Resenha: Uma lembrança chamada império, de Arkady Martine

Finalmente está em nossas mãos! A Aleph lançou agora em 2026 o primeiro volume da duologia Texicalaan. Livro ganhador do Hugo Awards de 2020, Uma lembrança chamada império, de Arkady Martine, tem muita politicagem, intrigas imperiais e uma imersão cultural como poucos livros mostraram. Tudo começa com o pedido urgente de envio de um novo embaixador.

Este livro foi uma cortesia da Editora Aleph

O livro
Mahit Dzmare é uma jovem diplomata da pequena e independente Estação Lsel, designada para servir como embaixadora do império interestelar Teixcalaan, após o embaixador anterior, Yskandr Aghavn, que atuou por duas décadas, ter misteriosamente parado de enviar atualizações. Mahit é jovem, aplicada, estudiosa do império desde a infância. Saberá circular pela corte local como ninguém. Mas seu principal objetivo é descobrir o que aconteceu com seu antecessor e, ao mesmo tempo, impedir que Lsel seja engolida pelo império em constante expansão. E ela precisa fazer tudo isso sem o apoio esperado e enquanto enfrenta uma crise de sucessão em Teixcalaan.

Resenha: Uma lembrança chamada império, de Arkady Martine

Quando a literatura texicalaana falava de olhos, com frequência se referia a tocar ou à habilidade de afetar... Um olho vê, um olho muda o que vê. Metade mecânica quântica, metade narrativa.

O Império Teixcalaani é um glorioso império que engole e transforma tudo o que toca. É belo de se contemplar, mas tão grandioso que lugares como a Estação Lsel poderão ser engolidos por sua magnitude. Mahit tem o conhecimento teórico, mas estudar algo e vivenciá-lo são duas coisas muito diferentes. Ela precisa encontrar uma maneira de proteger a independência de sua estação diante de uma ameaça que começa a se erguer quando começamos a leitura. A autora nos fornece apenas pedaços dessa ameaça que virá com força no segundo volume. O foco aqui é navegar nas águas perigosas da política planetária de um império antigo e tradicional.

Assim que Mahit chega, logo nos sentimos um peixe fora d'água. É natural pensar que alguém que veio de uma pequena e provinciana estação espacial se sinta intimidada ao chegar a um planeta inteiro recoberto pela capital imperial, uma ecumenópole (lembra de Coruscant, de Star Wars? É isso). Assim que desembarca, ela conhece seu contato com o governo teixcalaan, Alga Três, uma jovem ambiciosa e muito inteligente, vestida com as cores de sua função e muito orgulhosa de sua origem. Ela não tem papas na língua em chamar Mahit de selvagem só porque ela não faz parte do império.

Esse estilo de narrativa pode dificultar a conexão com a trama em alguns momentos. A autora joga muita informação de uma vez nas páginas e se você não curte histórias assim, se prefere um começo menos intenso para poder se conectar com o enredo, vai estranhar muito esse começo. Tem muita informação de segunda mão sendo ofertada a Mahit, e a protagonista não tem o contexto necessário para juntar as peças. O conhecimento que poderia ajudá-la a navegar por essas correntes diplomáticas e políticas acaba desabilitado e ela precisa confiar nas pessoas ao seu redor, já que não tem alternativa. Essas pessoas, por sua vez, também têm seus propósitos ao ajudarem a embaixadora.

Martine faz um ótimo trabalho ao apresentar os sentimentos de Mahit como uma estranha em uma terra estranha. Tudo é desconhecido e novo para Mahit, desde os costumes e expressões faciais até a comida. Ela precisa desesperadamente pertencer e se assimilar a essa cultura estrangeira, mas não consegue porque lhe falta uma informação muito importante. Um dos dispositivos importantes que o povo da estação Lsel usa é um aparelho chamado imago. O dispositivo armazena a memória e a personalidade de pessoas que a precederam, salvas como dados para serem baixados novamente. Ele é usado para que nenhuma das experiências e aptidões dos cidadãos de Lsel se perca com a morte da pessoa. A experiência é então adicionada ao novo usuário e as personalidades são combinadas.

Tudo em Teixcalaan causa estranhamento. As pessoas possuem nomes como Azaleia Doze, Alga Três, Direção Seis e por aí vai. As funções também possuem nomes. Um cientista se chama ixplanatl, membros do Ministério da Informação, como Alga Três, são chamados de asekreta (Asecreta, do latim a secretis, era um alto secretário imperial no Império Bizantino, surgido por volta do século IV). O idioma da estação Lsel, infelizmente, não aparece. A autora diz que o baseou no armênio oriental moderno, mas praticamente não discute a respeito. Martine colocou no final um guia de pronúncia e escrita da língua Teixcalaanli após o glossário, mas todos os sons são apenas sons básicos do inglês.

Parecia que o patriotismo derivava facilmente do extermismo.

Algo que se destaca no livro é a maneira como a autora critica o imperialismo. Space operas são, em geral, obcecadas por impérios espaciais e guerras interplanetárias, com grandes belonaves armadas até os dentes em grandiosas batalhas em órbita de planetas. Martine usa desse recurso como uma crítica à obsessão imperial da ficção científica, ao mesmo tempo que se entrega a ela. Um exemplo do domínio cultural de Teixcalaan é o uso da poesia e da literatura. A elite ama poesia, declama em versos métricos para se exibir e a usa para tramar politicamente. Versos são usados até na codificação de mensagens. As histórias do império (literatura escrita, filmes) fascinam aqueles que estão além de suas fronteiras, principalmente Mahit, que cresceu lendo essas histórias.

A tradução está ótima e ficou nas mãos de Beatriz D'Oliveira. Não deve ter sido um trabalho fácil, pois os nomes e termos em teixacalaan causam um estranhamento na hora. A revisão está ótima, encontrei poucos problemas e eles não atrapalham a leitura.

Obra e realidade
Uma lembrança chamada império nasce de uma mistura bem interessante entre formação acadêmica e curiosidade cultural: como historiadora do Império Bizantino, Martine se inspirou nas dinâmicas reais de impérios, em especial nas relações entre Bizâncio e a Armênia medieval, para construir temas como assimilação cultural, identidade e resistência. Ao mesmo tempo, ela incorporou elementos de outras civilizações imperiais, como os astecas (mexicas), buscando entender como diferentes sociedades se viam como o “centro do mundo” e expandiam seu poder. Essa base histórica se mistura à sua experiência como urbanista e ao interesse por linguagem e poesia, resultando em um império fictício que seduz tanto quanto ameaça, refletindo a ideia central do livro: o fascínio ambíguo por culturas dominantes que podem, ao mesmo tempo, encantar e engolir identidades menores.

Arkady Martine

AnnaLinden Weller, pseudônimo de Arkady Martine, é uma escritora norte-americana de ficção especulativa. É historiadora especializada em Império Bizantino, analista de política climática e energética e planejadora urbana.

PONTOS POSITIVOS
Mahit e Yskandr
Bem escrito
Construção de personagens
PONTOS NEGATIVOS
Pode ser lento
Alguns temas parcialmente explorados

Título: Uma lembrança chamada império
Título original: A Memory Called Empire
Duologia Teixcalaan:
1. Uma lembrança chamada império
2. A Desolation Called Peace
Autora: Arkady Martine
Tradutora: Beatriz D'Oliveira
Editora: Aleph
Páginas: 440
Ano de lançamento: 2026
Onde comprar: na Amazon!

Avaliação do MS?
Foi uma leitura densa e, por vezes, cansativa. Mas ao mesmo tempo, não conseguia parar de ler, porque precisava saber o que aconteceria com Mahit, seus amigos, se ela conseguiria defender sua estação e sua liberdade. Apesar de o livro não ter um final em aberto, ele soa melancólico, já que sabemos que uma ameaça está por vir sobre todos eles. Quatro aliens para o livro e uma forte recomendação para você ler também!


Até mais!

Já que você chegou aqui...

Comentários

Form for Contact Page (Do not remove)