Resenha: Qualityland, de Marc-Uwe Kling

Qualityland foi uma grata surpresa entre as leituras desse mês. Comentei outro dia no Twitter que estou com dificuldade de ler ficção de qualquer tipo. Venho lendo biografias, livros de divulgação científica e não-ficção. Não sei bem porque, mas nessa quarentena a ficção não parece conseguir me contemplar. Fazer o que? Qualityland, porém, conseguiu me cativar a arrancar boas risadas com suas situações absurdas e totalmente reais!



Parceria Momentum Saga e
editora Planeta


O livro
Qualityland é um país que passou por uma profunda mudança após uma crise e se tornou símbolo de futuro e de independência. A coisa foi tão grave que os consultores decidiram que o país precisava de um novo nome. A renomeação foi também uma forma de se livrar de algumas obrigações históricas desagradáveis. Os consultores então chamaram uma agência de publicidade para pensar em tudo, não só um novo nome, mas uma nova história, novos heróis, uma nova cultura, uma nova identidade de pátria. Surgia assim Qualityland!

Resenha: Qualityland, de Marc-Uwe Kling

Nesta terra você não pode descrever Qualityland com adjetivos normais ou comparativos. Qualityland não é um país especial, é o mais especial de todos! Percebe a diferença? Neste lugar não se estuda o passado e a disciplina de história foi abolida para dar lugar à disciplina do futuro. Os cidadãos de Qualityland também receberam novos nomes. A mesma agência de publicidade que dera o nome ao país decidiu que as pessoas levariam como sobrenome a profissão do pai ou da mãe na ocasião da concepção como sobrenome.

São vários os absurdos que vemos em Qualityland. Nosso principal protagonista é Peter Desempregado, que tem uma loja de artigos fora de uso, além de uma prensa de sucata que se desfaz de equipamentos obsoletos. Neste país às avessas, as pessoas possuem classificação de 1 a 99, que substituiu em partes a divisão de classes. Pessoas de nível mais alto, por exemplo, passam na frente de uma fila, mesmo que tenham chegado por último. Nada muito diferente do nosso mundo, se observarmos bem.

(...) é mais rápido escrever comentários de direita porque não é preciso ficar prestando atenção nas chatices de ortografia, gramática, fatos ou lógica. A programação do meu exército de robôs também fica facilitada.

Página 91

Misturando conceitos de distopias clássicas com a internet e as inteligências artificias, Qualityland é uma sátira ácida de nossa sociedade e no que estamos nos tornando com o uso da rede e, principalmente, das redes sociais. A rede QualityPartner, por exemplo, usa de seus algoritmos avançados para encontrar o parceiro melhor qualificado para você. É assim que Sandra Administradora termina seu relacionamento com Peter Desempregado e ainda lhe envia um voucher grátis para entrar no QualityParner!

Essas situações surreais podem parecer fora de contexto ou exageradas, mas é assim que o autor conseguiu encaixar uma crítica feroz ao capitalismo e à sociedade de consumo. A The Shop, um tipo de Amazon ainda mais poderosa, envia drones com compras que você nem ao menos pediu, mas estava secretamente desejando, ainda que seu subconsciente não tivesse noção disso. O pedido chega na sua porta e você é obrigada a aceitar.

Enquanto acompanhamos a jornada de Peter, acompanhamos também a jornada de John of Us, o candidato à presidência pelo Partido Progressista que está inflamando o país e a direita, pois John é um androide. E além dele, o terceiro personagem, o mais detestável de todos, Martyn Diretor, que não é uma pessoa especialmente brilhante, mas vem de família de nível muito alto e rica. Esses três personagens improváveis estão interligados e só descobrimos como bem perto do final. Devo admitir que me surpreendeu a forma como a coisa toda terminou.

Uma das questões trabalhadas no livro é sobre a forma como a rede nos classifica e como forma nossas bolhas. Peter Desempregado, por exemplo, recebe em sua casa um vibrador rosa na forma de um golfinho. Ele não apenas não pediu o produto como não é um usuário, mas a The Shop afirma que ele precisa do produto e se recusa a realizar a devolução, pois o "sistema não erra". Peter, que nem de longe é um cara normal e isento de defeitos, vai erguer um movimento global contra a The Shop na tentativa de devolver o vibrador. Mas percebe que o sistema é ainda mais malicioso do que parece.

Se o mapa online não mostra um determinado endereço, então as pessoas assumem que ele não existe. Mas você foi lá para ver? As pessoas em Qualityland confiam plenamente no serviço e nos revisionismos históricos. Estão tão absorvidas pela rede que elas acham o máximo um musical que conta a "história de amor de Eva e Hitler" e Peter se surpreende ao descobrir que houve um genocídio de judeus, pois "aquilo não estava no musical". Só que tal como a Matrix, muita gente não está pronta para ver a Qualityland pelo o que ela é, pois a maioria se tornou exatamente aquilo que o sistema acredita que elas sejam.

O livro vem em capa brilhante, ao invés de fosca, o que tende a ficar com marcas de dedos. A tradução do alemão ficou na mão de Claudia Abeling, que não está citada ao lado do nome do autor nas lojas online. Mancada, Planeta! A revisão do livro deixa a desejar (me contrata!). Existem erros bobos e absurdos pela leitura que deveriam ter sido corrigidos. Espero que o livro tenha uma segunda edição e corrigida.


Ficção e realidade
O livro pode ter sido escrito visando o público alemão, mas a ascensão de líderes populistas e despreparados vem sido acompanhada em vários locais do mundo, tanto que Marc conseguiu captar todo o ar de conspiração, burrice e populismo dos políticos em seu romance. Em um dos debates presidenciais de John of Us, a acusação de que ele seira um comunista logo aparece na leitura. Existem muitas situações absurdamente reais que me arrancou boas risadas durante a leitura porque, para a nossa desgraça, não estamos tão longe assim de Qualityland.

Marc-Uwe Kling

Marc-Uwe Kling é um escritor, compositor e comediante alemão. Estudou Filosofia e Artes Cênicas na Universidade Livre de Berlim e hoje comanda um podcast, Neues vom Känguru e um programa de rádio, Die Känguru-Chroniken.

A questão hoje é como convencer a humanidade para que consinta a própria sobrevivência.

Página 206


Pontos positivos
Qualityland!
Engraçado
Bem escrito
Pontos negativos

Problemas de revisão
Preço

Título: Qualityland
Título original em alemão: Qualityland
Autor: Marc-Uwe Kling
Tradutora: Claudia Abeling
Editora: Planeta (selo Tusquets Editores)
Ano: 2020
Páginas: 480
Onde comprar: na Amazon!


Avaliação do MS?
Eu espero que sua leitura de Qualityland seja tão boa como a minha foi. A despeito de perder um pouco do ritmo lá no meio e de ter alguns erros bobos de revisão, a leitura fluiu muito bem e foi muito divertida. Essa sociedade absurda não está tão longe da nossa. Quatro aliens para o livro e uma forte recomendação para você ler também!


Até mais!


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