Contágio nunca foi uma previsão, mas sim um alerta

Quando a pandemia foi declarada e o medo do Covid-19 se tornou alvo real e próximo de nossas vidas, muitas pessoas se voltaram para o filme Contágio (2011), de Steven Soderbergh. A maioria das manchetes a respeito do longa tem um conteúdo que eu pessoalmente abomino, dizendo que um filme de Hollywood previu a pandemia. O filme não previu nada, porque o filme é um trabalho de ficção. O alerta que ele deixa é sobre como agiremos durante uma pandemia que sempre esteve à vista no horizonte.

Contágio nunca foi uma previsão, mas sim um alerta



Contágio foi lançado em 2011. Com um elenco estelar de ganhadores do Oscar, com Marion Cotillard, Matt Damon, Laurence Fishburne, Jude Law, Gwyneth Paltrow, Kate Winslet, Bryan Cranston, Jennifer Ehle e Sanaa Lathan, o filme teve um orçamento de 60 milhões de dólares, tendo lucrado comercialmente cerca de 137 milhões. Não foi um grande blockbuster na época de seu lançamento, mas foi grandemente elogiado pela crítica por sua narrativa, as atuações e a precisão científica de seu enredo. Em 2020, Contágio se tornou o segundo filme mais visto da Warner Bros. (antes era o 270º).

O roteiro foi escrito por Scott Z. Burns, com quem Soderbergh trabalhou no filme O Informante (2009). Os dois conversaram longamente sobre um filme que falasse de um vírus altamente contagioso, inspirando-se nas epidemias da SARS em 2002-2004 e na de gripe, em 2009. O filme foi pensado desde o início para ser preciso cientificamente, de mostrar um evento o mais próximo da realidade possível, mas amparado pela ciência e pelas dinâmicas sociais que mudariam drasticamente quando a epidemia caísse sobre a sociedade. O próprio produtor do filme, Michael Shamberg, disse que o filme era um alerta baseado na ciência.

Burns então pediu ajuda de Larry Brilliant, conhecido na comunidade médica internacional por ter sido um dos articuladores da campanha de vacinação que erradicou a varíola do mundo. Burns também se consultou com W. Ian Lipkin, epidemiologista e professor da Escola de Saúde Pública da Universidade de Columbia e com Laurie Garrett, consultora de saúde e autora do livro The Coming Plague (1994). O roteirista e o diretor deram ouvidos aos epidemiologistas, aos infectologias, que dizem há décadas que uma pandemia não era uma questão de "se", mas uma questão de "quando".

Trabalhei em mais de 30 epidemias e as mesmas coisas [que ocorrem no filme] se repetem em cada uma delas. (...) Sempre têm os aproveitadores da internet, sempre tem uma teoria da conspiração culpando a CIA ou os paquistaneses, ou sei lá quem.

Laurie Garrett

Aqui entra o motivo de Contágio não ser uma previsão. A ficção não tem obrigação de prever qualquer coisa, porque o trabalho da ficção é contar uma história. Na ficção eu posso ter teletransporte, ter motor de dobra, som no espaço, sabre de luz, alienígenas e humanos tendo bebês fofos juntos, motores FTL e naves interestelares. Ficção é a arte de suspender a descrença e viajar para uma realidade paralela criada na cabeça de uma outra pessoa. Isso é ficção.

Contágio é um thriller médico baseado na ciência que mostra o que médicos estão avisando há décadas: uma nova epidemia mortal estava se avizinhando no horizonte, era apenas uma questão de tempo. E se os governos não se preparassem adequadamente e respondessem à crise de maneira rápida e certeira, pessoas morreriam. Avisou também sobre os aproveitadores vendendo curas milagrosas e o poder que as mentiras e os boatos têm quando as pessoas estão apavoradas tentando sobreviver.

cena do filme contágio onde a personagem de Kate Winslet está internada em um hospital de campanha
Kate Winslet é a Dra. Erin Mears, do Serviço de Inteligência Epidemiológica do CDC

O longa também nos mostra hospitais de campanha sendo construídos em ginásios de esportes e covas coletivas para dar conta das mortes. A corrida da ciência em entender as dinâmicas do vírus na tentativa de criar uma vacina. A forma como governantes criticam o "alarmismo" dos médicos ao minimizar os efeitos da doença e profissionais da saúde contaminados e morrendo porque estavam na linha de frente para tratar de pacientes.

O filme nos toca fundo porque é o que estamos vivendo hoje. Se tivéssemos tratado a ciência com o respeito que ela merece no mundo real, o filme não teria deixado as pessoas tão sensíveis, pois estaríamos preparados. Se a ciência recebesse as verbas e o financiamento que precisam de seus governos, os laboratórios teriam insumos e equipamentos vitais para lidar com um vírus desconhecido e teriam condições de sequenciá-lo e estudá-lo rapidamente. Se a saúde pública tivesse sido financiada corretamente hoje teríamos leitos de UTIs, respiradores e uma melhor estrutura de emergência para tratar dos doentes. Se a sociedade tivesse um mínimo de letramento científico, não veríamos a corrida por sabonetes bactericidas nos mercados e nem governantes arrotando ignorância na frente dos microfones.

Sem o cientista, não existe futuro.

Michio Kaku

Recentemente, o epidemiologista Ian Lipkin criticou a demora nas tomadas de decisões das autoridades no combate ao Covid-19 e alerta que novos vírus emergirão em um futuro próximo e que várias decisões erradas tomadas pelos governos ao redor mundo elevaram a pandemia aos níveis alarmantes de hoje. É horrível pensar nisso, mas precisamos encarar a realidade. Essa não será a última pandemia que a humanidade enfrentará. E daqui cem anos, pesquisadores discutirão o que foi e o que não foi feito para conter o Covid-19.

Dê ouvidos aos cientistas, às pesquisas sérias, às orientações das autoridades de saúde e quem sabe possamos todos sair juntos disso em um futuro breve. Trate a ciência com a mesma seriedade que o filme Contágio tratou.

Até mais.


Leia também:
Virologist behind ‘Contagion’ film criticises leaders’ slow responses - Financial Times
From Headaches to ‘COVID Toes,’ Coronavirus Symptoms Are a Bizarre Mix - Scientific American
Pesquisadores investigam mecanismos que desencadeiam fase inflamatória da COVID-19 - Revista Pesquisa FAPESP


Já que você chegou aqui...

COMPARTILHE

2 COMENTÁRIOS

  1. Assisti esse filme recentemente. Nossa!! Muito bom.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Siiim! Ótimo e assustador né?

      Você perguntou sobre o Espada & Planeta. Então, não foi por escolha minha. Uma sugestão: mande mensagens pro Holodeck, reclamando diretamente com o Marcelo. Eu mesma passei sua reclamação adiante. Mas quem sabe se mais alguém fizer coro comigo ele retoma?

      Bejas!

      Excluir

ANTES DE COMENTAR:

Comentários anônimos, com Desconhecido ou Unknown no lugar do nome, em caixa alta, incompreensíveis ou com ofensas serão excluídos.

O mesmo vale para comentários:

- ofensivos e com ameaças;
- preconceituosos;
- misóginos;
- homo/lesbo/bi/transfóbicos;
- com palavrões e palavras de baixo calão;
- reaças.

A área de comentários não é a casa da mãe Joana, então tenha respeito, especialmente se for discordar do coleguinha. A autora não se responsabiliza por opiniões emitidas nos comentários. Essas opiniões não refletem necessariamente as da autoria do blog.