Escreva fora da caixinha

Escreva fora da caixinha



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Um dos melhores tuítes do final de 2018, daqueles que eu queria enquadrar em algum lugar, é este aqui:


Admito que eu chorei de rir quando ele pululou pela minha TL naquele momento. Mas o tuíte gerou muitas críticas quando caiu em páginas de memes pelo Feicibuke, de gente chorando que o escritor tem o direito de escrever o que ele quiser.

O autor brasileiro médio tem uma intensa aversão ao brasileirismo. É o que Bráulio Tavares chama de Síndrome do Capitão Barbosa, onde o autor se recusa a usar nossos nomes, lugares e maneirismos, mutias vezes imitando as produções de fora. Muitos acreditam que a magia da ficção científica e da fantasia acaba se aparecer um capitão Barbosa ao invés de um capitão Horner.

E não é de se estranhar que tantos façam isso. Nós consumimos com um furor insano tudo o que é produzido lá fora e somos extremamente críticos com tudo o que é feito aqui em um viralatismo irritante. Veja como fomos duros com 3% e muito menos críticos com The Expanse, por exemplo. Já vi gente largar livros do André Vianco na pilha quando descobriu que o autor era brasileiro e o cenário das histórias era em São Paulo e Osasco.

Nem eu estive livre dessa síndrome. No final dos anos 90 eu assistia tanto Lei & Ordem e Arquivo X que tenho nada menos que cinco romances de investigação criminal arquivados no meu computador. Cinco. Todos eles sobre uma dupla de agentes do FBI que investigava crimes violentos. Um dos assassinos em série, inclusive, era intersexo.

E não considero esses trabalhos como sendo lixo. Esses romances foram um intenso exercício de escrita pra mim. Numa época sem internet, eu tinha que ir em bibliotecas, comprar revistas, tirar muitas cópias e assistir a MUITOS episódios para saber como a lei funcionava e quais eram os procedimentos investigativos e assim compor meus enredos. Foram noites viradas no meu velho IBM 486 martelando o teclado com meus crimes impossíveis. Olhando pra eles hoje vejo que tem muita coisa ali pra arrumar caso eu decidisse publicar, mas sei que foi muito importante para minha prática.

Eu também já tive birra com autores nacionais. Já comentei antes em alguma outra newsletter e até pelo blog que o que me fez ler autores nacionais foram os livros de vampiros do André Vianco. Ver que a luta entre os vampiros ocorria em São Paulo e não em Londres me deu um novo olhar para tudo o que podia ser produzido no nosso país. Tendo sido criada na base das histórias quase insípidas da Coleção Vaga-Lume, eu achava que literatura que me agradasse só poderia vir de fora.

Algumas pessoas resolveram tirar sarro do tuíte da Marcela, falando "então você queria que ela se chamasse Margarete, que ela estivesse com os cachos sendo chicoteados pelo Metrô Brás?" foi algo que andei lendo pelo Facebook. E o que mais me espantou: as pessoas disseram que SIM! Isso é algo que não se veria dez anos atrás, mas hoje as pessoas parecem mais abertas aos cenários nacionais, à ficção produzida pelos brasileiros e quer ler histórias assim.

O que é maravilhoso! Vejo tantos bons trabalhos sendo feitos e trazidos para o público, vi como autoras e autores nacionais tinham filas imensas de autógrafos na Bienal, algo que não pensava ver uns anos atrás. Estamos produzindo muita coisa boa e tem gente perdendo isso por preconceito com os nacionais.

Uma das coisas que eu faço quando escrevo é sair do eixo US-UK. Por exemplo, a capitã Rosa, de Deixe as Estrelas Falarem é filha de uma nigeriana com um japonês, a nave dela é o cargueiro Amaterasu (deusa solar japonesa) e ela foi casada com um neozelandês, que comanda o cruzador Eketāhuna (uma pequena cidade rural na Nova Zelândia). Mesmo não centralizando a história no Brasil, eu trago brasileirismos pra história como o jeitinho que Rosa usou pra ganhar dinheiro, a maneira de falar dos personagens, e nomes como Rosa e Cecília.

Além disso, nesse futuro distante do universo de Rosa, nossa noção da nacionalidade e bandeiras mudou muito e tudo é muito miscigenado. Não faria sentido todos seres completamente brasileiros. Mas só o fato de eu não ter um cargueiro chamado Enterprise, ou Charleston, ou um cruzador chamado Endeuvor já deu uma nova identidade para o enredo. Eu perco um tempo considerável pesquisando nomes mongóis, neozelandeses, coreanos, nigerianos, egípcios, indígenas (como a Dra. Endira, astrofísica em BSS Mariana) pra compor personagens, porque eu não quero correr o risco de usar um Kirk ou Roger no lugar. Já temos demais, não temos?

Aí, eu volto pra questão de "ahh, mas o escritor escreve o que ele quiser!"; sim, ele escreve. Nós temos a liberdade criativa de extrapolar mundos e tendências e universos e tudo mais. Mas também estamos inseridos num aqui e agora, numa realidade específica pautada pela supressão da diversidade. Veja o que estamos vendo com apenas alguns dias de governo de Biroliro e veja como eles estão tentando suprimir a existência das pessoas das quais eles não gostam.

Escrever para o status quo é contribuir para manter tudo como está. E eu não quero isso. Como exercício, sei que cometi muitos erros e só através do intenso exercício eu comecei a saná-los. Na escrita, sempre temos a oportunidade de fazer algo bom da próxima vez. Se você não faz, é porque não quer crescer ou evoluir na escrita.

Uma coisa que me horroriza é quando tentam me colocar numa caixinha bem definida. Acho que por isso eu reluto tanto com os rótulos, pois a maioria deles é redundante, pequena, que nos diminui de uma maneira insuportável. E escrever mais do mesmo é ficar nessa caixinha; é nunca extrapolar as ideias que o mundo lhe oferece. É ficar no mesmo lugar quando você pode viajar milhões de anos-luz.

Escreveu várias páginas com as aventuras da Suzanne Carter von Hidgengard? Então agora é hora de você escrever as aventuras da Margarete na 25 de Março assombrada por demônios, que tal?

Até mais!

Já que você chegou aqui...

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4 COMENTÁRIOS

  1. Esse texto me trouxe de volta minha vontade de escrever. Eu amo coisas nacionais (alias acompanha 3% desde o piloto no youtube e quase dei um piripaque quando anunciaram a série) mas ainda não tenho confiança para escrever minhas próprias coisas no cenário nacional, lendo seu texto meio que fez cair a ficha que muito disso é medo das pessoas não gostarem. Fico feliz que as pessoas estejam mais abertas para coisas novas.

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  2. Há 10 anos atrás, quando conheci os livros do André Vianco e gostei bastante, resolvi ler um pouco de literatura nacional e não gostei. Anos depois, através do seu blog, voltei e conheci muita coisa boa; e percebi um problema: parece que as editoras brasileiras se preocupam em publicar livro de gente que já é famosinha (tipo aparece em podcast famoso) e não liga tanto pra qualidade literária. No mundo indie tem muita coisa muito boa, mas nas livrarias nem tanto.

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    1. Isso é bem verdade. E é uma infelicidade, pois os bons estão se matando para pagar contas e os medíocres ganhando aos tubos com trabalho meia boca.

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