A perda da inocência em Jogos Vorazes

Muita gente que conhece a trilogia Jogos Vorazes por alto acha que é uma história sobre quem vai ficar com Katniss. O que essa galera não sabe é que essa é uma trilogia violenta, que massacra 23 crianças e adolescentes todos os anos para mostrar aos distritos que a Capital manda e pode tirar deles o que lhes são mais queridos: suas crianças. Crianças são o símbolo do futuro, o símbolo de que a humanidade está deixando um legado. Massacrar crianças e adolescentes por pura diversão é uma forte mensagem política.




A perda da inocência em Jogos Vorazes
Arte de Krinna, no DevianART


Panem é uma nação de mães e pais enlutados. Dos 24 tributos que os distritos são obrigados a fornecer para pagar uma dívida histórica, apenas 1 sobrevive. Os Jogos Vorazes são um mecanismo violento, de um Estado opressor, manter um aparato de controle criado, especificamente, para dizer aos cidadãos até onde vai o controle da Capital sobre suas vidas. O Estado pode remover uma criança ou um adolescente da casa de um cidadão e matá-lo apenas para dizer que tem o controle. É brutal. É cruel.

Não só isso, o Estado personificado pela Capital transforma este sobrevivente em um aliado, muitas vezes à revelia. Essa criança, esse jovem, vai ser forçado a lutar contra outras crianças de forma a sobreviver e assim voltar para casa em um pretenso "serviço à nação", o que torna todos os habitantes da nação cúmplices em sua própria dominação. A inação e o silêncio dolorido da população acabam permitindo que a violência continue, com medo que a retaliação da Capital seja ainda maior.

A Capital, descaradamente, deixa crianças passando fome pra depois comprá-las com suas benesses - comida, conforto, vida luxuosa, tecnologia - caso ganhem os jogos. É o que Haymitch diz para Katniss e Peeta quando eles presenciam um assassinato no Distrito 11: você nunca sairá desse trem. A Capital vai te forçar a ser uma mentora para testemunhar dúzias de jovens indo para o abate sem que você possa fazer nada. Uma vez que você ganha os jogos se torna uma serva da Capital. Não tem como escapar.

Em Panem, o processo de amadurecimento, de se tornar um adulto, não é um processo de crescimento, mas sim de chances e de sorte. A infância e a adolescência são marcadas por um apagamento de si mesmas em vista da constante ameaça da Capital. Uma criança elegível para os jogos pode entrar no sorteio várias vezes, podendo ganhar comida e óleo para o aquecimento das casas. Ou seja, crianças são os agentes da sobrevivência de sua própria família, perpetuando uma servidão infantil até o momento em que a criança é emancipada ao atingir a idade máxima ou vai para os jogos. Esses jovens nada mais são do que sacrifícios para a pira da Capital.

O sistema criado para o controle da população é brutal de tão genial: eles mantém a população à beira da fome absoluta (e lemos no primeiro livro Katniss comentando a respeito), pois se o povo está fraco demais procurando o que comer não tem energia para iniciar uma revolução. Katniss chega a pensar que no distrito 11, de onde veio sua aliada Rue, eles teriam acesso à comida, mas Rue diz que uma pessoa pode ser açoitada ou morta caso tente pegar um pouco para si. Até mesmo caçar é proibido, o que Katniss aprendeu a fazer para impedir que sua família morresse. A Capital criou um sistema que impede as pessoas de buscar seu próprio sustento, colocando cercas nos distritos, proibindo a caça e a coleta, sento a única capaz de prover seus cidadãos.

É fácil traçar paralelos com a nossa realidade. Assim como as crianças em Panem, principalmente aquelas nos distritos mais pobres, as crianças pobres aqui do nosso mundo também tiveram sua infância roubada por um sistema desigual. No mundo real vemos crianças tomando tiros dentro de escolas, crianças tomando tiro dentro de casa. Aquela inocência perdida quando uma criança coloca seu nome de volta no sorteio ou quando é obrigada a matar alguém para sobreviver também se perde aqui com as crianças assassinadas pelo Estado.

No novo romance de Suzanne Collins, A Cantiga dos Pássaros e das Serpentes nós descorimos que todo esse sistema foi arquitetado por uma determinada pessoa de forma a manter os distritos atados à Capital, incapazes de se libertar. E principalmente neste livro vemos que os habitantes dos distritos são tratados como animais de abate, como gado, sendo transportados em trens voltados para animais. Maquiaram os jogos e o elevaram ao status de uma "celebração nacional" apenas para disfarçar o odor da opressão e da morte de crianças. É uma ferramenta de controle da população pobre, mantendo os ricos no poder, os ricos dos distritos mais próximos da capital que podem treinar para competir.

Collins discute em Jogos Vorazes, para um público juvenil, temas que muitos adultos não discutiriam em seus livros. É um erro julgar livros para adolescentes como sendo "romancezinhos bobos" quando Collins discute ditadura, opressão, fome e violência.

Até mais.


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