Resenha: As abolições da escravatura no Brasil e no mundo, de Marcel Dorigny

O Brasil é um país que tem uma grande dificuldade de reconhecer seu passado e legado escravagista. O genocídio perpetrado contra a população negra é constantemente romantizado ou simplificado, visto pela perspectiva branca sem nenhuma reflexão ou reconhecimento do que o período realmente foi. Em um país onde a população negra é maioria nos presídios, nas comunidades pobres periféricas e minoria nos cargos de CEO, na magistratura, em posições de comando, é fácil perceber que o país precisa de uma segunda abolição.



Parceria Momentum Saga e
editora Contexto


O livro
A abolição da escravatura foi um dos acontecimentos mais marcantes da história do Brasil. Ela aconteceu por meio da Lei Áurea, aprovada no dia 13 de maio de 1888 com a assinatura da regente do Brasil, a princesa Isabel. Isso é o que a gente sempre aprendeu na escola e na mídia que, ao representar esse momento histórico, coloca exclusivamente na assinatura da princesa o momento da abolição. O que essa versão da história faz, na verdade, é apagar as insurreições e movimentos abolicionistas, os nomes de várias personalidade negras que lutaram pela abolição e suprimiram quase um século de lutas constantes para comprimir tudo em uma assinatura, como se não houvesse uma história prévia.

Resenha: As abolições da escravatura no Brasil e no mundo, de Marcel Dorigny

A abolição, na verdade, teve o protagonismo dos negros escravizados na forma de uma resistência que começou quase que imediatamente depois do início do tráfico transatlântico. Foram necessários cerca de um século de movimentos abolicionistas para acabar com essa abominação e o Brasil foi um dos últimos a relutantemente abolir a escravidão e libertar a população negra sem nunca ter feito uma total integração à sociedade, algo que ainda se perpetua.

Os movimentos abolicionistas são o foco deste livro curtinho de Marcel Dorigny. Justamente por ser curtinho ele não tem um conteúdo extenso sobre os movimentos, porém é um ótimo ponto de partida para se trabalhar até mesmo no ensino básico, pois é sintético, bem escrito e apresenta os principais fatos que levaram a um século de abolicionismos pelas Américas.

Marcel relata no livro que vários fatores estiveram envolvidos nos diversos movimentos, começando por Santo Domingo em 1793, após uma revolta e na Europa começando pela França, que aboliu a escravidão em 1794. A Inglaterra viria a abolir a sua apenas em 1833 depois de banir o comércio de escravos em 1807. Os Estados Unidos só aboliram em 1865 e o Brasil, o último nas Américas, em 1888.

Alguns dos fatores envolvidos, por exemplo, são os ideais iluministas. Se antes dos ideais iluministas começarem a se espalhar a escravidão recebeu críticas, a abolição raramente era mencionada ou reivindicada. Porém, no final do século XVIII, ideais de igualdade entre as pessoas ganhavam força entre políticos e intelectuais. Mas nenhum ideal é forte o bastante para derrubar um sistema tão amplamente defendido por elites e fazendeiros sem uma forte oposição e resistência dos próprios escravizados.

Diversas revoltas e organizações se espalharam pelas Américas, tão logo a escravidão se instituiu. Esse papo ridículo de que a "escravidão foi boa para os negros" é papo de supremacista branco que acredita que povos não-brancos são todos selvagens incultos e que ele, o branco salvador, tem o dever de "civilizá-lo". Essa ideia ainda é perpetuada no ensino e no senso comum, basta ver como o desgoverno atual trata os indígenas e como tratou uma charge sobre o genocídio negro na Câmara dos Deputados, em Brasília.

A abolição não aconteceu de uma vez e de maneira definitiva. Longe disso. Pela história do próprio Brasil vemos várias leis que, gradativamente, davam condições de liberdade, ainda que com armadilhas legais praticamente impossíveis de se cumprir, como a Lei do Sexagenário, idade que dificilmente uma pessoa escravizada alcançava, devido à alta mortalidade. Essas ondas precisaram tomar atitudes mais enérgicas, persistir e resistir, agregando pessoas nas casas legislativas e muita ação de grupos e pessoas abolicionistas. As revoltas foram extremamente importantes, pois mantiveram os senhores de escravos em uma constante insegurança, o que também contribuiu para exaltar as fragilidades deste sistema de exploração.

O livro, como eu disse, é bem curtinho, porém com um conteúdo sintético e direto que pode servir de ponto de partida para se ampliar os estudos a respeito, seja na escola ou na faculdade. Papel branco no miolo, um tanto frágil, então tome cuidado com anotações e grifa-texto. A tradução ficou na mão de Cristian Macedo e Patrícia Reuillard e não encontrei problemas graves de revisão.

(...) os processos que levaram ao ❛fim da escravidão❜ são muito menos conhecidos e frequentemente relegados ao final das obras consagradas à escravidão em si. No entanto, o desfecho da escravidão colonial foi um processo longo, complexo e conflituoso, que merece uma atenção especial. Os diferentes modos de fim de escravidão, impostos como uma nova forma de trabalho generalizado em grande parte em grande parte das colônias do ❝Novo Mundo❞, originaram sociedades pós-escravagistas de naturezas diferentes.

Página 14


Obra e realidade
O brasileiro tem essa mania de achar que por sermos um país miscigenado, onde tantas culturas convivem em um mesmo território, nós não seríamos racistas. Essa ilusão é especialmente repetida por brancos, que nunca sofreram com racismo. Mas ele é bem evidente nas falas do torcedor que ofendeu o segurança do estádio, na cor da pele das pessoas mortas por balas perdidas nas periferias nas mãos da polícia, na cor de garis e da população carcerária. A herança colonial não foi extinta com a abolição, ao contrário, ela permanece firme, sendo relativizada por aqueles que a apoiam. Não deveria ser permitido um restaurante se chamar Senzala, mas no nosso país é e ainda o defendem.

Marcel Dorigny

Marcel Dorigny é historiador e atua no Departamento de História da Universidade Paris-VIII. Escreveu diversos livros sobre abolição e escravatura.


Pontos positivos
Bibliografia
Bem escrito
Bem pesquisado
Pontos negativos

É introdutório


Título: As abolições da escravatura no Brasil e no mundo
Título original em francês: Les Abolitions de l’esclavage
Autor: Marcel Dorigny
Tradutores: Cristian Macedo e Patrícia Reuillard
Editora: Contexto
Ano: 2019
Páginas: 160
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Avaliação do MS?
Mesmo sendo um livro introdutório, a leitura foi muito proveitosa. Eu desconhecia a maioria dos movimentos e acontecimentos ali listados, uma falha evidente do ensino que recebi. Gostaria de ler algo mais robusto a respeito, mas para começar os estudos, este livro é perfeito. Quatro aliens para o livro e uma forte recomendação para você ler também!


Até mais!


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