Resenha: Semente de Bruxa, de Margaret Atwood

Tenho um certo problema com a Margaret. Acredito que O conto da aia é um dos livros mais importantes que já li, porém não consigo gostar da autora e de sua forma de narrar histórias. Olhando para as leituras que fiz de suas obras, não consigo gostar de nada, tirando a graphic novel de O conto da aia, que é boa justamente por não precisar ler o livro todo. Em Semente de Bruxa, temos uma reformulação de uma peça de Shakespeare.



Parceria Momentum Saga e
Editora Morro Branco


O livro
Felix é um renomado diretor teatral. Está no meio de uma produção em um festival de teatro que é reconhecido pela quebra de padrões, pela inventividade quando é dispensando por aquele que considerava seu braço direito, o pau pra toda obra, Tony. Tony é um oportunista, que anseia pelo cargo de diretor para subir na vida e acaba se aproveitando da profunda dependência de Felix por seu trabalho, o que lhe deixa com toda a parte administrativa, para passar a perna no patrão, ainda abalado pela morte da filha de apenas 3 anos, Miranda e da esposa, Nadia, que morreu no parto.

Resenha: Semente de Bruxa, de Margaret Atwood

A peça - A Tempestade - tinha como intenção original de homenagear a vida e a memória da garotinha, mas o golpe mais que baixo de Tony lhe deixa sem emprego, sem perspectiva e profundamente isolado. Felix se afasta das pessoas, se isola em um barracão à beira de uma estrada, onde começa a ser corroído pela ira. Felix acaba criando uma nova identidade e passa anos remoendo o que lhe aconteceu, mas acaba entrando em um programa de alfabetização de presos como professor de literatura. Apesar do trabalho lhe dar algo para fazer e com o que ocupar a mente, é com vingança que ele sonha.

Eu entendo que a autora não podia fugir muito do escopo original de Shakespeare. Por exemplo, Felix, quando decide colocar sua vingança para funcionar, parece estar sempre no lugar certo, no momento exato que seus planos precisam para se desenrolar. Consigo aceitar muito mais que Felix tivesse visões de sua filha (ou seu fantasma?), afinal o trauma da perda de um filho é muito grande para qualquer mãe ou pai, mas foi difícil encarar com naturalidade que toda situação simplesmente funcionasse para o plano de Felix. Tipo, sério?

Sou sincera em admitir que a única obra de Shakespeare que conheço e li foi a peça de Romeu e Julieta em um livrinho que comprei por acaso em uma livraria de bairro e ele acabou parando em um sebo depois. Aprecio a genialidade do autor, mas não curto. Fazer o que? Talvez por isso eu não tenha apreciado tanto a leitura, pois em alguns momentos senti que Atwood não soube conduzir direito a narrativa, aliado ao fato de que não curto sua escrita.

Ainda que a forma como Felix se conecta a seus alunos na produção de A Tempestade, que ele pretende usar para se vingar, seja interessante e que a autora trate de isolamento, sistema prisional e traumas muito bem, achei praticamente todos os personagens chatos, rasos, sem graça. Não consegui me importar com nenhum deles. Na verdade, houve momentos em que apenas queria que a leitura acabasse logo, pois não aguentava mais a sede de vingança do protagonista. Houve momentos em que tive a impressão que ela apenas enrolou para continuar, sem chegar a nenhuma conclusão efetiva para toda aquela vingança.

A edição em si da Morro Branco está muito bonita, com capa vermelha e macia ao toque, com um marca páginas acompanhando. A tradução ficou na mão de Heci Regina Candiani e está muito boa. Alguns probleminhas de revisão como palavras não batidas e falta de pontuação em alguns parágrafos.


Ficção e realidade
Semente de Bruxa é uma versão modernizada de A Tempestade, de Shakespeare. O livro foi uma encomenda como parte de um projeto de recontar famosas peças do autor. A Tempestade, acredita-se, tenha sido sua última peça. O título é inspirado pelo personagem Calibã, filho da bruxa Sycorax. A peça se passa em uma ilha remota onde Próspero, duque de Milão, planeja restaurar a sua filha, Miranda ao poder utilizando-se de ilusão e manipulação. Próspero então invoca uma tempestade na esperança de atrair para a ilha seu irmão Antônio, que usurpou seu ducado, e seu cúmplice, o rei Alonso de Nápoles.

Margaret Atwood

Margaret Atwood é escritora, ensaísta e crítica literária canadense. É reconhecida com inúmeros prêmios literários internacionais importantes. Recebeu a Ordem do Canadá, a mais alta distinção em seu país.


Pontos positivos
Miranda
Fala sobre isolamento e traumas

Pontos negativos
É lento
Demora a empolgar
Personagens sem graça

Título: Semente de Bruxa
Título original em inglês: Hag-Seed
Autora: Margaret Atwood
Tradutora: Heci Regina Candiani
Editora: Morro Branco
Páginas: 352
Ano de lançamento: 2019
Onde comprar: na Amazon!


Avaliação do MS?
É um livro bom, sem dúvida. Há coisas boas a se tirar dele durante a leitura, mas infelizmente não deu para mim. Achei até que não conseguiria terminar, mas acabei levando para ver até onde o enredo iria. Não rolou comigo, mas pode rolar com você. Três estrelas para Semente de Bruxa.


Até mais!

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1 Comentário

  1. A única obra de Atwood que li até hoje foi O Conto da Aia, e mesmo consciente do impacto desta obra, confesso que às vezes a tentação de pular alguns parágrafos ou até páginas era grande, pois a escrita parecia um pouco arrastada. Não sei se este é o estilo padrão dela, embora é o que pareça pela sua resenha.
    O tema de Semente de Bruxa parece ser interessante!
    Agradeço pela visita lá no blog e desejo um 2020 com muitas conquistas!

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