Resenha: O cérebro no mundo digital, de Maryanne Wolf

A proposta deste livro é desafiadora. Além de quebrar vários conceitos que eu tinha, ele me ajudou a enxergar um problema sério que vinha me acometendo e o qual eu vinha tentando remediar há um tempo, algo que eu aposto que você também vem sofrendo. Maryanne Wolf nos mostra que o mundo digital mudou a forma como lemos e adquirimos conhecimento, mas não quer dizer que isso seja totalmente benigno. As consequências estão aparecendo e elas são bem sérias.



Parceria Momentum Saga e
Editora Contexto


O livro
O cérebro humano não foi feito para ler. Ler não é algo inato do ser humano, é uma conquista que elevou nossa cultura e sociedade e ainda que a linguagem tenha raízes genéticas, a leitura não é algo natural. Mas nosso cérebro é plástico, flexível e tem uma grande capacidade de aprender coisas inatas, de se adaptar e de suprir necessidades. Aposto que muitos professores nas séries iniciais julgavam seus alunos pela capacidade de ler, achando que era algo natural do cérebro, quando na verdade não é.

Resenha: O cérebro no mundo digital, de Maryanne Wolf

Leia também: Como anda a sua concentração?

Nossa capacidade de ler e raciocinar é incrível, mas para fazer isso, você precisa ter atenção ao que está lendo. Precisa se concentrar para absorver os conceitos, ideias, ações que estão descritos. A leitura é uma construção feita por quem escreve e por quem lê usando palavras. Mas você já deve ter sentido que sua concentração, sua atenção ao que estava lendo andou caindo nos últimos tempos. Não se preocupe, aconteceu comigo também.

Acontece que agora eu sei o motivo. Maryanne Wolf explica sobre o processo que vem levando nossa atenção a níveis cada vez mais baixos, explica a arquitetura cerebral da leitura e como o uso exagerado de telas vem levando a leitura profunda a cair. Toda a dinâmica da leitura muda dentro do nosso cérebro quando usamos telas e aí aquele momento em que levamos para raciocinar algo, para absorver conhecimento e transformar em sabedoria, para mudar de postura e atitude se perde, pois fazemos uma leitura superficial da coisa.

Quem lê cuidadosamente consegue distinguir melhor o que é verdade e acrescentar o que sabe.

Página 70

Diz aí quantas vezes você só passou de olhos pela leitura, captando as ideias principais do texto, fechou a tela e foi para outro link? Quantos portais de notícia você segue? E quantos textos completos você lê? Uma das primeiras coisas que fiz foi cortar em mais da metade o número de portais de notícia que eu seguia. Eu não apenas não conseguia acompanhar o volume de informações - que também é um problema para o cérebro - como também não lia tudo aquilo. Selecionando melhor o que eu sigo, consigo ler os textos com muito mais calma.

Maryanne estruturou seu livro em cartas, cada uma delas sendo um capítulo. Com uma linguagem bastante acessível e muitas fontes e leituras adicionais para quem quiser se aprofundar, ela mostra como a leitura de uma simples letra, ainda mais uma palavra inteira, ativa várias regiões do cérebro, como a leitura, especialmente a de ficção, é responsável pela formação da empatia e o que está acontecendo conforme lemos mais e mais em telas.

Ela não quer que a gente abomine totalmente as telas. Eu leio e muito bem em meu Kindle e nem sei como conseguiria ler tudo o que eu quero sem ele. Mas algo que eu já tinha reparado antes é que não dá para estudar por ele. Ainda prefiro o livro físico, artigos impressos e escrever à mão quando se refere a estudo, pois assim eu gravo melhor as informações. Lembro que no mestrado uma professora aconselhou que não anotássemos direto no notebook, que escrevêssemos a mão para guardar melhor a informação. Maryanne simplesmente quer que a gente modere o uso delas, que saiba usar com sabedoria, dosando um método e outro.

E por que isso? Porque a incapacidade de ler profundamente nos impede de absorver conceitos, de pensar sobre problemas complexos, de mudar de ideia e de opinião. Ao passar de olhos em vários textos com cada vez maior frequência, a gente perde a essência da coisa. Sem a leitura profunda, nos tornamos cada vez mais rasos, tanto na empatia quanto na opinião e isso é um prato cheio para qualquer demagogo com respostas fáceis que aparecer por aí.

Maryanne também aponta a importância da leitura para as mentes das crianças e como elas são essenciais para a formação da empatia. Nos estágios iniciais de formação do cérebro, a cognição se forma depois da percepção dos sentimentos. E crianças que vivem ligadas em telas, o tempo todo mexendo em tablets e celulares, tendo sua atenção disputada por todo tipo de distração e sem ter momentos de ócio, em que possam exercer a criatividade, ficam com seus cérebros encharcados de hormônios como o cortisol e a adrenalina, relacionados ao estresse, principalmente. O que muita gente pode achar que é hiperatividade na verdade é o vício nas telas.

A edição da Contexto é em papel pólen, capa macia e está muito bem diagramado e revisado. Encontrei poucos e pontuais problemas que acredito serem de revisão. A tradução ficou na mão de Rodolfo Ilari e Mayumi Ilari e está excelente.

A atrofia e o gradual desuso de nossas capacidades reflexivas e analíticas como indivíduos são os piores inimigos de uma sociedade verdadeiramente democrática, qualquer que seja a razão, o meio ou a época.

Página 232


Obra e realidade
Muitas pessoas pela internet estão relatando a queda nos níveis de concentração e Maryanne atribui isso ao fato de lermos mais e mais em telas, mas sem fazer a devida reflexão. Nosso cérebro tem dificuldade de focar, nós precisamos exercitar isso o tempo todo para afiar a mente e se você para, aquele texto que depende de uma leitura profunda vai ser algo chato. E a tendência é procurarmos cada vez mais fontes fáceis de informação, fontes rasas, pouco embasadas, que não exija tanto da nossa capacidade de pensamento. Consegue ver esse fenômeno acontecendo ao seu redor?

Maryanne Wolf

Maryanne Wolf é professora da Universidade da Califórnia em Los Angeles, com doutorado em Harvard, leitora voraz e pesquisadora e diretora do Centro de Dislexia e Estudos da Leitura da mesma universidade.


Pontos positivos
Capa dura
Muitos extras
Ilustrações e projeto gráfico
Pontos negativos

Preço


Título: O cérebro no mundo digital
Título original em inglês: Reader, Come Home: The Reading Brain in a Digital World
Autora: Maryanne Wolf
Tradutores: Rodolfo Ilari e Mayumi Ilari
Editora: Contexto
Páginas: 256
Ano de lançamento: 2019
Onde comprar: na Amazon


Avaliação do MS?
Minha edição está toda rabiscada e escrita pelas laterais, com post its e lembretes, pois foi uma leitura maravilhosa. Saber que é um processo reversível, que há uma explicação, que eu não sou um caso perdido foi revigorante. Não só isso, ela não pede que você jogue fora seu smartphone, apenas que o use com mais sabedoria, dando preferência pelo físico ao invés do virtual sempre que precisa de uma leitura mais profunda. Espero que esse livro possa ser uma leitura proveitosa para você também e que te ajude a compreender melhor esse processo da leitura profunda e da atenção necessária para fazê-la, voltando a ler mais e melhor.

É também uma dica para professores melhor compreenderem o processo e assim ajudar seus alunos a ler melhor. Edição mais que recomendada e leitura obrigatória!

Até mais!


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1 Comentário

  1. Nossa, fiquei com muita vontade de ler esse livro! Lendo seu review, finalmente pude entender que não estou com algum problema, já que tento me concentrar todas as vezes e não consigo. São tantos textos, tantas notícias, tantas informações, que fico perdida e fico só na leitura superficial para entender o conceito das coisas e não ir mais a fundo nelas.
    Como vou me graduar em Jornalismo, creio que isso é uma "exigência da profissão", mas preciso encontrar um modo mais saudável para mim, porque não está dando certo o atual.

    Quero muito ler esse livro e entender mais! Já o coloquei na lista. Agora é só espera uma promoção!

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