Resenha: O casal que mora ao lado, de Shari Lapena

Não sei você, mas quando estou com ressaca literária, acabo pegando livros parecidos na tentativa de superar. Então, já que eu tinha lido um muito bom no mesmo segmento, resolvi pegar outro para ler em seguida. Um drama familiar se torna bem mais complicado quando uma bebê desaparece de seu berço no meio da noite.

O livro
Anne e Marco Conti são casados e moram em uma vizinhança tranquila. O casal foi convidado para um jantar de aniversário de Graham, vizinho ao lado. Cynthia é a bela esposa de Graham, que quase implorou para eles aparecerem. Marco acredita que o jantar será bom para a esposa, que praticamente não sai de casa depois do nascimento da filha deles, Cora, há seis meses, e da depressão pós-parto que veio em seguida. Mas a babá desmarcou no último minuto e o casal optou por deixar a bebê no berço, levando apenas a babá eletrônica, revezando-se para ver Cora a cada meia hora. Optou depois de um pedido de Cynthia, que não suporta ouvir crianças chorando. Nada pessoal.

Resenha: O casal que mora ao lado, de Shari Lapena

A verdade está por aí. Sempre está. Basta encontrá-la.

Anne bebe um pouco além da conta e está irritada com o flerte constante de Cynthia sobre seu marido. Então, ela decide voltar para casa e para sua bebê, mas descobre que a porta da frente está aberta e Cora não está em seu berço. Ninguém viu ou ouviu nada e o desespero cai sobre o casal. A culpa de Anne é palpável. Como ela pode deixar uma bebê de seis meses sozinha em casa? Que tipo de mãe ela é? Marco também se culpa por ter concordado com a vizinha e depois por convencer Anne. É compreensível que se sintam assim e sabemos bem como a sociedade gosta de culpar mães por qualquer coisa que aconteça a seus filhos.

A polícia chega e o detetive Rasbach assume a investigação. Admito que Rasbach tinha as mesmas suspeitas que eu nesse comecinho. Eu me peguei pensando se um dos pais não tinha matado a bebê, ainda que sem querer, e então tentado se livrar do corpo. Talvez a bebê tenha tido morte súbita e um deles se desesperou? Não é incomum, e o detetive já viu histórias assim. Mas os cães farejadores de cadáveres não encontraram qualquer coisa na casa. Há apenas algumas marcas de pneus nos fundos, na porta da garagem, mas o casal dificilmente estaciona lá.

O que se segue é uma montanha-russa de enganações, traições e segredos, à medida que marido e mulher tentam lidar com os horrores de sua nova realidade e se veem diante da verdade um sobre o outro. O livro se sobressai pela capacidade de conferir, especialmente ao casal, um toque de insanidade, um toque de desonestidade e uma boa dose de desespero. As pessoas são complicadas e podem ser levadas ao limite em bem pouco tempo, ainda mais se a situação acabar exigindo. Marco se cobra para ser o marido provedor, à prova de falhas, que tem tudo sob controle, enquanto Anne se cobra para ser a mãe perfeita, mas que tem que lidar com uma bebê que chora muito e depende 100% dela. Será que ela fez as escolhas certas ao largar o emprego e ficar em casa?

Ao mesmo tempo em que eles parecem complicados e desonestos (até consigo mesmos), o livro é basicamente construído sobre diálogos, e eles foram pobres, mal arrematados. Sabe aquele texto em que a maioria dos personagens praticamente não expressa sentimentos? Tirando Anne, histérica na maior parte do tempo, os personagens são planos, por falta de palavra melhor. Com um drama tão sério se desenrolando na frente deles, cadê as emoções à flor da pele? A única característica da vizinha é ser vulgar e seu marido praticamente não aparece. A narrativa frequentemente recorria a "contar" em vez de "mostrar", revelando de forma explícita as motivações e os traços de personalidade dos personagens, sem realmente descrevê-los de modo que o leitor pudesse deduzi-los por conta própria.

Este não é um livro focado na profundidade dos personagens ou sequer em criar uma conexão real com eles; tratava-se simplesmente de desvendar a verdade, de resolver um problema. E o final... vou apenas dizer que foi uma loucura e deixar por isso mesmo. Loucura essa que poderia ter sido bem explorada, bem descrita, e a autora passou por cima e deixou por isso mesmo. Uma pena. Nem mesmo um assunto tão sério quanto a depressão pós-parto é tratado com profundidade. É apenas mencionada e depois esquecida pelo restante da leitura.

A tradução foi de Márcio El-Jaick e está muito boa. Não encontrei grandes problemas de revisão ou de diagramação.

Obra e realidade
O começo do livro lembra muito o caso da menina Madeleine McCann, que desapareceu do quarto de hotel enquanto a família passava as férias na vila da Luz, Lagos no Algarve, em Portugal. Na noite do desaparecimento, os pais dela saíram para jantar com amigos em um restaurante próximo e deixaram os filhos no quarto do hotel dormindo, voltando de tempo em tempo para verificar as crianças. Quando voltaram, Madeleine havia desaparecido sem deixar rastros. O caso segue sem solução até hoje.

A série The Couple Next Door não é baseada no famoso livro homônimo de Shari Lapena, é apenas um daqueles casos de coincidência de títulos. A produção é, na verdade, uma adaptação de uma série de TV holandesa chamada Nieuwe Buren (New Neighbors), que por sua vez foi baseada no livro homônimo da autora holandesa Saskia Noort.

Shari Lapena

Shari Lapena é uma escritora canadense. Antes de se dedicar integralmente à escrita, foi advogada e professora.

PONTOS POSITIVOS
Segredos
Narrativa rápida
Investigação criminal
PONTOS NEGATIVOS
Pode ser lento
Construção de personagens
Final

Título: O casal que mora ao lado
Título original: The Couple Next Door
Autora: Shari Lapena
Tradutor: Márcio El-Jaick
Editora: Record
Páginas: 294
Ano de lançamento: 2017
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Avaliação do MS?
Foi uma boa leitura, mais puxada para o OK. Na parte mais para o final, a autora se enrola e algumas peças se encaixam de maneira muito conveniente, com pistas falsas em excesso e poucas explicações satisfatórias. Três aliens para o livro.


Até mais! 🏡

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