Resenha: Recursão, de Blake Crouch

Tornei-me uma grande fã de Blake Crouch depois de ler Matéria Escura, também lançado pela Intrínseca. Tinha lido em inglês e depois em português e sabia que seu próximo livro, Recursão, seria igualmente devorado com a mesma rapidez do anterior. E foi mesmo!



Este livro foi uma cortesia da Editora Intrínseca


O livro
O livro é contado por duas perspectivas. A primeira é a de Barry Sutton, um melancólico policial da cidade de Nova York, que ainda vive com a terrível lembrança da morte da filha. Barry estava perto de uma emergência, uma tentativa de suicídio, e se depara com uma mulher que sofre com a Síndrome da Falsa Memória, doença misteriosa que vem atacando ultimamente e que planta na cabeça das pessoas acometidas por ela lembranças de uma vida que elas nunca viveram.

Resenha: Recursão de Blake Crouch

O desespero daquela vítima é real - e afinal quem não ficaria? - já que ela não tem lembranças de uma outra vida desconhecida que inunda sua cabeça como uma enxurrada. Barry não consegue compreender o que está acontecendo e acaba se envolvendo no caso, buscando mais informações sobre os nomes ditos por aquela mulher. A segunda perspectiva é de Helena Smith, uma neurocientista promissora que está desenvolvendo uma tecnologia para a cura do Alzheimer, mas que precisa de financiamento para prosseguir com suas pesquisas. Com mais uma negativa da universidade, um milagre acontece: um dos homens mais ricos do mundo se oferece para financiá-la.

Gosto muito da forma como Blake constrói a ciência fictícia de seus livros. Ele te convence que aquela tecnologia poderia funcionar no mundo real, por mais incrível que pareça. E quanto começamos o livro, percebemos que algo já está acontecendo, apenas não se generalizou nem causou muitos problemas. A Síndrome da Falsa Memória, em um primeiro momento, é apenas uma curiosidade médica que não tem causa biológica. Alguns acham que é um problema psiquiátrico. No fim, os médicos estão tão perdidos quanto suas vítimas.

Mas logo somos jogados em uma rede de intrigas que vai acabar levando Barry e Helena por caminhos estranhos, enquanto toneladas de memórias falsas caem nas cabeças das pessoas, até mesmo na deles. Consegue imaginar o caos de, de repente, ter memórias que não são suas pipocando na sua mente, sem nenhum controle? Como saber quem você é se você se lembra de coisas que nunca viveu? É de pirar, não é? Então dá para compreender o pânico que começa a surgir conforme a síndrome se espalha sem controle.

Não se pode confiar aos seres humanos tecnologias de tamanho poder. Vide a fissão nuclear, que trouxe a bomba atômica; igualmente perigosa, se não mais, seria a possibilidade de transformar lembranças e consequentemente, a realidade, sobretudo por ser algo tão sedutor.

Página 132

A maneira como Blake descreve a ciência por trás dessa síndrome é muito boa, mas em alguns momentos senti um certo infodump, em que você fica atolada de explicações sem entender direito como elas se encaixam. Dá sim para compreender como a coisa toda funciona, mas vai exigir um certo exercício mental e uma certa paciência para entrar no clima. Barry e Helena são ótimos personagens, cujas vidas vão acabar se entrelaçando de maneira inevitável, e você acaba levada pelas experiências e lembranças de suas vidas, mesmo sabendo o custo que terá para eles no futuro.

Ainda que o livro tenha algumas cenas de ação, ele acaba sendo muito introspectivo em vários momentos, pois lida com as memórias de cada um dos personagens. E memórias são muito íntimas. É pavoroso saber que seria possível ganhar memórias do nada e até você descobrir o que está acontecendo e como a síndrome acontece, tudo lhe passa pela cabeça. É essa tremenda curiosidade que faz as páginas praticamente virarem sozinhas e você só quer descobrir logo como tudo aquilo vai acabar.

Recursão veio pelo Clube Intrínsecos, da editora Intrínseca, algumas semanas antes do lançamento oficial. A edição agora já está à venda, em uma capa amarela e dura belíssima com detalhes prateados e um belo trabalho gráfico interno. O livro não tem grandes problemas de revisão ou de tradução, que foi de Sheila Louzada e está ótima. Aliás, muito obrigada à Intrínseca por colocar os nomes dos tradutores junto das fichas técnicas de seus livros nas lojas online. A comunidade da tradução agradece!


Ficção e realidade
Tal como Matéria Escura, o autor nos faz questionar a realidade usando-se de paradoxos científicos e ciência fictícia para fazer girar uma série de perguntas: o que é real? Como saber que você é você mesma? Essa realidade é a única que existe? E se sua vida pudesse ser diferente? Em algum momento da vida todas nós já nos fizemos essas perguntas e ver a forma como o autor usou a ciência e a ficção para fazer isso foi excelente. É algo que levaria uma pessoa à loucura facilmente e traria o caos à sociedade.

Blake Crouch

Blake Crouch é um escritor norte-americano, conhecido pela trilogia Wayward Pines, que virou série de televisão.

Pontos positivos
Discussão sobre a realidade
Síndrome da Falsa Memória
Helena e Barry
Pontos negativos

Explicações científicas meio confusas
Infodump

Título: Recursão
Título original em inglês: Recursion
Autor: Blake Crouch
Tradutora: Sheila Louzada
Editora: Intrínseca
Ano: 2019
Páginas: 320
Onde comprar: na Amazon!


Avaliação do MS?
Não posso contar muito sobre a tecnologia do livro, mas posso dizer que se você curtiu Matéria Escura e curte ficção científica, certamente vai curtir Recursão! É impossível não virar as páginas com avidez, querendo logo descobrir o próximo passo, os próximos eventos, o que acontecerá a Barry e Helena. Quatro aliens para o livro e uma forte recomendação para você ler também!


Até mais! ∞


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1 Comentário

  1. Nossas memórias definem tanto do que somos e como conduzimos nossas vidas! Que desesperador ter memórias que não são suas, como saber o que é real e o que não é?
    Bela resenha!

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