Resenha: Matadouro-Cinco, de Kurt Vonnegut

Matadouro-Cinco é um dos grandes clássicos da ficção científica! Um livro com um tema que nunca sai de moda - a guerra e sua futilidade - é uma obra carregada com sátira e análise crítica de um dos mais mortais bombardeios da Segunda Guerra Mundial: o da cidade de Dresden, na Alemanha. Como um sobrevivente em primeira mão do evento, Kurt se valeu da experiência no conflito para compor uma obra que conversa, diverte e informa os leitores.



Este livro foi uma cortesia da editora Intrínseca


O livro
Contado de forma não linear, nós acompanhamos as memórias e a vida de Billy Pilgrim, de quando ele esteve no Exército, de sua bem sucedidade carreira como optomestrista e de suas abduções por alienígenas. Num primeiro momento você acha que não vai entender nada desse enredo que vai e volta no tempo, mas logo percebe que a escrita de Kurt é direta e pouco rebuscada, facilitando o entendimento e te prendendo até o fim.

Resenha: Matadouro-Cinco, de Kurt Vonnnegut


O primeiro capítulo é tipo uma introdução do autor, contando como foi a experiência de escrever o livro. Dotado do mesmo bom-humor do restante das páginas, Kurt conta como visitou ex-colegas de Exército na tentativa de recobrar as memórias de sua época em Dresden. Por um momento ele não tinha lembranças dos eventos, pouco depois, como uma torrente, elas brotam de todo canto.

Billy, o protagonista, veio de uma cidade fictícia, no estado de Nova York, e acredita que fez parte de um zoológico alienígena quando foi abduzido por seres do planeta Tralfamadore. Billy tem a habilidade de voltar e avançar no tempo e acompanhamos cada um de seus saltos sem causar desorientação. Num determinado momento ele está conversando com a filha, que tenta convencê-lo de que não existem alienígenas, no momento seguinte ele está de volta a Dresden.

É bem interessante como Billy foi retratado. Ele é desmotivado, fatalista, parece que se arrasta pela vida, sempre conformado com a situação. Praticamente um alter-ego do próprio Kurt, Billy é praticamente uma criança medrosa - e quantos daqueles soldados não eram? Preso pelos nazistas junto de seus outros colegas, Billy é enviado com outros prisioneiros para campos de trabalho até chegar a Dresden. Em meio a essas memórias, ele surta, se casa, é um animal enjaulado por alienígenas, tudo junto e misturado.

Pode parecer uma narrativa intimidante, mas esse livro é uma sátira e uma crítica ácida à guerra. Na época em que foi lançado, os Estados Unidos estavam engajados em outro grande e sangrento conflito, a Guerra do Vietnã e o sentimento anti-guerra logo abraçou o livro de Kurt com fervor. Narrando os horrores que vira em Dresden, Kurt tocava na ferida ao relatar o quanto uma guerra é sangrenta, inútil e destruidora. Tal como Billy, Kurt se torturou por muito tempo pelas coisas que viu na guerra.

A leitura é bem rápida, mas não quer dizer que não tenha bastante conteúdo. Esse é daqueles livros que se você reler vai sempre se deparar com coisas novas que ficaram despercebidas na primeira leitura. Toda narrativa surreal de Kurt combina bem com a surrealidade da guerra em si, de como tudo aquilo era uma grande loucura e que ninguém saía incólume de um conflito daqueles.

Kurt não poupa críticas à guerra e também ao modo de vida norte-americano. Em vários momentos Billy comenta sobre livros e textos que leu e eles são representado no capítulo. Em um deles, por exemplo, o autor comenta sobre como os Estados Unidos são uma nação rica, mas a maioria da sua população é composta por pobres que aprenderam a odiaar a si mesmos. A ideia de fazer a vida nos Estados Unidos parece fácil, mas o que os norte-americanos nunca dizem é que fazer fortuna é tão difícil que a grande maioria nunca consegue. E são os outros que sofrem.

O livro é tão curto, tão confuso, tão desarmônico, Sam, porque nada de inteligente pode ser dito sobre um massacre. Todos devem estar mortos, sem nunca mais dizer ou querer nada.

Página 37


A edição comemorativa de 50 anos do lançamento do livro é show de bola! Ele vem em capa dura, com um impecável trabalho gráfico e e pintura branca trilateral (as folhas são amarelinhas). Existem algumas imagens importantes pelo miolo, que fazem parte da narrativa. A tradução de Daniel Pellizzari está ótima e o livro não tem problemas de revisão.


Ficção e realidade
A cidade de Dresden, na Alemanha, foi bombardeada pelas Forças Aliadas na Segunda Guerra entre 13 e 15 de fevereiro de 1945. Em quatro ataques-surpresa, 1300 bombardeiros pesados lançaram mais de 3900 toneladas de dispositivos incendiários e bombas altamente explosivas na cidade. O fogo resultante destruiu 39 quilômetros quadrados do centro da cidade e matou pelo menos 25 mil pessoas. Apesar do que os Aliados disseram, de que a cidade era um importante alvo militar, a maioria das pontes e ferrovias da cidade ficaram intactas. Prédios residenciais foram pesadamente danificados, matando milhares de civis em uma cidade de pouco valor estratégico para a guerra.

Kurt Vonnnegut


Kurt Vonnegut foi um escritor norte-americano, de ascendência alemã. Ao longo da carreira publicou 14 romances, três coletâneas de contos, cinco peças de teatro e cinco trabalhos de não-ficção, com várias coletâneas sendo publicadas após a sua morte.


Pontos positivos
Tralfamadore
Billy
Viagem no tempo
Pontos negativos

Começo é um pouco confuso


Título: Matadouro-Cinco
Título original em inglês: Slaughterhouse Five
Autor: Kurt Vonnegut
Tradutor: Daniel Pellizzari
Editora: Intrínseca
Páginas: 288
Ano de lançamento: 2019
Onde comprar: na Amazon!


Avaliação do MS?
Foi uma leitura muito interessante. Fiquei com medo de não curtir a narrativa de Kurt, mas o livro me arrancou várias risadas em alguns momentos e reflexões importantes em outros. Consigo entender o furor que o livro causou quando foi publicado no auge da Guerra do Vietnã e de como o autor levou a discussão sobre a futilidade da guerra para o meio literário. Quatro aliens para o livro e uma forte recomendação para você ler também!

MUITO BOM!


Até mais!


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2 COMENTÁRIOS

  1. Sou suspeito para falar sobre o mestre Kurt, sou muito fã. Aplaudindo a resenha, capitã! Muito boa e adorei o destaque positivo aos tralfamadoreanos, que reaparecem em outras obras do sr. Vonnegut. Seria o escritor um deles? :-D

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    Respostas
    1. Vai saber, né?? Vai ver ele não morreu, só voltou pra casa! 👽

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