Resenha: Os vampiros, de Filipe Melo e Juan Cavia

Em março de 1961, Portugal viu eclodir em Angola, uma de suas colônias na época, uma insurreição que logo se espalhou para as outras, levando a um longo conflito, a assim chamada Guerra Colonial, que durou 13 anos, levando à uma revolução em 25 de abril de 1974. Este é o cenário de fundo deste quadrinho surpreendente que acompanha um grupo de soldados com uma tarefa aparentemente simples em uma missão secreta no Senegal.



Parceria Momentum Saga e
Editora SESI-SP


O quadrinho
Um grupo de soldados portugueses está na Guiné, em 1972. É o final da guerra de libertação das antigas colônias dominadas por Portugal. O grupo precisa fazer o reconhecimento de uma base de rebeldes no Senegal e depois retornar. Esses são soldados já marcados pelas agruras da guerra e da vida, marcados por coisas que viram ou fizeram, obrigados ou não. Estão todos cansados, essa é uma longa guerra que enfim está terminando, cada um ali tem suas paranoias, seus medos e pecados.

Resenha: Os vampiros, de Filipe Melo e Juan Cavia

Os únicos vampiros aqui somos nós.

Página 218

Sei que a premissa é igual a muitos filmes de guerra por aí. Mas mesmo o tema não parecendo ser original, já é uma história que não se passa no Vietnã. Ela fala da Guerra Colonial que, pelo menos nós aqui, pouco falamos ou ouvimos falar na escola. Mesmo temas que pareçam batidos podem ser trabalhados com originalidade na mão de autores e autoras talentosos. Que é o que ocorre aqui.

Aproveitando-se das sombras naturais de uma mata fechada, os quadros são bem aproveitados para momentos de tensão, onde o mal espreita o grupo, bem como seus próprios demônios. Demônios pessoais é o tema principal aqui, pois eles assombram os soldados no decorrer da missão, seguindo de paranoia profunda e medo irracional conforme se aproximam de seu objetivo.

A violência que os militares usaram contra o povo na guerra também foi usada no quadrinho em momentos pontuais que se arvoram na realidade. Enquanto o fundo histórico é real, o enredo é fictício, mas uma ficção que se relaciona intimamente com o psicológico daqueles homens. A violência absurda que seria logo condenada no cotidiano é algo banal para aqueles que estão imersos até o pescoço na violência. Para alguns, não há mais volta. Eles sempre serão aqueles soldados modificados pela brutalidade.

Adorei o traço de Juan Cavia, que dá expressões e trejeitos bem definidos para cada um dos soldados e para os outros personagens que surgem pontualmente e mais próximo do final. As cores saltam aos olhos junto das onomatopeias que acabam fazendo parte do cenário. As cores foram bem exploradas, tanto o estouro delas quando a completa ausência e você é jogada em cada momento tenso junto dos personagens que são capazes de qualquer coisa quando estão com medo. Tons pastel indicam momentos em que os soldados pensam no passado ficando bem evidente a mudança na linha do tempo para quem está lendo.

Os vampiros, de Filipe Melo e Juan Cavia

A edição do Sesi-SP está um primor, com papel nobre e impressão colorida. No rodapé de algumas páginas há explicações para algumas siglas utilizadas nas falas, além de uma breve biografia dos autores no final. A capa segue o padrão da capa portuguesa e não há problemas de revisão na edição.


Quadrinho e realidade
Aos poucos, as Forças Armadas portuguesas estão liberando milhares de arquivos referentes às operações militares nas antigas colônias. Mas alguns relatórios indicam a violência extrema de soldados e oficiais contra os insurgentes, como por exemplo decapitações. Se fossem relatórios de violência perpetrada pelos insurgentes, ninguém questionaria a veracidade dos relatórios, mas quando os relatos são sobre militares treinados, parece que ninguém consegue aceitar que eles pudessem ser capazes de fazer isso.

A loucura humana é a coisa mais matreira e felina que existe. Quando se pensa que desapareceu, pode ser que não tenha feito mais do que se disfarçar em uma forma ainda mais sutil.

Herman Melville, Moby Dick (começo do segundo ato do quadrinho)

Filipe Melo e Juan Cavia

Juan Cavia é um ilustrador, quadrinista e diretor de arte argentino que desde criança passava horas copiando seus quadrinhos favoritos para treinar desenho. Filipe Melo é um músico, diretor e autor de quadrinhos português, começando cedo a estudar piano, jazz e improvisação.

Pontos positivos
Guerra Colonial
Críticas sobre a guerra
Lindamente ilustrado e colorido
Pontos negativos

Preço
Violência


Título: Os vampiros
Título em Portugal: Os vampiros
Autores: Filipe Melo e Juan Cavia
Ilustrações: Juan Cavia
Roteiro: Filipe Melo
Editora: SESI-SP
Páginas: 232
Ano de lançamento: 2018
Onde comprar: na Amazon


Avaliação do MS?
É possível escapar da loucura? Por quanto tempo é possível fingir que está tudo bem, conforme o remorso, o medo e a paranoia consome as pessoas por dentro? Aquele que diz que não se arrepende de nada está cercado de demônios por todos os lados. Os Vampiros é uma história onde o pior lado do ser humano aflora e domina, toma conta de todo o resto. Uma grande edição do Sesi-SP. Cinco aliens para o quadrinho e uma forte recomendação para você ler também!

MARAVILHOSO!

Até mais!

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