Resenha: Inferior é o Car*lhø, de Angela Saini

Se eu pudesse descrever este livro de maneira bem sucinta seria: um abraço. É como se Angela se aproximasse, te abraçasse e dissesse: você não é louca, eles te deixaram louca. A proposta audaciosa do livro fez com que muitos leitores da DarkSide declarassem que não comprariam o livro. Na verdade, deveriam sim comprar, pois seria uma leitura muito benéfica para mostrar a injustiça que a ciência fez com as mulheres por décadas. Se o cara já dispara que nunca compraria um livro desse, no mínimo, concorda com as pesquisas tendenciosas que Angela desbanca nessas páginas.



Parceria Momentum Saga e
editora DarkSide


O livro

A verdade te libertará. Mas primeiro, ela vai te enfurecer.

Gloria Steinem

Você leitora deve ter crescido ouvindo uma série de "afirmações" a respeito dos sexos masculino e feminino, certo? De que homens são os pegadores e as mulheres são "naturalmente" castas. De que homens são mais fortes, que o cérebro masculino é maior, então eles são mais inteligentes, que as mulheres são mais seletivas e menos propensas ao sexo, mais adequadas à monogamia. Que mulher não gosta de ciências exatas, que elas têm mais aptidão para as áreas que envolvem o cuidado e as ciências humanas. Eu ouvi tudo isso e mais de uma vez. Pois é, tá tudo errado.

Resenha: Inferior é o Car*lhø, de Angela Saini

Uma ciência machista estabeleceu que a mulher era menos evoluída e intelectualmente inferior ao homem e Darwin foi um grande defensor dessa ideia. E logicamente enfrentou oposição de mulheres indignadas com suas afirmações, como Caroline Kennard, que em correspondências com ele alegou que dada a mesma oportunidade de estudo e trabalho, além do estímulo adequado, as mulheres seriam tão inteligentes quanto qualquer homem. O mito da burrice feminina ainda se perpetua. Basta uma mulher cometer um erro qualquer que brota um homem do inferno pra dizer "só podia ser mulher".

Na medicina não é diferente. O fato de pesquisadores não fazerem experimentos com mulheres leva a erros absurdos no que se refere à dosagens de medicamentos e até tolerância a dor. Dados apontam que temos um sistema imunológico mais robusto, sobrevivemos mais, mas tudo o que envolve a saúde feminina é mal compreendido. Mulheres são duas vezes e meia mais propensas a apresentar reações adversas a uma droga e ainda assim os estudos feitos pelas companhias farmacêuticas indicam dosagem baseada no organismo masculino.

Em 2016, o professor de saúde reprodutiva da University College de Londres, John Guillebaud, disse a um jornalista que a dor menstrual pode ser 'quase tão terrível como a de um infarto', e admitiu que o problema não tem recebido a atenção que merece, em parte, porque os homens não sofrem dele.

Página 76

Angela abrange várias áreas para mostrar as injustiças cometidas contra as mulheres e ressalta a importância do feminismo que levou mulheres às universidades, aos laboratórios, às pesquisas e que as colocaram no caminho certo na hora de investigar os sexos e nossa evolução. O velho mito de que o homem é mais inteligente por ter mais neurônios e cérebro maior? Esqueça, tudo tendencioso. Nossos cérebros são mais um mosaico, cada um com características que, tipicamente, associariam a um ou outro sexo. Se tamanho de cérebro fosse indicador de inteligência, os elevantes e as baleias seriam a espécie dominante e não nós.

A inteligência também é outro tema tocado com frequência. Se Darwin dizia que mulheres eram intelectualmente inferiores, a ciência atual mostra que não há diferenças entre homens e mulheres. Porém, são os homens os mais estimulados a chegar ao topo, a serem ambiciosos e a seguir carreira. Mulheres devem ser comedidas, recatadas e do lar, de preferência. É século XXI e infelizmente muitos caras ainda têm o pensamento colonial de que ele é o provedor e a mulher é responsável pela casa e pelos filhos, quando a história evolutiva da raça humana indica que homens e mulheres colaboravam e dividiam as tarefas, sendo que mulheres também caçavam e coletavam.

Saini entrevistou cientistas e trouxe para o livro suas observações e admito que em alguns momentos eu revirei os olhos com força para as afirmações de alguns deles. Muitos se agarram às ideias de divisão de sexo e que existem cérebros masculinos e femininos, ficando claro que para alguns é difícil separar dados de seus próprio gênero. É como se eles estivessem apavorados de perderem uma superioridade que nada mais é do que ilusória. Não somos inferiores, mas fomos condicionadas para ser pelo patriarcado.

A edição da DarkSide está muito bonita, uma pena não ser de capa dura. O trabalho gráfico do miolo está perfeito, mas há erros de revisão no livro. Um exemplo é a escolha do uso do termo Plistoceno. Ele não é utilizado, ao menos no Brasil, por se parecer com Plioceno, um período anterior e bem mais antigo. O ideal é padronizar e usar Pleistoceno mesmo, que é o que consta na Tabela Estratigráfica.

Qualquer atitude feminina mais vigorosa, por exemplo, era interpretada como um comportamento masculino. Mas quem poderia dizer que essa não é uma característica normal e comum do sexo feminino?

Página 106

Obra e realidade
Vi muitos leitores homens da editora DarkSide dando chilique quando o livro era divulgado pelas redes sociais. E era chilique mesmo, de gente mimada, acostumada a ser o centro do universo. Caras dizendo que não comprariam o livro, que a editora estava errando no "lacre". É uma pena. Esses caras são justamente aqueles que se beneficiariam dessa pesquisa e do bom senso de Saini. Eu me senti abraçada, contemplada, compreendida, ao ver que o que nós achávamos que sabíamos estava errado.


Somos seres falhos, erramos, nos equivocamos, mas permanecer no erro como certos pesquisadores que Saini entrevistou só mostra que nem todo mundo está preparado para encarar que as supostas diferenças entre os sexos não são assim tão grandes. As diferenças foram impostas para colocar um sexo no poder em detrimento do outro, quando na verdade todos teriam a ganhar com um mundo mais igual.

Angela Saini é escritora, radialista e jornalista britânica de ascendência indiana. Autora de dois livros, tem dois mestrados, um deles em engenharia. É geek, curiosa e mãe.

Pontos positivos
Ciência
Divulgação científica
Muitas fontes de pesquisa
Pontos negativos

Erros de revisão
Acaba rápido

Título: Inferior é o Car*lhø
Título original em inglês: Inferior: How Science Got Women Wrong—and the New Research That’s Rewriting the Story
Autora: Angela Saini
Tradutora: Giovanna Louise Libralon
Editora: DarkSide
Páginas: 320
Ano de lançamento: 2018
Onde comprar: na Amazon


Avaliação do MS?
Espero que o Selo Crânio da DarkSide traga o próximo livro de Saini que vai falar de como a ciência reforça e perpetua o conceito de raça e como isso leva a uma séride de desigualdades supostamente pautadas e validadas pela ciência. Este livro aqui já entrou para a minha lisa de livros favoritos da vida e espero que outras pessoas leiam, não apenas mulheres, mas quero muito que os homens também leiam e aprendam alguma coisa com ele. Leitura essencial e obrigatória.

Até mais!♡

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3 COMENTÁRIOS

  1. Meu Deus o chilique que uma galera deu na pág do FB da Darkside não está no gibi, ri horrores com aquela coisa frágil que essa galera carrega.
    Vou confessar que o título do livro em pt me fez meio que ignora-lo, imaginei realmente que fosse mais um: a princesa salva a si mesma nesse livro, que não é minha praia. Mas depois de ver o título original e a resenha acho que vou adquiri-lo em breve.

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  2. Fiquei bem curioso pra ler, esse e o outro dela que você comentou. Lá no meu estágio de clínica sou eu e mais 4 meninas e esse assunto sempre vem a tona, e sempre me assusta. Sempre soube que existia machismo e sexismo, mas os relatos delas até me assustam (ainda mais nesse momento esquisito do país, que parece que nós procuramos regredir). Só que eu acho que vou pegar em inglês pq a Darkside não lançou no kindle. :(

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    Respostas
    1. Demora um pouco, mas a DarkSide depois disponibiliza em português. Diferente da Morro Branco que ainda não colocou nenhum em ebook.

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