Resenha: Metrópolis, de Thea von Harbou

Nunca antes publicado no Brasil, Metrópolis chegou em grande estilo pelas mãos da editora Aleph. O livro originado do clássico filme de Fritz Lang, de 1927, o filme que definiu muito do que seria a ficção científica dali em diante, sem dúvida é um fruto de sua época e da visão de sua autora. Justamente por isso que deve ser lido.



Parceria Momentum Saga e
editora Aleph


O livro
O enredo se passa em um futuro que, para a época em que Thea escreveu era distante, mas que para nós são uns seis anos. Metrópolis é uma cidade avançada, opressora, que se sustenta com grandes e poderosas máquinas e o trabalho escravo de milhares de trabalhadores que vivem no subterrâneo. A cidade é praticamente um organismo vivo e nesse sentido me lembrei imediatamente de minhas aulas de geografia urbana, onde estudávamos os espaços da metrópole, a forma como as pessoas dão significado e vida aos centros urbanos. Sem nós, não se tem uma cidade, se tem apenas um aglomerado de construções.

Resenha: Metrópolis, de Thea von Harbou

Nesta cidade viva e de poucos privilegiados, o filho do Senhor de Metrópolis, Freder, se apaixona por uma moça do subterrâneo, Maria, e as duas sociedades vão acabar colidindo. O livro de Thea tem semelhanças inquietantes com When The Sleeper Wakes, de HG Wells e acho que isso reflete uma visão de alguns escritores da época de seu medo do futuro, da substituição por máquinas, do controle da vida humana por elas.

Freder acaba conhecendo as condições desumanas impostas aos trabalhadores de Metropólis e isso o coloca em confronto com seu pai, que não está interessado em suas queixas ou nos trabalhadores massacrados pela grande máquina da cidade. Revoltado Freder começa a conspirar contra o pai e a se envolver com os trabalhadores.

Não pode haver intermediário entre céu e inferno que não tenha estado no céu e no inferno.

Página 119

Para a época em que foram lançados, tanto o filme quanto o livro mostravam uma preocupação geral de uma população que via as cidades crescerem cada vez mais, máquinas tomando o espaço no chão de fábrica, nenhuma preocupação com o bem-estar de trabalhadores que eram engolidos por máquinas, mutilados pela industrialização, em especial mulheres e crianças. A cidade só é o que é porque tem a vida humana lhe dando significado. Assim, se os trabalhadores tomassem Metrópolis, a grande máquina pararia e sua serventia mudaria. Existem muitas discussões a se fazer no livro e no filme.

O livro também tem extras que o longa não tem. Por exemplo, boa parte do ar místico que vemos nas páginas e as várias menções divinas não foram transportadas para as telas. São duas mídias diferentes, então o livro tem mais tempo e espaço para discutir uma série de coisas. Algumas coisas como o robô sem rosto, os ossos prateados e a pele de cristal também estavam longe da capacidade técnica da época e por isso o robô parece tão diferente no longa. É curioso pensar que o filme foi um completo fracasso de bilheteria que quase faliu o estúdio. Teria sido esse o motivo para o nome de Thea ter caído no esquecimento pouco depois e o livro derivado quase esquecido? Muita gente acha que a novelização seja uma obra de segunda classe, ofuscada pela fama do filme.

Os personagens são caricatos e, em geral, mal construídos. Sabe aquele exagero nas expressões faciais e nos gestos que vemos em filmes mudos, justamente por não terem o áudio para dar ênfase? Senti a mesma coisa nas páginas do livro e acredito que, se foi essa a intenção de Thea, de capturar a essência do filme, ela certamente conseguiu. Assim como temos novelizações de roteiros atuais, essa novelização captou o ar do filme.

Não vou dizer que a leitura flui tranquilamente. Eu tropecei várias vezes com o vai e vem que Thea faz e os longos diálogos com os devaneios de muitos personagens. Teve momentos em que tive a impressão que ela enchia linguiça na cara dura. Mas uma coisa é inegável: a sensação de se estar em Metrópolis, de viver nessa cidade que devora seus habitantes é uma metáfora perfeita para as grandes cidades, as megalópoles da atualidade, onde áreas urbanas inteiras estão conurbadas, onde apenas um sinal de trânsito serve de divisa entre os municípios.

O livro em si é um dos mais bonitos já produzidos pela Aleph. O projeto gráfico de Pedro Inoue conseguiu transportar para as páginas o visual do filme e ele ficou perfeito. Entre os capítulos existem 23 ilustrações de Mateus Acioli lembram cenas do filme e a tradução diretamente do alemão por Petê Rissatti está excelente. Não encontrei problemas de revisão ou diagramação no livro. No final temos alguns extras. Um posfácio escrito pela cineasta Marina Person, uma análise de Franz Rottensteiner, editor e crítico especializado em ficção científica, um texto de Anthony Burgess, autor de Laranja mecânica, e uma reprodução do programa do filme para a ocasião de seu lançamento.


Ficção e realidade
O livro foi ignorado durante década aqui no Brasil e lá fora caiu no esquecimento. Thea foi uma das mais influentes escritoras e roteiristas alemãs de sua época. Então o que levou seu nome ao ostracismo? Teria sido sua filiação ao partido nazista? Fritz Lang teria fugido da Alemanha e teria se divorciado de Thea também por suas inclinações nazistas. Segundo Thea, ela apenas se filiou ao nazismo e trabalhou para o departamento de propaganda apenas para ajudar imigrantes indianos, já que seu marido era da Índia.

Acho provável que sua simpatia ao nazismo foi apenas o segundo motivo para seu ostracismo. O primeiro, sem dúvida, é por ser mulher. Ofuscada pelo sucesso de Fritz Lang, seu trabalho ganhou o esquecimento porque era uma mulher. Muitos simpatizantes do nazi-fascismo foram muito bem sucedidos em suas carreiras e seus trabalhos praticamente não foram manchados por isso.

Thea von Harbou

Thea von Harbou foi uma atriz, cineasta, roteirista e escritora alemã.


Pontos positivos
Metropólis
Personagens
Sociedade industrial
Pontos negativos

Leitura pode ser devagar

Título: Metrópolis
Título original em alemão: Metropolis
Autora: Thea von Harbou
Tradutor: Petê Rissatti
Ilustrações: Mateus Acioli
Editora: Aleph
Ano: 2019
Páginas: 416
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Avaliação do MS?
O livro não tem a intenção de exaltar as inclinações nazistas de Thea. É nítido que ela tinha orgulho de sua origem e exaltava o nacionalismo. Isso aliás é algo que estudamos na faculdade, pois a geografia fez parte da construção da identidade alemã nas décadas seguintes à Primeira Guerra Mundial. O livro deve ser lido como um testemunho de seu tempo, de um momento de intensa inquietação urbana, de pobreza generalizada na Alemanha e a sensação de que estavam sendo traídos ou deixados para trás. Os extras analisam a obra nos ajudam a entender seu contexto. Cinco aliens para o livro e uma forte recomendação para você ler também!


Até mais!


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1 Comentário

  1. interessante esse medo da substituição por máquinas na ficção científica, em duas classes separadas, os robôs (criados por nós) e nós, passados para trás.

    Acho que o estilo Black Mirror está mais certo. Estamos nós virando as máquinas (virtuais). Será que no fundo não vamos mesmo viver todos em um mundo 100% virtual, como Matrix, mas impostos por nós mesmos, dada o fim do espaço (vide metrópoles), recursos minerais, consumismo, escape da realidade que muitos buscam no virtual...


    E acho que e a diferenciação de classe é sempre a boa e velha classe social, sendo que a virtualização é mais proeminente nas classes abastadas. Os ricos vão viver nos mundos de imersão digital.

    Sobre o livro: Estranho que quando soube que ela era nazista, fiquei meio perplexo. O filme mesmo me parecia até... marxista. rsrsrs

    Mas é igual hoje, tenho certeza que pessoas muito criativas e com uma visão interessante de mundo, por diversos tipos de pressões, confusões e rancores profundos, votaram em um fascista, e depois se arrependerão.

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