A batalha legal entre Star Wars e Battlestar Galactica

Com a entrada de Battlestar Galactica no catálogo da Amazon Prime, o interesse pela série voltou com tudo. Se me perguntam se a série vale à pena, sempre digo que sim, com certeza, vai fundo. Mas muita gente desconhece que essa versão dos anos 2000 é uma refilmagem da série original que foi ao ar entre 1978 e 1979 e que causou um bafafá antes mesmo de estrear.

A batalha legal entre Star Wars e Battlestar Galactica



Quando Star Wars estreou nos cinemas, em 1977, um público sedento por ficção científica surpreendeu os estúdios. A demanda por esse tipo de produção reacendeu até a chama do interesse da Paramount em tirar Star Trek da gaveta, para as filmagens de Star Trek: The Motion Picture. O cinema nunca mais foi o mesmo depois disso e nem a televisão.

Praticamente todos os estúdios procuravam uma space opera cheia de estilo e heróis viris para lucrar em cima da esteira de Star Wars. Na televisão, a mais bem sucedida dessas empreitadas foi Battlestar Galactica, criada por Glen A. Larson. Se você assistiu ou está assistindo a série recente pelo Amazon Prime vai saber do que se trata a série original: a humanidade foi quase aniquilada pelos Cylons e os sobreviventes buscam um novo lar sob a proteção da grande e poderosa nave Battlestar Galactica. Enquanto na série recente temos dois tipos de cylons, os mecânicos e os orgânicos, na série original havia apenas robôs metálicos e humanoides.

Com 7 milhões de dólares de orçamento, o piloto de 148 minutos rivalizava com qualquer filme de médio a alto orçamento da época. E quando a série foi ao ar, até os espectadores mais desavisados sacaram que havia uma semelhança gritante entre o estilo e o visual de BG com SW. A treta começou antes mesmo da estreia. Como cortesia, a Universal liberou um roteiro para diretores e produtores com o título Galactica: Saga of a Star World (parece que estava procurando encrenca mesmo, né?). Quando George Lucas e a FOX leram o roteiro, ambos entraram na justiça meses antes da série estrear.

O processo incluía 34 similaridades entre as duas produções. Havia obviamente semelhanças com muitas obras de ficção científica já lidas e assistidas na época, mas o visual era o que de fato pegava para o lado de BG. Os veículos e naves espaciais todos têm um ar gasto e velho, os cylons lembravam muito a estética dos stormtroppers e até uma cena em uma cantina com criaturas alienígenas estranhas, ainda que os quadrinhos de Valerian tenham sido também pioneiros nisso. Havia as semelhanças entre o Starbuck original e Han Solo e o capitão Apollo, filho do comandante Adama, que teve a mãe morta por um cylon e no roteiro original se chamava Skyler (parecido demais com Skywalker).

Viper

O visual era um grande problema para George Lucas. Os vipers e a faixa vermelha, os cylons, o visual das naves, tudo lembrava a estética de Star Wars. E isso se explica pela presença de dois artistas - Ralph McQuarrie e John Dykstra - que contribuíram para os dois projetos. Ralph é o artista conceitual que criou a maior parte da estética de SW que nós conhecemos e também as naves em Galactica e os cylons. John é especialista em efeitos especiais cuja empresa, a Industrial Light & Magic usou um novo tipo de câmera para alguns dos mais impressionantes efeitos de Star Wars. John ganhou o Oscar por isso, inclusive. John Dykstra acabou dispensado por George Lucas em algum momento da produção, o que o fez mudar para a produção televisiva de Battlestar Galactica.

Quando a série foi ao ar, o processo ainda estava rolando, ficando ainda mais complicado com a Universal abrindo um processo contra a FOX, acusando o estúdio de roubar Star Wars deles. A audiência ficou bem confusa, chegando a imaginar que Galactica pudesse ser um spin off de Star Wars e até Asimov reconheceu e apontou as semelhanças. A temporada prosseguiu, com altos números de audiência, indicando que o enredo era bem diferente do que originalmente se pensava, mas o ibope começou a cair e a série acabou cancelada antes mesmo do fim do processo. O tribunal não considerou um plágio de Star Wars e a Universal acabou pagando 225 mil dólares à FOX.

A batalha legal entre Star Wars e Battlestar Galactica
Arte original de McQuarrie para a plataforma de atracação do Galactica.

Muito se discute sobre a propriedade de tropos, estilos e temas dentro da ficção científica e da produção cultural em geral. Quando a Paramount lançou Star Trek: Primeiro Contato, a família do escritor Murray Leinster processou o estúdio. O termo "primeiro contato" foi usado pioneiramente por ele, em sua novela "First Contact", de 1945 (ele também cunhou o termo "tradutor universal"). O tribunal, por sua vez, julgou a ação improcedente, pois Leinster não processou os outros autores que se valeram do mesmo termo em outras obras, por que só agora?

Talvez para impedir que a estética e algumas inspirações de sua obra fossem aproveitadas e utilizadas por outros que George Lucas registrou nomes como droid mais de 30 anos da estreia do primeiro filme. Essa é uma palavra registrada pela LucasFilms. Ainda que ele tenha cunhado o termo droid em 1977, esta é uma versão menor de "androide", termo que tem pelo menos 300 anos de idade. Androide é uma palavra que surge nos registros da Cyclopædia, de Ephraim Chambers, em 1728, um termo retirado da alquimia e sua tentativa de criar uma "miniatura perfeita e formada de um ser humano". Foi só no século XIX que o termo assumiu o significado que conhecemos.

Seja como for, a versão mais recente de Battlestar Galactica e seus spin offs conseguiram adotar uma estética própria e se afastaram do enredo original de Star Wars, criando uma franquia de sucesso e com profundas discussões políticas, antropológicas e filosóficas. E eu espero que você curta as produções!

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2 COMENTÁRIOS

  1. Eu estava vendo um anime, pois falaram que é a melhor space opera que existe, Legend of the Galactic Heroes.

    De fato, é uma ótica space opera, mas tem aquele mesmo mote: democracia vs império, por exemplo.
    Isso porque é da década de 80, se não me engano. Nada mais Star Wars né?
    Mas existem milhares de livros da época que pegam esses contextos políticos, acho que tem muito mais a ver com uma herança das Guerras Mundiais e o contexto da Guerra Fria.

    (apesar de a democracia nesse anime ter políticos falso-nacionalistas, ameaça de golpe de estado, milícia ideológica patrocinada por um gabinete de ódio e religiosos fanáticos, talvez o autor pudesse processar o Brasil)

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  2. Eu sou completamente apaixonado por BSG-2003!!! Acho a série fantástica (sem trocadilho!). Até comprei o box de BD importado! E, logicamente, comecei a reassistir tudo quando vi que estava no PrimeVideo...rsrsrs
    Outra notícia maravilinda é que a Editora Morro Branco começou a vender no Kindle finalmente! (mas essa é só pq eu sempre reclamei aqui, né...rsrsrs)

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