Resenha: A verdade sobre o caso Harry Quebert, de Joël Dicker

Eu pensei muito se deveria trazer essa resenha porque há uma regra informal no blog, que venho seguindo há muitos anos, de não resenhar livros com menos de três aliens. O fato de eu gostar ou não de um livro não o torna bom, é apenas um indicador do meu gosto pessoal. Mas quando um livro é tão problemático e tão poucas resenhas mencionam isso, acho que a gente precisa discutir a respeito.

O livro
Marcus Goldman é um escritor e uma celebridade desde que seu livro se tornou o mais vendido e comentado daquele ano. Com o lucro das vendas e das aparições em programas de TV, rádio e palestras, ele é dono de um belo apartamento em Manhattan, um carro zero e uma namorada famosa. Mas, conforme o tempo passa, sua fama vai diminuindo, até que chega a um ponto em que a editora começa a pedir pelo novo romance e ele só tem páginas em branco para entregar. O desespero começa a bater, então ele liga para um velho amigo e mentor da época da faculdade, o famoso Harry Quebert, autor de um livro que marcou a literatura para sempre.

Resenha: A verdade sobre o caso Harry Quebert, de Joël Dicker

Não gosto muito do conceito de arrependimento: ele significa que não assumimos o que fomos.

Dias depois, Marcus é surpreendido, junto de toda a nação, pela descoberta do corpo de uma jovem de 15 anos, chamada Nola Kellergan, enterrado no jardim de Harry, junto com o original do romance que o consagrou. Harry Quebert mora em uma cidadezinha à beira-mar, em New Hampshire. Harry admite ter tido um caso com a garota (!) e ter escrito o livro para ela, mas alega inocência no caso do assassinato. Nola desapareceu sem deixar rastros em 1975, mas conforme a leitura avança, percebemos que a cidade sabe muito mais sobre o assunto do que parece.

Sem ideias e sem ter o que fazer, Marcus decide investigar o assunto e assim livrar a cara de seu amigo e mentor. Conforme faz isso, bilhetes estranhos começam a surgir, pedindo que ele deixe o caso quieto. Do restaurante singelo onde Harry ia todos os dias para escrever, até o departamento estadual de investigações, Marcus vai percorrer muitos caminhos para descobrir o que aconteceu naquele verão. E a gente vai caminhando junto dele sem acreditar no que está lendo.

O livro seria OK se a gente mudasse a idade de Nola. Se essa garota tivesse 10 anos a mais, ele não seria tão problemático. Seria brega, com diálogos sofríveis, enrolados com personagens caricatos e algumas boas dicas sobre escrita, mas não teria romantização de pedofilia. No começo de cada capítulo, estão algumas lições e dicas de escrita que Harry ensina a Marcus. Ficamos sabendo de toda a vida de Marcus, de como ele era um medíocre esperto o bastante para enganar professores e colegas na juventude, mas que jamais se sustentaria como um escritor, a menos que se dedicasse muito para isso.

Mas Nola é uma menina de 15 anos que se apaixona por um sujeito com então 34 anos e há poucas linhas no livro que condenem tal relação. Acho que nas mais de 570 páginas do livro, há apenas uma frase, escrita no espelho de um banheiro, que diz Comedor de menininhas. A personagem que faz isso é praticamente uma mulher histérica que odeia o personagem-título. Aí você se pergunta: odeia por ser um pedófilo? Não, ela o odeia porque ele não quer nada com a filha dela e a humilhou na frente de toda a cidade.

Todo mundo tem seus demônios. A questão é simplesmente saber até que ponto esses demônios são toleráveis.

Outra questão que incomoda é que todas as personagens femininas são um combo de estereótipos. São megeras histéricas, mulheres bobas e apaixonadas ou mães obcecadas e destruidoras. A única personagem que parece ter alguma maturidade é justamente Nola, que tem apenas 15 anos, tendo que inclusive fazer favores sexuais a outros homens para salvar a carreira do escritor "ingênuo". Percebe o que está acontecendo aqui? Marcus passa o livro todo reiterando que seu bom amigo Harry é uma boa pessoa e que vem sendo injustiçado. Ele era apenas um homem romântico e apaixonado, que sentia saudades do seu grande amor (uma menina de 15 anos!). E ninguém, nem mesmo o pai da garota, parece achar estranho, nem fica indignado com isso. O que tinha na água dessa cidade pra essas pessoas serem tão apáticas?

"Ahhh, mas é que naquela época era normal homens mais velhos com meninas mais jovens", li em algumas resenhas. "Ahhh, mas você tá lendo com os olhos de hoje" e isso deixa de ser crime e de ser nojento por estarmos olhando com o viés atual? Uma das frases mais perigosas que existem é "mas sempre foi assim!", porque isso justifica e legitima qualquer tipo de absurdo. Tem um ditado que diz que é preciso uma vila para cuidar de uma criança. E é preciso uma cidade inteira para abusar de uma.

Quando estava chegando ao final da leitura, quando as revelações sobre o verdadeiro assassino e sobre o que aconteceu naquele verão de 1975 surgem, eu já estava de saco cheio. Não houve satisfação alguma em descobrir nada, eu queria que todos eles explodissem. Este não é o primeiro livro do autor que li. Anos atrás, pelo clube Intrínsecos, li O desaparecimento de Stephanie Mailer, que não foi um livro perfeito, mas entregou um enredo que não me desapontou tanto.

A tradução foi de André Telles e o livro está bem diagramado e revisado. Não encontrei problemas de revisão ou diagramação nele.

Obra e realidade
Algumas resenhas gringas se incomodaram muito com o livro, que foi um mega sucesso na França, vendendo mais de 1 milhão de exemplares. Nos Estados Unidos, o livro teve uma recepção morna, principalmente por causa dos estereótipos usados pelo autor na composição de seus personagens. Os norte-americanos não gostaram de ler uma obra que os descreve de maneira insidiosa, uma sociedade cheia de policiais corruptos, fraudes literárias, doenças mentais e abuso parental, estupro de vulnerável e um culto a celebridades que inclui romancistas literários.

E aí fica a pergunta: era essa a ideia de Joël Dicker desde o começo? A forma como ele descreve o relacionamento de Nola e Harry beira a infantilidade. São frases bregas, mal construídas, até mal escritas. Em um determinado momento, esse "casal" vai passar uma semana, com tudo pago, em um hotel à beira-mar. E Dicker foi bem discreto em descrever esse período. Não há uma única relação sexual entre esses dois. Nem mesmo beijos são descritos. Ele fez esse tipo de caracterização apenas para irritar o leitor norte-americano? De cutucar uma ferida aberta na sociedade estadunidense?

Joël Dicker
Joël Dicker é um romancista suíço, conhecido por seus enredos intrincados, romances policiais e cenários numa Hamptons fictícia. Nascido em Genebra, tem amor pela literatura, sendo filho de um professor de francês e uma bibliotecária.

PONTOS POSITIVOS
Capa
Tradução

PONTOS NEGATIVOS
Clichês mal trabalhados
Romantização da pedofilia
Diálogos rasos

Título: A verdade sobre o caso Harry Quebert
Título original em francês: La Vérité sur l'affaire Harry Quebert
Autor: Joël Dicker
Tradutor: André Telles
Editora: Intrínseca
Páginas: 576
Ano de lançamento: 2014
Onde comprar: na Amazon!

Avaliação do MS?
Quis resenhar o livro para poder trazer a discussão: foi um livro intencionalmente escrito para provocar uma audiência específica? Foi mal escrito mesmo? Dicker é conhecido por seus enredos complexos, repletos de reviravoltas, mas primeiro a gente tem que estar engajado com os personagens para querer chegar ao final. Terminar um livro na força do ódio acaba nos impedindo de buscar outros livros do mesmo autor. Dois aliens apenas.


Até mais!

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