Humboldt, meio ambiente e liberdade

O nome de Alexander von Humboldt deveria figurar no imaginário coletivo como a figura de um cientista e intelectual, um nome tão conhecido quanto Leonardo da Vinci, Marie Curie, Albert Einstein, Carl Sagan. Quase desconhecido fora do círculo acadêmico, aqueles que já ouviram falar seu nome sabem que ele está relacionado à sistematização da Geografia moderna enquanto ciência. Mas há muito mais por trás do nome.



Humboldt, meio ambiente e liberdade

No primeiro ano de Geografia aprendemos sobre a história da ciência geográfica, seu objeto de estudo - o espaço terrestre - e os grandes nomes responsáveis por sua sistematização. E um dos primeiros nomes a aparecer na lista de patriarcas é o de Alexander von Bumboldt, naturalista alemão. E depois passamos para os nomes seguintes, como Ritter e Ratzel. A moderna Geografia tem um grande pé na Alemanha e, posteriormente, na França, mas os alemães acabaram caindo em um ostracismo, especialmente Humboldt, devido a um sentimento anti-germânico por ocasião da Primeira Guerra Mundial.

Como o nome de Humboldt caiu no ostracismo no começo do século XX, muitas pessoas esqueceram de seus feitos, de suas ideias revolucionárias e que mais de 200 anos depois ainda ecoam e são relevantes. Um dos mais celebrados cientistas de sua época, Alexander era um astro da divulgação científica, como Carl Sagan foi. Nascidos em uma abastada família da Prússia, Wilhelm e seu irmão Alexander cresceram em um rígido lar controlado pela mãe distante e sem amor pelas crianças. Enquanto Wilhelm seguiu os desígnios da mãe, tornando-se um funcionário público de renome, além de diplomata, filósofo e fundador da Universidade de Berlim, Alexander só se sentia bem ao ar livre.

Alexander é tido como o primeiro ambientalista da história. No século XIX, em sua jornada pela América do Sul, ele já fazia um alerta sobre a destruição humana à natureza. Em primeira mão e fazendo algo que nenhum europeu ainda tinha feito, ele viu o péssimo manejo do solo transformando áreas férteis em desertos, o uso desenfreado da madeira, a pesca predatória e a irresponsabilidade dos colonizadores europeus sobre os povos nativos das Américas. Foi o primeiro a falar do efeito das florestas em purificar o ar e resfriar a região, bem como da importância de se proteger mananciais e mata virgem.

Para a época era um conceito tão gritantemente diferente que o tradutor de Humboldt (ele só escrevia em francês) para o alemão chegou a colocar uma nota de rodapé avisando que o alerta do autor sobre o uso dos recursos naturais e a ação humana destrutiva era "questionável". Para os europeus, a natureza tinha sido criada apenas para o uso e exploração da humanidade. Animais, recursos, água e povos não-brancos, tudo estava à disposição para a exploração. Não é à toa que ele se indispôs com meio mundo, incluindo os ingleses, que não o deixaram entrar na Índia Britânica, pois sabiam que a crítica sobre o colonialismo viria.

Humboldt interpretava a natureza como sendo parte da nossa existência. E para compreender a natureza era preciso mergulhar nela, não sistematizá-la e enfiá-la em longas classificações. Não que isso não seja importante, mas é preciso apreender o meio natural e fazer parte dele para assim compreendê-lo. E se você faz parte da natureza, não pode destrui-la, tratá-la como uma fonte infinita. Humboldt foi um dos primeiros a reparar como a pesca desenfreada em busca de pérolas diminuiu o estoque de ostras. Se durante milênios o modo de ver a natureza foi baseada nos pensamentos de Aristóteles, de que todas as coisas foram feitas para o usufruto do ser humano, Humboldt dizia que não, não era bem assim.

O homem não pode agir sobre a natureza e não pode apropriar-se de nenhuma de suas forças para uso próprio se ele não conhecer as leis naturais.

Alexander von Humboldt

Rompendo com o pensamento tradicional sobre a natureza, ele foi além. Os povos nativos das Américas eram vistos como bárbaros, incultos, sem alma. Massacrados pelos conquistadores por meio da doença e da barbárie, o que Humboldt encontrou foi um mundo rico em cultura, crenças e ritos, povos que conheciam melhor que os europeus suas terras e seu ambiente. Ferrenho abolicionista, ele dizia que escravidão e colonialismo eram a mesma coisa e que o bem-estar público não poderia ser medido de acordo com o valor das exportações. Justiça e liberdade eram muito mais importantes que os números e a riqueza de uns poucos abastados.

O pensamento de Humboldt é um desafio para muitos nos dias de hoje. Se Alexander fosse vivo, o que ele diria das práticas neoliberais, do afrouxamento das leis trabalhistas, do negacionismo climático e do negacionismo até mesmo durante uma pandemia? Se hoje temos uma noção de meio ambiente, preservação ambiental e de mudanças climáticas, de preservação da nossa espécie como parte da natureza, devemos isso a Humboldt. Seus ensinamentos foram absorvidos e de tal maneira se tornaram tão evidentes, que é quase como se o naturalista por trás delas desaparecesse.

Simón Bolívar foi grandemente influenciado pelo pensamento de Humboldt, a quem conheceu enquanto estava na Europa. Bolívar costumava dizer que Humboldt fizera um bem maior à América do que os conquistadores e aprendeu com o alemão a olhar as riquezas do continente sul-americano e a valorizá-las. Vinte anos antes de Darwin, Humboldt já falava da gradual transformação das espécies e Darwin faz elogios rasgados a Alexander em seus livros e correspondências. Henry David Thoreau e sua obra Walden não seriam as mesmas sem o trabalho de Humboldt e a criatura do romance de Mary Shelley, Frankenstein, tem um grande desejo de conhecer as vastas florestas da América do Sul. E o poema Eureka, de Edgar Allan Poe, grande admirador do naturalista alemão, foi dedicado a Humboldt.

Antes eu admirava Humboldt, agora eu quase o venero.

Charles Darwin

Crítico ferrenho ao colonialismo e à exploração, Humboldt colocou um pé na ficção científica quando, em 1801, ele especulou que, se viajássemos para outros planetas, levaríamos nossa ganância, arrogância e ignorância conosco e que deixaríamos o ambiente destes planetas tão destruído e impróprio para a vida tal como os ambientes da Terra. Isso deveria nos lembrar que este planeta é único e não temos como nos mudar para outro, torcendo para tudo dar certo da próxima vez.

Humboldt tinha duas coisas que são combatidas nos dias atuais: um intenso desejo de saber das coisas e imaginação. Ele se dispunha a falar com aqueles com ideias divergentes, pois para ele "sem a diversidade de opiniões, a descoberta da verdade é impossível" e defendia uma irmandade interdisciplinar de cientistas em constante troca de informações e conhecimentos. Humboldt tornou a ciência acessível e popular com seus livros e ensaios e recebia anualmente 4 mil correspondências.

Cerca de 25 mil pessoas se reuniram e marcharam por Nova York em 14 de setembro de 1869, no centenário do aniversário de Humboldt. Seu sobrenome foi homenageado em rios, formações, correntes oceânicas, baías, lagos, escolas, museus, fundações e 13 cidades na América do Norte. O estado de Nevada quase se chamou Humboldt. É uma lástima que seu nome não seja venerado e lembrado pelas pessoas e que tão poucos se lembrem de seus feitos e de sua ciência, pois seu legado está presente ainda nos dias de hoje. E mais do que nunca precisamos de curiosidade e imaginação.

Até mais!


A bem da verdade não existe distinção entre o destino da Terra e o destino das pessoas. Quando se abusa de um, o outro sofre.

Wendell Berry


Leia também:
The Forgotten Father of Environmentalism - The Atlantic
Alexander von Humboldt: the first environmentalist - Science Focus
Humboldt, el hombre que ayudó a Simón Bolívar a descubrir América Latina - El Comercio
WULF, Andrea. A Invenção da Natureza, Planeta: São Paulo, 2019, 2ªed, 600 pg.


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4 COMENTÁRIOS

  1. A primeira vez que lis obre Humboldt foi na sétima série, quando falou-se na Corrente Marítima de Humboldt. Não se explicou quem era esse e o porque da corrente ter seu nome. Apenas na universidade voltaria a ouvir falar do estudioso alemão, ainda assim de modo muito raso. Ao ler o livro me surpreendeu o homem muitissimo a frente de seu tempo.

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    1. Conversei pelo Twitter com outros geógrafos e professores e a maioria disse que também teve só uma pincelada sobre Humboldt. Nem mesmo nas disciplinas de geografia física e meio ambiente o nome dele é resgatado. Teve um seguidor que inclusive comentou que no mestrado ele leu um livro que falava do início do movimento ambiental e não tinha nenhuma menção ao Humboldt.

      A propaganda anti-germânica funcionou bem demais. Se eu fosse professora em curso de Geografia usaria esse livro da Andrea até dizer chega.

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    2. Eu andei pensando a mesma coisa. Quero ver se faço um trabalho com os alunos para resgatar grandes nomes da ciência geográfica que são relativamente esquecidos, como Humboldt e Milton Santos, por exemplo.

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  2. Antes mesmo de fazer Geografia, já o conhecia como explorador. Seu nome era citado por muitos outros cientistas, como um patrônomo por trás de grandes descobertas e ideias.
    Adorava ler sobre esses naturalistas.

    Na Geografia pude ler num grupo de estudos sobre Epistemologia alguns trabalhos dele.
    Tivemos inclusive, com um professor alemão, algumas traduções de primeira mão.

    Gostei muito do livro Kosmos. Toda aquela leitura romântica (no sentido do Romantismo) sobre a Natureza, sobre um espírito (não divino). É uma leitura muito bonita. Goethe também.

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