Resenha: Simone de Beauvoir, uma vida, de Kate Kirkpatrick

Simone de Beauvoir é um nome muito conhecido, bastante incompreendido, frequentemente odiado. Por sua figura e sua obra estarem atreladas ao feminismo, aqueles que nada entendem a respeito do movimento costumam tripudiá-la. Apenas recentemente sua obra completa e sem cortes, com uma tradução decente do francês foi publicada em inglês, o que mostra que muito do que se sabia sobre seu trabalho estava errado. A biografia escrita por Kate visa elucidar uma série de questões sobre a vida e a obra de Simone de Beauvoir, sem esconder as partes ruins.



Parceria Momentum Saga e
editora Planeta


O livro
Simone se preocupava com questões existenciais desde muito jovem. Aos 19 anos, ela se desentendeu com seu pai a respeito do amor e já em seus diários pessoais havia preocupações profundas com liberdade, o quanto de si dar ao mundo ou não, o significado de ser livre. Nessa época ela ainda não sabia que se tornaria uma das filósofas e escritoras mais famosas do século XX, cujo trabalho moldaria a segunda onda do feminismo e suscitaria mudanças em comportamentos, legislações e na sociedade.

Resenha: Simone de Beauvoir, uma vida, de Kate Kirkpatrick

Por conta de seu longo relacionamento com Jean-Paul Sartre, muitos sequer a consideram uma pensadora original, creditando seus postulados como sendo dele. O relacionamento dos dois, que tanto inspirou e criou discussões na época, o famoso "pacto", onde eles mantinham relacionamentos com outros amantes, pode ser visto como uma simbiose. Sartre não publicava nada sem a leitura e revisão de Simone e ele lhe ajudou a pensar em assuntos que antes Simone não tinha abordado.

Dizer que ela não era uma pensadora original é injusto, porém é compreensível porque tanta gente achou isso, atribuindo a Sartre. Primeiro, tem a própria misoginia, que relega a segundo plano ou coloca na conta de um homem os feitos de uma mulher. Segundo, que os diários pessoais de Simone e suas cartas foram publicados há pouco tempo, dando um panorama novo para a sua carreira e sua linha de pensamento, mas ainda não conseguiu derrubar vários mitos sobre Simone.

Repetidas vezes ela foi menosprezada como uma pensadora artificial e sem imaginação, como incapaz de ser uma ❝verdadeira filósofa❞. E quando ela defendia a profundidade e a originalidade de sua própria filosofia, raramente se acreditava nela.

Página 262

Ainda que Sartre fosse seu parceiro intelectual, um igual no quesito filosofia e mente filosófica, Simone sabia que não podia contar com ele quando estava triste, infeliz ou depressiva. Aliás, enquanto lia este livro, eu me perguntava o que diacho essa mulher viu nessa criatura. Embora ela tenha ocultado os defeitos dele em suas memórias, Simone não as ocultou em seus diários. Vendo Sartre pelos olhos de Simone em suas cartas e diários, sou obrigada a concordar com a escritora britânica Angela Carter: "por que uma moça simpática como Simone está perdendo tempo bajulando um velho peidorreiro e chato como JP [Sartre]?" (página 173).

Kate não deixou nada de fora. Inclusive os relacionamentos com jovens mulheres logo no começo de seu relacionamento com Sartre estão detalhados aqui. Concordo com Kate quando a autora comenta "o que ela tinha na cabeça?", pois pela forma como as envolvidas comentavam, Sartre e Beauvoir pareciam dois predadores sexuais. As cartas e diários de Simone mostram que ela se sentia mal pela forma como ambos tratavam as moças e dizia que Sartre devia se comportar de outra maneira, pedir desculpas e que ela não poderia mais enganar a si e às outras. Não sabemos o que a fez repetidamente ceder a outras mulheres, mesmo quando não queria, para se sentir culpada depois, mas ela escreveu o quanto se sentia desconfortável em algumas dessas relações.

Ainda que fosse muito conhecida como feminista e escritora, Simone foi a primeira mulher a lecionar filosofia em uma escola para meninos, em 1929. Tal como ainda acontece nos dias de hoje, mesmo tendo uma formação e conhecimento maior que seus colegas homens, Simone não podia alçar certos cargos apenas por ser mulher. Preocupada apenas com a forma dos pensamentos, das ideias, nem ela, nem Sartre, se preocupavam com a política no começo de seu relacionamento, um erro que Simone reconheceu mais tarde, em especial quando se envolveu com a política feminista que exigiu reformas na legislação francesa e o fato de não ter tomado uma posição mais firme contra o nazismo.

Infelizmente, com a explosiva publicação de O Segundo Sexo, Simone receberia um ódio venenoso de todos os lados, até mesmo dos aliados, o que faria as pessoas a odiarem sem antes ouvir o que Simone tinha a dizer. Traduções mal feitas e cortadas do livro levaram países anglófonos a interpretar errado uma série de seus postulados e teorias, aumentando a resposta negativa, as ameaças e cartas raivosas que Simone recebia. Seus livros e biografias, ainda que vendessem muito, acendiam novamente a chama do ódio contra Simone, que Sartre não recebeu. Acredito que ela própria enxergou as amarras da opressão e do desrespeito pelo fato de ser uma mulher que também não seguia as convenções sociais. Aliada à sua vida sexual, boa parte de sua filosofia foi mal aceita, mal praticada, mal estudada ou atribuída a Sartre.

O livro é muito bem escrito e pesquisado e percebe-se isso pela grande quantidade de fontes que Kate reuniu no final. Kate deixou muita coisa em aberto porque a própria Simone deixou e evitou dar sua própria interpretação, para não influenciar as leitoras. A edição da Planeta é em capa comum e foi muito bem traduzida por Sandra Martha Dolinsky. A revisão carece de mais cuidado, com erros bobos aqui e ali que podem ser sanados facilmente para uma próxima edição.


Obra e realidade
Acredito que uma das coisas que torna esta biografia extremamente importante para compreender a vida e a obra de Simone é que ela foi escrita por uma filósofa e especialista tanto em Sartre quanto em Beauvoir. Foram dez anos de pesquisas e leituras, com mais três anos de escrita, sento esta a primeira biografia escrita por uma filósofa e a primeira após a publicação de seus diários de estudante e diversos conjuntos de cartas dela aos seus amantes além Sartre. Diversos fatos e eventos que ficaram de fora das biografias anteriores agora podem ser discutidos pois estavam em cartas e diários de Simone, que eram antes inéditos.

Kate Kirkpatrick

Kate Kirkpatrick é escritora, professora, filósofa e teóloga formada pela Universidade de Oxford. Tem doutorado em Sartre, deu aulas sobre feminismo e filosofia de Simone de Beauvoir. Atualmente é professora de Filosofia e Cultura no King's College, em Londres.

Beauvoir havia escrito que todos deveriam ocupar um lugar no mundo, mas que só alguns de nós escolhem livremente que lugar ocupar. A condição humana é ambígua: somos sujeitos e objetos.

Página 226


Pontos positivos
Fotos
Bem pesquisado
Bem escrito
Pontos negativos

Problemas de revisão
Preço

Título: Simone de Beauvoir, uma vida
Título original em inglês: Becoming Beauvoir: A Life
Autora: Kate Kirkpatrick
Tradutora: Sandra Martha Dolinsky
Editora: Crítica (ed. Planeta)
Ano: 2020
Páginas: 416
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Avaliação do MS?
Acredito que consegui compreender Simone muito mais do que antes. Eu também caí nos textos depreciativos sobre Simone e em como sua obra foi destratada e desconsiderada pelos odiadores de plantão. E me pergunto: por que tantos homens com vidas questionáveis e comportamentos deploráveis não sofreram 1/4 do ódio que Simone sofreu? Por que as obras desses homens não caem no ostracismo e esquecimento, enquanto a dela é acusada de não ser original? Sabemos a resposta, certo? Cinco aliens para o livro e uma forte recomendação para você ler também!


Até mais!


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