com problemas mortais talvez os tornem menos apavorantes.

Anne Rice


Anne Rice é uma escritora norte-americana, autora de séries de terror e fantasia.


Pontos positivos
Vampiros!
Sombrio
Nova Orleans
Pontos negativos
Pode ser meio lento
Violência


Título: Entrevista com o vampiro
Título original em inglês: Interview with the vampire
Autora: Anne Rice
Tradutora: Clarice Lispector
Editora: Rocco
Páginas: 320
Ano de lançamento: 2020
Onde comprar: na Amazon!


Avaliação do MS?
Não vou dizer que o livro agrade a todos os fãs de vampiros. Quem gosta de narrativas mais rápidas, com menos rebuscamento - e isso Anne Rice tem de sobra - não vai acabar se amarrando nesse livro aqui. Ele é denso, com muitas reflexões sobre a humanidade, sobre a dor da vida e da morte e meio que cansa depois de um tempo. Se, entretanto, você quiser embarcar nessa jornada com Louis para entender melhor os vampiros e descobrir as principais diferenças com o filme, pode se jogar na leitura. Quatro aliens para o livro e uma forte recomendação para você ler também!



Até mais! 🧛🏼‍♀️


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