É fácil esquecer o quanto o planeta Terra é antigo. A duração da nossa vida no planeta nos faz esquecer que a Terra mede seus eventos ao longo de bilhões de anos. E em sua longa história, ela já viu de tudo, de queda de asteróides a centopeias de dois metros de comprimento. Mas mesmo os animais que dominaram a natureza por eras viram seu fim em algum momento. Esse livro vem falar exatamente sobre isso: como um evento de extinção pode levar a um novo momento de pura exuberância de vida e diversidade.
O livro
O tema das extinções em massa é um dos mais abordados e envolventes entre as ciências da Terra. E é preciso ser bastante habilidoso para escrever bem o suficiente para não parecer genérico demais para aqueles com formação acadêmica, nem técnico demais para os leigos. Felizmente, Benton domina essa habilidade e encontrou um equilíbrio perfeito ao discutir um tema complexo com um tom narrativo que transita entre o de um documentário, o de uma palestra universitária e o de experiências pessoais contadas ao redor de uma fogueira em um trabalho de campo.
(...) todos os eventos de extinção do passado, vistos em retrospecto, contribuíram de forma extraordinariamente criativa para a história da vida como um todo.
Dividido em seis partes, o livro acompanha as Cinco Grandes extinções em massa (mais o sexto evento ainda em curso) e as utiliza e para resumir as principais transformações registradas no registro fóssil. O objetivo da obra é simples: mostrar que mesmo após uma perda significativa de biodiversidade, as extinções abriram caminho para novas formas de vida que moldaram nosso mundo como ele é hoje. Se elas não tivessem acontecido, quem sabe como seria a Terra hoje em dia?
Mantendo o foco e o rigor científico, mas com uma escrita agradável e compreensiva, o autor discorre sobre os eventos, destacando seus principais pontos e como eles foram importantes para a era que veio em seguida. Mas o mais legal é que este não é mais um livro sobre extinções, com longas listas sobre o que foi perdido. Benton enriqueceu o tema ao tratar de eventos e fenômenos importantes, porém frequentemente menos discutidos, como hipertermias, eventos anóxicos oceânicos e revoluções faunísticas/florísticas. Ele discorre, por exemplo, sobre como as plantas com flores e frutos, as angiospermas, se tornaram dominantes e como a extinção do Cretáceo foi decisiva para isso, algo que a maioria dos livros não discute, porque só fala de animais.
Esses tópicos são abordados diversas vezes ao longo do texto, criando ótimas oportunidades para comparar e discutir as semelhanças na dinâmica dos principais desastres da história da vida. É claro que, quando essas semelhanças nos lembram da nossa experiência atual com as mudanças climáticas, é difícil não sentir um certo constrangimento por tudo o que estamos fazendo o planeta passar. Por um lado, é interessante ver que a Terra sobreviveu a eventos tão traumáticos quanto a queda de um asteroide; por outro, é triste pensar que a gente, provavelmente, não vai sobreviver se as coisas continuarem como estão.
Com ilustrações coloridas e em preto e branco, o livro traz gráficos retirados de artigos científicos e muitos dados recentes com novas descobertas feitas sobre as extinções em massa, que são a do Ordoviciano (445–444 milhões de anos), a do Devoniano (372–359 milhões de anos), a do Permiano (252 milhões de anos), a do Triássico (201,3 milhões de anos) e a do Cretáceo (66 milhões de anos). Além disso, duas páginas principais reúnem um total de 28 imagens coloridas no miolo.
Quem precisa do imaginário da ficção científica quando a coisa real, o mundo diante de nós, passou por eras tão vastas e tantas paisagens alienígenas?
O autor também diferencia as classificações de extinção. O dodô, cuja extinção definitiva pode ser atribuída à ação humana, é um exemplo que vem rapidamente à mente, mas também existem as chamadas extinções de fundo. Espécies surgem e desaparecem, extinguindo-se porque o alimento acaba localmente, ou talvez devido a mudanças climáticas, ou porque um invasor vigoroso roubou todo o alimento ou habitat. A capa do livro mostra os crânios dos bisões norte-americanos que foram caçados quase até a extinção da espécie, mas o planeta não vinha sofrendo um evento catastrófico (bem...).
Mas os eventos de extinção em massa são os principais acontecimentos que impulsionam a evolução. Neles, entre 50% a 90% de todas as espécies são eliminadas simultaneamente, graças a erupções vulcânicas, ou asteroides ou acidificação dos oceanos. Tais eventos cataclísmicos, na verdade, são benéficos para a vida que vem depois e até para aquela que fica, pois elas têm um aspecto criativo. A vida sempre se recupera, a vida sempre acha um jeito. As espécies sobreviventes assumem o controle, ocupando ecossistemas estranhos que repentinamente apresentam enormes lacunas onde antes havia plantas e animais dominantes. Após alguns milhares de gerações, as teias alimentares se reconstroem, os ecossistemas se reestruturam.
"Ahhhh, mas o planeta demora pra se recuperar, né?" Para a escala da Terra, nem tanto. Mas a recuperação após as extinções em massa leva ao surgimento de algo completamente novo, como o primeiro dinossauro, como as plantas com flores e frutos, como os mamíferos. As extinções em massa no final do Permiano e do Triássico desencadearam ou possibilitaram a evolução de ecossistemas modernos, com recifes de coral, tubarões, moscas, coníferas, crocodilos e mamíferos terrestres. O Cambriano foi marcado por eventos de extinção em massa, mas, no meio deles, ocorreu a explosão cambriana, que se desenrolou ao longo de 36 milhões de anos e talvez tenha sido a maior revolução de todas, com o surgimento de esqueletos e artrópodes.
Assim, podemos perceber que as extinções em massa são uma força criadora, quando consideradas sob o pano de fundo da longa história da vida.
Benton escreve com competência e até mesmo com um ar de admiração quase infantil pelo planeta e pela natureza. Autoridade em paleontologia, ele até mesmo diminui seu trabalho, ao minimizar sua participação na identificação do Episódio Pluvial do Carniano, um período de intensas mudanças e perda de biodiversidade que há muito é discutido Há até aqueles que acreditam que ela seria uma sexta extinção em massa, enquanto a atual que estamos desencadeando seria a sétima.
Muito bem traduzido por Cássio Leite, o livro é delicioso de ler e a leitura praticamente voa na mão. A narrativa do autor muda frequentemente para evitar monólogos e, em determinado momento, você assiste aos eventos se desenrolarem pelos olhos de um dinossauro prestes a ser extinto.
Obra e realidade
O que é uma extinção em massa? Trocando em miúdos, um evento de extinção em massa acontece quando as espécies desaparecem muito mais rápido do que são substituídas. São eventos em escala global, com uma grande extensão, num tempo geológico relativamente próximo. É possível ficar triste por toda a exuberância de vida que foi perdida com esses eventos, mas também é uma oportunidade de nos fazer admirar o que temos bem aqui, neste momento.Deveríamos apreciar a biodiversidade e a riqueza de todas as criaturas vivas por si sós e ter a consciência de que os humanos não têm o direito de aniquilar outras espécies. Nós temos um dever para com o planeta e as formas de vida que o dividem conosco. Não é um dever econômico ou social, e sim ético. Não somos a única forma de vida presente e temos que preservar a biodiversidade em nome de todos os seres vivos.

Michael James Benton é um paleontólogo, pesquisador e professor universitário britânico na área de paleontologia de vertebrados da Universidade de Bristol. É autor de vários livros de divulgação científica.
PONTOS POSITIVOS
História da Terra
Bem escrito
Fontes e ilustrações
PONTOS NEGATIVOS
Preço
História da Terra
Bem escrito
Fontes e ilustrações
PONTOS NEGATIVOS
Preço
Avaliação do MS?
Este livro é mais uma obra incrível a chegar ao público leitor brasileiro que adora divulgação científica. Contando com as últimas evidências científicas, o autor nos forneceu um panorama sobre a vida na Terra, como ela era e como é hoje em dia. É daqueles livros preciosos da estante para se consultar de tempos em tempos. Cinco aliens para o livro e uma forte recomendação para você ler também!
Até mais! 🦕
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