O problema das cidades utópicas

Recentemente eu li um texto sobre a cidade que o Google quer construir para revitalizar uma área degradada de Toronto, no Canadá. O projeto, obviamente, já levantou um monte de questões, inclusive de governança, pois a cidade sustentável e interligada, construída com base na internet e na gestão de dados, estaria fora das mãos de um governo eleito por seus cidadãos e sim na mão de uma grande corporação.

O problema das cidades utópicas



Ninguém sabe ao certo como as cidades surgiram. Existem algumas hipóteses como segurança, locais de culto e peregrinação, fonte de alimentos. Sabemos apenas que o ser humano, em grande parte, deixou de ser nômade e começou a se juntar em assentamentos que foram se tornando vilas, que foram crescendo, tornando-se aglomerações e depois cidades cada vez maiores. Hoje existem mais pessoas morando nas cidades do que na área rural. E os problemas das cidades apenas aumentam conforme incham sem controle.

Uma cidade só é o que é por causa da atividade humana que lhe dá vida. Quem disse isso foi Milton Santos, não eu, e ele estava coberto de razão. A cidade existe por conta dos significados que damos a ela, por conta da produção e reprodução do espaço urbano, que ganha novas camadas de uso e utilidade conforme a população se apropria dos espaços. A escola pode se tornar uma casa temporária para pessoas que perderam tudo em uma enchente. Um bairro puramente industrial perde o chão de fábrica para ganhar shoppings e condomínios fechados. Se uma bomba de nêutrons for detonada sobre uma cidade, tudo o que é orgânico vai morrer, deixando as construções intactas. E aí acabou-se a cidade. Sem gente, sem cidade.

Ainda que a internet seja um direito humano reconhecido, uma cidade é muito mais do que sua conexão com a rede. Dentro de uma área metropolitana com cidades conurbadas e nenhum limite físico separando-as, os desafios de governança são imensos, pois existem pessoas sem saneamento básico, sem acesso a transporte público, hospitais e creches, existem pessoas de diferentes níveis de escolaridade, com conhecimentos variados de tecnologia. O que existe é uma riqueza de dados para se usar e explorar como bem quiser, que é uma das críticas à iniciativa do Google.

A cidade do Google promete ser sustentável, com materiais renováveis e limpos. Que as pessoas poderão viver do lado de fora da cidade que será inteligente na forma de distribuir a luz solar e a energia. Que tudo estará em um raio de até 15 minutos das pessoas. O que me preocupa em projetos de "cidades inteligentes utópicas" é que esse será um privilégio ao qual pouquíssimas pessoas terão acesso. Pense nas pessoas mais velhas, que mal conseguem utilizar um smartphone para fazer uma ligação porque não entendem as funções e a tela touch. Como elas poderiam estar integradas a uma cidade inteligente, utilizando totens de atendimento e inteligência artificial?

Pessoas que moram as periferias, que tiveram acesso a um ensino deficiente, que mal conseguiu suprir as necessidades de formação de um indivíduo, como poderão interagir com cidades inteligentes? O que sinto de projetos como esse é que ele acaba sendo um funil cada vez mais apertado, onde poucas pessoas têm acesso às benesses milagrosas das metrópoles modernas.

Quem vive nas cidades, com modernidades de apps e start ups e zonas de wifi, tem a tendência de achar que isso é um padrão para outros lugares, que todos têm o mesmo acesso, mas não esqueça que o bairro de Cidade Tiradentes, em São Paulo, não faz muito tempo, ficou eufórico por ter ganhado um quiosque de sorvetes do McDonald's. Existem jovens nas periferias das cidades grandes que nunca foram ao centro, nunca viram um museu, não têm acesso à banda larga, nem têm chances de entrar em uma faculdade. E aí? Como integrar essas pessoas às cidades utópicas?

Devemos abandonar o sonho de ter uma cidade igualitária, de acesso a todos, com redução de desigualdades, que seja sustentável, limpa e segura para todos? Não, é claro que não. Já dizia Eduardo Galeano:

A utopia está lá no horizonte. Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar.

Eduardo Galeano

A utopia é uma linha no horizonte a qual devemos usar como inspiração, um marcapasso para nossas atitudes. Mas antes de construir cidades utópicas, baseadas em internet e tecnologia, vamos reconstruir nossas cidades com base nas pessoas. O que está faltando nas gestões das metrópoles e megalópoles é pensar na população, aquela que constrói e reconstrói a cidade, que lhe dá vida e a anima. Hoje os governos deste ou daquele partido pensam nas indústrias, nos carros, nas empresas, enquanto a população de São Paulo está sem o monotrilho por conta de um problema mecânico. Vários avisos foram feitos, especialistas decretaram que o monotrilho não era adequado ao transporte de massa, com transporte limitado de passageiros e um custo insustentável. O governo foi lá e fez e quem pagou foi a população, a despeito de todos os avisos e estudos em várias cidades do mundo.

Ao invés de abandonar as cidades para construir sonhos tecnológicos, vamos reconstruir e ressignificar o que já temos. Vamos repensar a cidade pela perspectiva das pessoas, pois são elas que lhe dão vida, são elas que as constroem e habitam.

Até mais! 🏙


Leia também:
Projetando cidades inteligentes: uma abordagem humana - ArchDaily
Brilhante ou aterradora? Assim é a cidade do futuro que o Google está construindo em Toronto - El País
How do we ensure that humanity flourishes in the cities of the future? - Stanford Engineering


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