Resenha: Lady Killers - Assassinas em série, de Tori Telfer

Há quem diga que mulheres são naturalmente propensas a cuidar dos outros, que elas não são propensas a surtos violentos. Então para quebrar de vez o mito, a DarkSide trouxe para nós este livrão sobre mulheres assassinas, envenenadoras, torturadoras e serial killers. Uma viagem pela história e pela violência destilada por mulheres por motivos não totalmente claros, mas certamente sombrios.



Parceria Momentum Saga e
editora DarkSide


O livro
Todo mundo, em algum momento, já exclamou pra quem quisesse ouvir: eu mato um hoje! Acontece que tem gente que de fato mata pelos motivos torpes e cruéis mais banais que existem. Estamos tão acostumadas a ouvir nomes e apelidos de assassinos em série que muitos ganham o status de mito, como Jack, o Estripador. É uma verdade: a maioria dos serial killers da história são homens, o que não quer dizer que não houve mulheres assassinas também. E algumas muito cruéis, tendo sido até mesmo comparadas em crueldade com o Jack em si.


Assassinas em série são mestres do disfarce: elas andam entre nós, no mundo, como nossas esposas, mães e avós. Mesmo depois de punidas, a maioria se afunda nas névoas da história de uma maneira que os homens não fazem. Os historiadores ainda se perguntam quem foi Jack, o Estripador, mas quase nunca falam de sua conterrânea, a assustadora Mary Ann Cotton, que confessou três ou quatro vezes mais vítimas, a maioria crianças.

Página 17

Além de muita gente não acreditar que mulheres possam ser tão cruéis e sem empatia a ponto de matar pessoas, há o componente da aparência. Quanto mais bonita é a mulher, maior é a desculpa que se dá para ela ter matado. Elizabeth Báthory, por exemplo, conhecida como Condessa de Sangue, foi vampirizada posteriormente, onde os biógrafos deram à ela a desculpa de querer permanecer sempre jovem e por isso precisava do sangue de virgens. Ela torturava e matava suas criadas porque gostava. É essa grande questão: como admitir que mulheres, o "sexo frágil", podem ter prazer em torturar, desmembrar, cozinhar e matar pessoas?

A negação por parte da sociedade, da imprensa, das autoridades, deixou muitas mulheres impunes matando por anos. Na Chicago do começo do século XX, onde os crimes explodiram na época da proibição, os crimes de assassinato de maridos cometidos pelas esposas aumentou 400%. Quanto mais bonita e arrependida a mulher parecesse no tribunal, maior era a chance de ela ser considerada inocente. Tillie Klimek, por exemplo, não foi considerada "bonita" pela imprensa e pelo juri, e acabou na cadeia por "nunca ter ido ao salão de beleza".

Há também uma visão de que mulheres não mereciam a pena capital por seus crimes. Em alguns casos os assassinatos foram tão hediondos que elas foram as primeiras a receber penas de morte em seus países. Outras foram parar em manicômios, outras pegaram prisão perpétua. Durante a leitura uma coisa ficou bastante evidente pra mim: as autoridades não sabiam o que fazer com elas, pois uma mulher matadora serial parecia violar qualquer ordem social existente na qual todos viviam. Era uma aberração grande demais para suportar.

O livro conta a história de 14 casos envolvendo várias mulheres, muitas vezes irmãs ou vizinhas em um vilarejo. Para a edição brasileira foi adicionada uma galeria com outros 14 nomes, incluindo uma brasileira foragida da justiça há mais de 30 anos, Heloísa Borba Gonçalves, e a mais conhecida de todas, Ainleen Wuornos. Depois dessa galeria há um apanhado de produções televisivas e cinematográficas em que aparecem mulheres que matam como Louca Obsessão, Instinto Selvagem, Monster - Desejo Assassino, American Horror Story, A Louva-a-deus e O que terá acontecido a Baby Jane?.

Há uma bibliografia extensa sobre as mulheres apresentadas e um capítulo com dados e arquivos sobre casos, com recortes de jornais da época e reproduções de notícias. Ricamente ilustrado por Jennifer Dahbura, o livro é um show à parte. De capa dura rosa e macia com brochura pintada de preto, o estilo do miolo é vintage, com espartilhos, frascos de veneno, revólveres e uma fitinha amarela do selo Crime Scene da DarkSide, já bem conhecido de nós.

Entre as 14 primeiras biografadas, cada capítulo é aberto por uma ilustração, mas admito que fui no Google procurar reproduções e fotos mais fiéis e isso fez falta na leitura. A autora comenta sobre a desumanização das assassinas, mas há poucas fotos delas no livro, apenas algumas lá pelo final, na Galeria Letal. A tradução ficou por conta de Daniel Alves da Cruz e Marcus Santana e não encontrei problemas com ela nem com a revisão.

O amor e os seus primos próximos, a luxúria e a obsessão, têm sido identificados como a fonte dos crimes femininos desde o início dos tempos, em uma série de modos arquetípicos: a senhorita ciumenta, a amante rejeitada, a Ofélia enlouquecida, a garota manipulada por Manson. O amor oferece uma história não apenas romântica, mas prazerosa.

Página 285


Obra e realidade
A autora comenta que chorou algumas vezes enquanto pesquisava e escrevia o livro. Em alguns momentos eu tive que parar a leitura tamanha crueldade de algumas dessas mulheres. Tori também comenta que sentiu empatia, mas não simpatia por elas. Havia casos de mulheres em que o abuso, o estupro e a opressão foram fatores determinantes para que sua sanha assassina começasse. No caso da vila de Nagyrév, na Hungria, isso me chamou muito a atenção. A miséria, a fome e a Primeira Guerra Mundial deixaram marcas profundas na população. Crianças e homens acamados, ou traumatizados demais com a guerra, eram vistos como um fardo para suas famílias já pobres demais para se alimentar. Não eram raros os casos de infanticídio, a polícia nem investigava mais.

Bastou uma pessoa apresentar uma solução fácil para que essas mulheres não mais sofressem - arsênico - e elas embarcaram. Em alguns casos, eram mulheres sem nenhum estudo, que viveram no campo e na pobreza uma vida inteira. Enquanto não devemos aprovar assassinato, podemos compreender o nível de desespero de muitas delas. Tanto que algumas foram inocentadas pelo juiz quando o caso chegou às autoridades.


Tori Telfer é jornalista e escritora, trabalhando hoje como freelancer em vários portais de mídia como VICE e Jezebel. Trabalhou como professora e editora de livros infantis antes de abraçar a carreira de escritora em tempo integral.


Pontos positivos
Bem escrito
Projeto gráfico
Muitas fontes de pesquisa
Pontos negativos

Violência
Acaba rápido

Título: Lady Killers - Assassinas em série
Título original em inglês: Lady Killers: Deadly Women Throughout History
Autora: Tori Telfer
Ilustradora: Jennifer Dahbura
Tradutores: Daniel Alves da Cruz e Marcus Santana
Editora: DarkSide
Páginas: 384
Ano de lançamento: 2019
Onde comprar: na Amazon


Avaliação do MS?
Tori não traz estatísticas e números. Ela traz as histórias sobre as vidas dessas mulheres de modo a lhes dar uma cara humana. A tendência de desumanizar assassinos em série os afasta de nosso cotidiano, os afasta da normalidade e eles são alçados a um patamar de mito. Mas isso é um perigo. O trabalho de Tori visa justamente sanar esse erro histórico cometido com as mulheres assassinas, muitas delas matando por décadas por preconceito das autoridades. Não vou dizer que vai ser uma leitura fácil, mas é necessária. Uma verdadeira análise do lado mais sombrio das mulheres. Leitura essencial e obrigatória.

Até mais! ☠

(...) assassinos em série não são assustadores por serem homens; eles são assustadores porque destroem a ordem. Ou melhor, revelam que aquilo que nós percebemos como ordem e normalidade (...) tem sido o tempo todo uma violenta mentira.

Página 53

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