Como anda a sua concentração?

Como anda sua concentração ultimamente? Você tem conseguido ler e compreender textos em profundidade, capaz de discutir a respeito depois da leitura? Você se prende ao que está lendo com atenção? Consegue finalizar tarefas sem se interromper? Ou você tem lido textos aos pedaços, só aquela passadinha de olhos em busca de termos reconhecíveis, enquanto pula de texto em texto pela internet, parando para ver aquela notificação do Instagram da amiga que foi para a Irlanda ou então vendo aquele vídeo do Nifty sobre como tirar marca de café de caneca, depois de rolar a TL do Twitter?

Tudo bem, você não está só.

Como anda a sua concentração?



Uns tempos atrás eu percebi que estava com dificuldade de ler. Melhor dizendo, eu tinha dificuldade de terminar um simples bloco de texto em um livro. Eu começava a ler, chegava no final e já não sabia mais o que estava lendo. Isso se repetia em praticamente qualquer leitura que eu fizesse. Me frustrava por não ver a leitura andando, nem fluindo como sempre fluiu. Eu leio bem rápido, é uma característica minha, e sempre compreendi os textos e virava as páginas muito rápido. Então como que agora eu estava com dificuldade de fazer uma das coisas que mais gosto nessa vida?

Por conta própria, resolvi analisar a questão. Havia muita ansiedade envolvida nisso, obviamente. Entrar na internet é levar um tsunami de informações ao mesmo tempo, em diferentes redes e locais. Percebi que o excesso de locais de leitura e acesso às informações estava me sobrecarregando. Até porque eu não lia os links de dez portais de notícia diferentes. Foi assim que cortei o acesso a quase todos, ficando com três portais de confiança e bem escritos, não aqueles que apenas repassam informações e os quais eu tenho condições de ler de cima a baixo.

Depois comecei a estipular metas de leitura. Eu não viraria uma página sem entender o texto antes. Nem pegaria mais no celular para conferir o que quer que fosse. Reduzir as horas no celular ainda é muito difícil já que eu faço muito do meu trabalho por ele, mas tirei todas as notificações e ele vive no silencioso, justamente para que eu resista à tentação de pegá-lo.

Mas ainda fica a questão: venho notando que essa falta de atenção, essa incapacidade de me concentrar em uma tarefa não é só coisa minha. Vejo pessoas pela internet quase arrancando os cabelos, porque não conseguem mais ter a atenção que tinham antes, nem conseguem mais se concentrar em uma única tarefa, pois logo estão distraídas fazendo outra coisa e aí elas ficam atoladas de coisas incompletas para fazer. Além do excesso de trabalho que muitas pessoas sofrem (e a culpa que sentem caso não estejam 100% ocupadas) há uma questão ainda mais importante: seres humanos não nasceram para ler.

Diferente da linguagem, a leitura é uma invenção cultural. É uma das maiores façanhas da raça humana e em apenas 6 milênios a leitura se tornou o fator catalisador de transformação do desenvolvimento nos indivíduos e nas culturas letradas. Adquirimos e repassamos conhecimento através da leitura e da escrita, coisas que desenvolvemos ao longo do tempo e aperfeiçoamos ao longo da vida. Ao contrário da linguagem, a leitura não tem conexões fixas. Mas nosso cérebro possuí uma grande plasticidade e capacidade de aprender coisas que são não-naturais, assim o ato da leitura envolve diversas regiões do cérebro.

A qualidade de nossa leitura não é somente um índice de qualidade de nosso pensamento, é o melhor meio que conhecemos para abrir novos caminhos na evolução cerebral de nossa espécie. Há muito em jogo no desenvolvimento do cérebro leitor e nas rápidas mudanças que caracterizam atualmente suas sucessivas evoluções.

(...)

À diferença do que acontece com a aquisição da linguagem, a inexistência de um projeto prévio para os circuitos da leitura significa que sua formação está sujeita a uma variação considerável, baseada nas exigências da língua particular do leitor e dos ambientes em que se dá o aprendizado.

Maryanne Wolf, O Cérebro no Mundo Digital

A minha falta de concentração e dificuldade de leitura devem ser familiares para você. Estamos vivendo um momento de revolução na leitura e na forma de absorver informações e isso tem se dado, principalmente, pelo meio digital. E os circuitos do cérebro leitor são formados tanto por fatores naturais quanto ambientais, além, é claro, da mídia em que a capacidade de ler é adquirida e desenvolvida. Por mais que a gente use tablets, smartphones, telas e mais telas para entrar em contato com a leitura, todos nós aprendemos o beabá da maneira clássica e analógica. E mesmo com os recursos audiovisuais das telas, boa parte de nosso conhecimento é e ainda vem sendo adquirido pela escrita e pela leitura.

Querendo ou não, nossos cérebros se distraem com facilidade. Com a oferta de informações da internet, é um pulo para você deixar aquela leitura de lado e ver a última foto da amiga da Irlanda. Tal como uma rotina de academia, o cérebro precisa constantemente de exercício para se focar em algo. E se não temos concentração, não temos condições de absorver em profundidade as informações dos textos que lemos. E aí mora um grande perigo.

O excesso de informações sobrecarrega nossos cérebros e muitas vezes caímos na tentação de buscar informações mais fáceis de absorver, coisas que não exijam muito de nossa atenção, para que possamos passar rápido por ela. Já fiz muito isso, você também deve ter feito, onde você passa de olhos sobre o texto, buscando as informações principais. Se você não se dedica a ler com atenção o que está escrito, não tem capacidade de pensar e criticar a informação, de se valer dela para mudar opiniões, percepções e ideias. Você não absorve mais o que antes podia, passando por cima da argumentação, dos pontos mais sofisticados do texto, pois o cérebro se divide o tempo todo em múltiplas tarefas.

E se a gente não tem mais a capacidade da leitura profunda, nosso nível de compreensão vai inevitavelmente cair. Não só isso, nosso nível de empatia também cai. Empatia é lidar com as conhecimentos e sentimentos dos outros. Uma forma de compreendê-los é através da leitura. Você e a pessoa que escreveu esse texto trabalham mentalmente para construir imagens a partir de um conjunto de detalhes sensoriais escolhidos e transmitidos apenas por palavras.

O estudo de Keith Oatley, psicólogo e romancista, indica que a leitura de textos de ficção nos torna mais empáticos. Ou seja, ler ficção trabalha com processos cognitivos que fazem o cérebro simular a consciência de outra pessoa, ainda que sejam imaginárias. Com os níveis de concentração em queda, com nossa capacidade de se concentrar na leitura afetada, nossa capacidade de absorver ideias e informações e de desenvolver empatia pelos outros despenca.

Pense nisso. Pense no momento atual em que vivemos. Vivemos a assim chamada "cultura da indiferença". Veja os campos de concentração com crianças nos Estados Unidos e uma procuradora do governo tentando justificar que crianças não precisam de cobertores e itens de higiene (!!!). Perceba que a gente começou essa conversa com um assunto sobre nossa concentração no ato de ler e realizar tarefas e terminamos na cultura da indiferença que vem causando sérias violações aos direitos humanos. Não parece haver ligação, mas uma cultura iletrada e que absorve informações superficiais está fadada a repetir a história no que se refere a atos de profunda ignorância e a seguir qualquer demagogo com soluções fáceis que apareça por aí.

Essa leitura superficial das coisas dificulta nosso entendimento sobre o mundo, sobre os complexos fenômenos sociais, políticos, culturais, familiares, levando-nos a buscar soluções simplistas e igualmente superficiais para resolvê-las. "Muito grande, não li" é um imenso problema. Pois:

A falta de uma orientação intelectual e a adesão a um modo de pensar que não admita questionamentos são ameaças ao pensamento crítico.

Maryanne Wolf


E aí, tem jeito?
Se você conseguiu ler este texto até aqui sem se distrair e compreender o conteúdo, já é uma vitória! Mas se você quiser voltar a ter atenção e concentração isso vai exigir mudanças de postura. Não tem fórmula mágica, é apenas se esforçar. O que eu fiz - que talvez possa te ajudar - foi cortar todas as notificações não-essenciais do celular (apenas ligações são sinalizadas). Pense: você realmente precisa ver a última atualização do Instagram de alguém no meio da sua leitura? Você realmente precisa parar o que está fazendo para responder um tuíte? Quando a gente para e olha, percebe que na maioria das vezes não precisa disso. Tirei também as notificações da tela de bloqueio. Quantas vezes você só quis ver que horas que eram e viu que tinha um Zap e precisou abrir e responder imediatamente, mas aí você aproveitou para curtir a foto no Instagram e aí em seguida chegou email...

Você precisa cortar as distrações. Lembre-se, nosso cérebro se distrai com facilidade, especialmente nos mais jovens. Além disso, analise aquilo que você segue. Você realmente lê os textos de 15 portais diferentes de notícias? Não né? Nem eu conseguia e terminava o dia sem saber com certeza o que tinha acontecido, nem tinha ideia de como reagir a determinadas notícias. Selecione portais para ler e se comprometa a ler até o fim os textos, ao invés de passar de olhos em dez textos diferentes. A sobrecarga de informação impede a construção de um conhecimento de fundo e você se torna incapaz de articular ideias e pensamentos.

Não é para abolir as telas de sua vida, nós precisamos delas e é possível realizar um bom trabalho, apenas selecione melhor o tempo que você passa nela e faça esse tempo ser produtivo. A comunicação pode ser rápida, mas nós precisamos de tempo para articular ideias e pensamentos. A psicóloga Susan Greenfield afirma que o que lemos em uma tela é processado como imagens e fotos, não como palavras, o que pode estar fazendo sua concentração cair ao ler numa tela do smartphone. Isso é um problema em especial para as crianças e adolescentes, cujos cérebros leitores ainda estão se formando. O celular não pode ser uma chupeta que ocupe o ócio. A tendência a sermos multitarefa aumenta com o uso de telas, o que cai consideravelmente em mídia impressa. Por isso, modere o tempo que você usa nas telas.

Se você trabalha utilizando-se de computador e internet, tenha navegadores diferentes para diferentes interações. Use um navegador para trabalho e outro para o cotidiano, com suas redes sociais conectadas. No outro, nenhuma rede social, apenas o que se refere a trabalho. Mesmo sem notificações no navegador, a tentação de abrir o Facebook é grande quando você sabe que ele está conectado.

Leia devagar se puder, depressa se precisar e não o contrário.

Evite usar as telas para estudos, se possível use sempre a mídia impressa. Muitos dispositivos, como o Kindle, por exemplo, ainda não são práticos para estudar e ler não-ficção ou artigos científicos. O tablet, assim como o celular, possuem notificações o tempo todo. Sempre que eu preciso estudar algo, evito as telas muito pequenas, como de um tablet ou celular e sempre que possível tenho o impresso na mão. Estabeleça metas, como por exemplo, ler um parágrafo inteiro sem se distrair. Com o tempo, você afia a concentração e a traz de volta aos eixos. Aumente a meta, leia uma página inteira, leia todo o capítulo. Lembre-se, exercício é a chave. Precisamos recuperar a paciência cognitiva, "devagar se puder, depressa se precisar" e não o contrário.

Também saiba quando é a hora de buscar uma ajuda profissional. Se depois disso tudo, de se policiar e moderar seu uso das telas, ainda assim você não consegue se concentrar, se isso está afetando seu rendimento na faculdade, no trabalho, em casa, talvez seja necessária uma terapia, quem sabe um medicamento que ajude sua mente a focar. É possível sim voltar a ler, a ter atenção e se concentrar. Só precisamos agir para que isso aconteça.

Até mais! E volte aqui para me contar como você tem lidado com a falta de atenção.

Seria uma vergonha se a tecnologia brilhante acabasse por ameaçar o tipo de intelecto que a produziu.

Edward Tanner


Leia mais:
Ler ficção nos torna mais empáticos - El País
O Cérebro no Mundo Digital, de Maryanne Wolf
A cultura da indiferença - Revista Mente e Cérebro
Some Thoughts About E-Reading - The New York Times
Hábitos digitais estão 'atrofiando' nossa habilidade de leitura e compreensão? - BBC Brasil
'Não deixe que as telas digitais sejam tudo', alerta a neurocientista Maryanne Wolf - Estadão


Já que você chegou aqui...

COMPARTILHE

Seja o primeiro a comentar.

ANTES DE COMENTAR:

Comentários anônimos, com Desconhecido ou Unknown no lugar do nome, em caixa alta, incompreensíveis ou com ofensas serão excluídos.

O mesmo vale para comentários:

- ofensivos e com ameaças;
- preconceituosos;
- misóginos;
- homo/lesbo/bi/transfóbicos;
- com palavrões e palavras de baixo calão;
- reaças.

A área de comentários não é a casa da mãe Joana, então tenha respeito, especialmente se for discordar do coleguinha. A autora não se responsabiliza por opiniões emitidas nos comentários. Essas opiniões não refletem necessariamente as da autoria do blog.