Resenha: Silvestre, de Wagner Willian

Silvestre é uma das apostas da DarkSide nos quadrinhos nacionais. Acho que uma boa palavra para ele é "selvagem". Estamos acostumadas com a natureza bonita, singela, exuberante, mas costumamos esquecer o quanto ela é violenta e selvagem. Em Silvestre, aborda-se a relação entre ser humano e natureza de uma maneira visceral, bela, cruel e selvagem.



Parceria Momentum Saga e
editora DarkSide


O livro
Começamos a história acompanhando um velho que mora sozinho em uma cabana. Ele vive em uma floresta luxuriante, misteriosa. O velho é também um caçador. Depois de caçar um certo animal raro, ele decide assar uma torta. Conforme os aromas do assado extravasam os limites da casa e começam a rodar pela floresta, criaturas e animais fantásticos se aproximam da construção.

Resenha: Silvestre, de Wagner Willian

Não sei direito se o livro é um quadrinho, se é um livro ilustrado, ou se é uma mistura caótica de ambos. Foi como eu disse no começo, selvagem é a palavra certa para descrever a obra de Wagner. Selvagem, belo, bizarro, visceral. A brutalidade da natureza, que tão convenientemente gostamos de esquecer, a selvageria cotidiana das matas, está presente em quadrinhos que misturam ilustrações em preto e branco, coloridas, com o quadro desenhado ou não.

Os seres que se aproximam da casa são lendas e mitos, como o diabo, personagens conhecidos da cultura pop e personagens brasileiros e do folclore como a Cuca, do Sítio do Pica-Pau Amarelo, Curupira e até a Mula Sem Cabeça dá o ar da graça. O que parece um bosque ou uma floresta equatorial pode muito bem ser nossa mata tropical. A moça da capa será de fato uma moça ou um jovem rapaz com traços muito femininos? É difícil descrever o conteúdo do enredo, pois há uma subjetividade que você vai preenchendo com os toques que o autor dá. Cada um vai acabar interpretando da forma que achar melhor e cabe a você identificar cada uma das figuras ali desenhadas.

Há violência e um apetite voraz preenchendo as páginas. É como um lembrete gráfico da violência natural, tanto aquela que vem da natureza selvagem como aquela que vem com o ser humano. Desenvolvemos cultura e civilização de modo a refrear impulsos, mas há situações em que aquele espírito ancestral e bruto emerge e encontra a natureza, a sua própria natureza. Virando as páginas, percebe-se que aquele velho assiste a um desfile de brutais representações. Podem ser partes dele mesmo, podem ser aquelas que ele quis esquecer, outras que nunca o abandonaram.

Além da mistura de quadros e cores (ou a ausência delas), há também uma mistura de técnicas. De nanquim, à tinta óleo, ao próprio sangue de Wagner em algumas páginas, o que temos em mãos é uma obra de vários estilos, técnicas e mensagens que se combinam de uma maneira estranha e única. A fonte usada nos diálogos também segue esse padrão caótico, o que às vezes dificultou a leitura. Acredito que a fonte faça parte do cenário de algumas passagens, mas ainda assim foi chatinho de ler em alguns momentos.

detalhe da arte de Silvestre

Apesar de bestiais em grande parte, nenhuma daquelas criaturas era estúpida a ponto de saber que apenas uma torta serviria a todos, por mais que ele dividisse em minúsculas parte iguais. Quais ganhariam um pedaço e quais ficariam sem?

A edição vem em capa dura com uma sobrecapa macia com detalhes em dourado. O papel do miolo é encorpado com impressão de alta qualidade, o que garante toda a visceralidade que descrevi acima. Há um prefácio de Felipe Castilho, que teve as mesmas impressões da obra que eu.


Ficção e realidade
Henry David Thoreau tinha uma constante insatisfação com a sociedade, com o stablishment, com a ordem geral das coisas e como a civilização vinha caminhando. Então, tal como o velho do começo de Silvestre, ele foi viver numa cabana no meio da floresta, com apenas 27 anos, produzindo a própria comida. Tal como o velho, Thoreau encarou os "fatos essenciais da existência, em vez de descobrir, à hora da morte, que não tinha vivido". Precursor da moderna ecologia, Thoreau queria expulsar "o que não fosse vida" de sua existência. É uma análise pertinente de se fazer em meio ao capitalismo e à vida conturbada das cidades, onde algumas pessoas reclamam do canto dos pássaros e algumas chegaram a colocar lanças afiadas nos galhos para impedi-los de pousar. Quem é o selvagem da história?

Wagner Willian

Wagner Willian é um quadrinista e ilustrador brasileiro. Seu primeiro trabalho publicado foi o quadrinho Deus é o Jiraiya, publicado online pelo site Nébula.


Pontos positivos
Ilustrações
Referências
Cultura pop, mitos e lendas
Pontos negativos

Violência
Preço

Título: Silvestre
Autor: Wagner Willian
Editora: DarkSide (selo Graphic Novel)
Ano: 2019
Páginas: 192
Onde comprar: na Amazon ou na loja da DarkSide com brinde exclusivo!


Avaliação do MS?
Gostaria muito de saber a opinião de outras pessoas que leram Silvestre. Será um grande exercício o de combinar as diferentes impressões de cada, o que fisgaram daquele caos natural e brutal dos quadros. Saiba que você terá uma sensação de estranhamento, mas isso faz parte da experiência. Quatro aliens para Silvestre e uma forte recomendação para você ler também!


Até mais! 🦌


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1 Comentário

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