E se a internet acabar?

Esse é um exercício que deveríamos fazer de vez em quando. Vivemos conectadas, pelo menos nas grandes cidades, fazemos transações bancárias e marcamos encontros, passamos mensagens, deixamos nossas impressões sobre livros, filmes e séries em apps e sites, pedimos documentos e marcamos hora, pedimos pizza, compramos ebooks que baixam na hora em nossos dispositivos. É uma infinidade de serviços e produtos que podemos pedir e coisas que podemos fazer com acesso a internet. Em 2011, a ONU afirmou que o acesso a internet é um direito humano. Mas você já pensou em ficar sem ela? Nem estou falando de uma falha na energia elétrica e você fica sem o wifi em casa, usando a rede do celular. Estou falando do fim mesmo de todo e qualquer acesso. Já pensou o caos?

E se a internet acabar?



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Pensa um instante no seu dia a dia no trabalho. Quais são as coisas que você ainda faz de maneira analógica? Você datilografa documentos? Manda cartas? Vai ao banco abrir contas ou descontar cheques? Tive certa dificuldade de pensar aqui em todas as coisas analógicas que eu faço, pois são bem poucas. Sem a internet eu não teria um blog ou lançado meus livros. Não teria conhecidos bons amigos nem trabalhado com eles. Sem a internet a Sybylla não existiria.

Fiquei pensando nos meus tempos de escola e que o maior avanço a que a gente tinha acesso na época era o pager. E ele ainda era bem analógico em uma série de coisas. Você tinha que ligar - pensa bem, LIGAR - para o serviço e ditar sua mensagem para uma atendente. Muita gente tinha vergonha de ditar uma mensagem para outra pessoa e era comum você receber mensagens do tipo ME LIGA URGENTE, e quando ligava pra pessoa ela só queria que você passasse na padaria ou na farmácia.

O Brasil não é tão conectado quanto países da Europa ou Estados Unidos. Ainda existem lugares no mundo com quase nenhum acesso e pouca ou nenhuma presença online. O Brasil nem é tão urbano quanto a gente, na cidade grande, acha que é. É por isso que a visão que a população brasileira das cidades tem de seu próprio país é distorcida, pois ela acha que os serviços de uma cidade grande estão distribuídos em todo o território nacional. E não estão. Só para comparar, eu moro na grande São Paulo e aqui não funciona o iFood ou Uber Eats, serviços que na capital são onipresentes. Na capital eu pedia pizza na pizzaria do bairro pela internet, aqui só uma atende pelo WhatsApp.

Acho que as pessoas ainda não se deram conta da imensa quantidade de dados flutuando sobre nossas cabeças a cada segundo. Para algumas a internet é esse serviço mágico que sempre existiu. Mas quanto do nosso trabalho hoje é conectado? Sabemos que no Brasil ela ainda não conseguiu se espalhar completamente. Mas muitos serviços essenciais estão conectados. Toda prefeitura tem uma conexão de internet com os serviços do governo estadual e federal. Qualquer postinho de saúde possuí uma internet para acessar bancos de dados de secretarias de saúde, ministério e vigilância epidemiológica. Os Poupatempos estão aí justamente para diminuir a burocracia e são totalmente conectados para se pedir e emitir documentos com a facilidade da internet.

E se tudo isso sumisse de um dia para o outro? Consegue pensar no caos de não haver nenhuma conexão, em lugar nenhum? Bilhões de pessoas perderiam a capacidade de acessar, transmitir e armazenar informações. E muitas não saberiam como voltar para o papel. No Twitter, em um fio de discussão da @MulherTamarindo, ela perguntou se as pessoas ainda tinham pastas de músicas no computador. Muitos ali disseram que não, que utilizam tudo via streaming. Isso me espantou mais do que deveria, pois eu não uso Spotify com frequência, ouço mais as músicas que tenho armazenadas há anos que passei de um computador para o outro. Se amanhã o acesso sumir, vai ter gente sem ter que ouvir.

Na época em que a internet começou a se popularizar, eu lembro que minha mãe chegava no escritório, ligava o computador e ia pegar um café, tirar as cópias do dia e passar os faxes obrigatórios. Levava uns 15 minutos. Aí ela sentava, redigia os documentos todos, imprimia e levava para o chefe assinar. Não havia a imensa conectividade de hoje, onde um processador de textos pode ser usado na nuvem, onde você armazena dados. Toda a minha vida acadêmica está na nuvem para economizar espaço no computador. Com o fim da internet, eu perderia tudo o que fiz na faculdade. As únicas provas seriam os diplomas e meu TCC.

A boa notícia é que derrubar a internet para sempre é difícil. Seria necessário algo grande, algo na escala planetária, para fritar componentes eletrônicos, antenas e servidores de tal forma que pudesse derrubar a internet e até a energia elétrica. Precisaríamos ter um pulso eletromagnético poderoso e uma erupção solar para dar conta da tarefa. Os dois eventos inundariam o planeta com eletromagnetismo capaz de derrubar por completo a infraestrutura da internet.

Em 1989, uma erupção solar bagunçou os satélites de GPS e os sinais de rádio, derrubando também a energia elétrica de Quebec. Nosso planeta já é protegido por uma magnetosfera e uma atmosfera, então o Sol precisaria praticamente explodir para enviar o magnetismo necessário para derrubar a internet. E as armas cibernéticas? Elas poderiam derrubar toda a internet? Ainda que sites como Google e outros portais possam cair por acesso em massa, isso não quebraria a internet inteira. Teria que ser um dano físico muito, mas muito sério e generalizado.

A má notícia é que sendo um direito humano básico ele ainda não é garantido para todos os seres humanos. A internet nos leva a qualquer lugar do mundo e poderia nos ajudar a lugar contra a desigualdade e lutar por melhor acesso a saúde e educação, a denunciar crimes contra a humanidade e a democratizar o acesso às pessoas. Se não podemos quebrar a internet - uma das maiores invenções da humanidade - deveríamos ao menos garantir que todos tenham acesso a ela e impedir a disseminação de ódio e preconceitos. Acabar com ela não dá, então vamos tentar, ao menos, torná-la melhor.

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Hoje, remover a Internet significa tirar um superpoder que bilhões de pessoas dão como certo.

The Day It Finally Happens - Mike Pearl

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