Resenha: Mais forte que o mar, de Kassandra Montag

Detesto dar nota baixa para um livro. Sério. Sinto que falhei com a autora, que falhei com a história, que de alguma maneira não consegui apreciar o trabalho que a autora teve de criar sua obra. Não é fácil escrever um livro, publicar e ainda por cima receber críticas negativas. Infelizmente, o primeiro livro de Kassandra Montag não consegue se sustentar e tem mais problemas que virtudes.



O livro
Esse livro tinha tudo para me ganhar logo de cara: protagonista feminina, escrito por mulher, distopia, elevação do nível dos oceanos, uma busca de uma mãe em meio ao caos de um novo mundo. Myra, a protagonista, teve duas filhas, mas a primeira foi roubada pelo pai e levada embora. Ela buscou pela filha nos portos onde parava ocasionalmente para vender o fruto de sua pesca, mas a garota simplesmente sumiu há 7 anos.

Resenha: Mais forte que o mar, de Kassandra Montag

Myra testemunhou a subida rápida dos níveis dos mares e ainda assim tentou levar uma vida normal, namorando, estudando, cuidando da casa, mas foi em vão. As águas avançaram para dentro do país, chegando os estados da região central e levando tudo em seu caminho, inclusive sua mãe. Sobrou ela, o namorado, Jacob, o avô e um bebê. Seu avô construiu o barco em que Myra e a filha mais nova, Row, foram morar. Sozinhas, as duas vivem de porto em porto, vendendo o que conseguia nas redes e nas linhas de pesca, conseguindo produtos como frutas, cordas e tecido.

O que senti desse livro é que um trabalho melhor de edição teria transformado a obra em um grande livro. Ele me parece na verdade um rascunho de algo muito melhor, mas que por alguma razão acabou não desenvolvido. As discussões e arcos dos personagens começam e não se desenvolvem o suficiente. Um exemplo: Myra tem uma grande amida em terra firme, onde aparece de vez em quando para trocar seus peixes e descansar. Ela nunca mais é mencionada na história, nem em pensamento, nem nada. É como se ela tivesse evaporado.

A explicação que Myra dá para a surpreendente subida meteórica dos mares também não se sustenta. Seria melhor ela ter deixado em aberto, deixasse que a leitora fizesse a conexão com as mudanças climáticas globais, o aquecimento da atmosfera, mas a forma como ela explicou o evento é sem pé nem cabeça e em nada contribuiu para o enredo, além de ser algo que ficou solto pelo caminho. Outra coisa solta pelo caminho são as distâncias percorridas pela protagonista. É impressionante como ela percorre milhares de quilômetros em um barquinho de madeira em tão pouco tempo. Eles saem dos Estados Unidos até a América do Sul em um ou dois dias. Incrível! Além dos oceanos terem subido, o planeta diminuiu de tamanho também. #ironia

Os personagens são insuportáveis, a começar da protagonista, que se gaba de ser fria, durona, que não deixa ninguém amolecer seu coração, mas fica suspirando de amores pelo primeiro cara que ela resgata para dentro de seu barco. Esse mesmo cara se machuca feio umas páginas para frente e depois de tratado, esse machucado grave que quase o fez perder um membro não é mais mencionado, nem mesmo uma dorzinha repuxando aparece. Na grande maioria das vezes, um enredo se encontra nos detalhes e detalhe é o que falta nesse livro. Essas situações reforçam o meu sentimento geral, de que é um rascunho de algo que poderia ser muito melhor.

Os personagens são todos rascunhos do que poderiam ser e você acaba sem se importar com nenhum deles, até nas situações de perigo. Corsários dominam certas partes do mar e algumas cidades e portos, sendo um risco sério para aqueles que não compactuam com suas atividades. Mesmo eles não são bem mostrados e há um conflito interno no navio para onde Myra e Row vão que, mais uma vez, acaba mal explicado, solto na história, incompleto.

A tradução ficou na mão de Regiane Winarski e está ótima, mas a revisão deixa a desejar. Existem termos que foram traduzidos e depois aparecem no idioma original. Faltam letras aqui e ali e até algumas palavras faltam em determinadas frases, como se a editora tivesse pressa para publicar. Li a versão em ebook, não o livro físico, mas também senti falta de um mapa mostrando a configuração desse novo mundo em que a geografia foi alterada tão radicalmente.

A gente se acostuma com a perda do mesmo jeito com que se acostuma com a água. Não dá para imaginar a vida antes dela, não tê-la ao redor.


Ficção e realidade
A subida do nível dos mares não é ficção científica, ela está acontecendo. Se o ritmo do aquecimento continuar, as águas vão engolir países como Tuvalu e vão inundar grandes capitais mundiais como Londres, Nova York e Rio de Janeiro. No Brasil, um aumento significativo da água engoliria praticamente todas as grandes capitais e causaria um êxodo da população. Historicamente, a maior parte da população brasileira vive a até 100km do litoral, reflexo da nossa colonização.


Kassandra Montag é uma escritora e poeta norte-americana, com mestrado em Língua Inglesa, que cresceu no estado de Nebraska. Os direitos para a televisão de Mais forte que o mar já foram vendidos.

Pontos positivos

Elevação do nível dos mares
Bem traduzido
Pontos negativos
Personagens
Problemas de revisão
História não se sustenta

Título: Mais forte que o mar
Título original em inglês: After the Flood
Autora: Kassandra Montag
Tradutora: Regiane Winarski
Editora: HarperCollins
Ano: 2019
Páginas: 384
Onde comprar: na Amazon


Avaliação do MS?
O que é mais forte que o mar é o amor de uma mãe para com suas duas filhas e a tragédia de não ter uma ao seu lado. Os medos, os anseios, as esperanças de uma mãe em busca da filha estão todos no livro. Infelizmente, esse arco não se sustenta em um livro que parece incompleto, que parece um rascunho do que poderia vir a ser. Há muito potencial para uma série de discussões que, simplesmente, não foram feitas. Dois aliens para o livro.


Até mais! 🌊


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1 Comentário

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