Por que ler ficção científica nos dias de hoje?

Não é a primeira vez que vejo a pergunta rodando por aí. Ela invariavelmente reaparece quando uma notícia relacionada à ficção científica ganha alguma projeção na mídia. Não faz muito tempo, a notícia era sobre o exército francês contratando escritores de ficção científica para ajudá-los com cenários futuros da guerra. E muita gente deu risada, tirou sarro da contratação. E algumas pessoas até se questionaram sobre a utilidade de um escritor para uma organização militar. E claro, um questionamento era sobre para que ler FC nos dias atuais.



Por que ler ficção científica nos dias de hoje?
Arte de Marcus Gorlei

Leia também: O futuro pelos olhos da ficção científica

Desde que o blog surgiu eu já me deparei com todo tipo de pergunta e dúvida e preconceito a respeito da FC. Uma coisa é gosto pessoal, a outra é preconceito por desconhecer as potencialidades da FC em uma série de discussões. Tem também o olhar blasé de escritores que acham que ser encaixado na FC é demérito, que você é uma pessoa de menor valor porque escreve ficção científica. Tudo isso prejudica e muito que as pessoas enxerguem e aproveitem tudo o que a FC pode oferecer.

Uma das reclamações das pessoas é que o futuro já chegou, então a gente não precisa da ficção científica para pensar sobre essas coisas "futuristas". Que nós já temos robôs, temos sondas pelo sistema solar, planos de missão para Marte, então não faria sentido ter histórias com esse assunto. Porém nenhuma dessas histórias é, necessariamente, sobre robôs, ou sobre sondas. Ray Bradbury não escreveu sobre marcianos em As Crônicas Marcianas, escreveu sobre a raça humana. Isaac Asimov escreveu sobre robôs e todas as questões e contradições levantadas pelas três leis da robótica, mas não imaginou drones, nem a Siri ou a Cortana.

O hábito da leitura de ficção pode ser apenas escapismo e diversão. Em especial na FC e Fantasia, nós lemos e viajamos para mundos que nunca existiram ou existirão. Mas mais do que isso, são gêneros que arquitetam mudanças. Ao ler uma história, ainda mais na ficção especulativa, nós imaginamos mundos e conceitos praticamente do zero, valendo-se apenas das palavras que nos são dadas nas páginas. É um exercício de especulação intensa que permanece gravada no cérebro dias depois de terminarmos a leitura.

Essa capacidade de criar cenários do zero e de simular consciências por meio de seus personagens e situações, também nos torna mais empáticos. Ao explorar a vida de personagens, podemos experimentar o que eles vivem, o que pensam, o que sentem e assim aprender a enxergar o outro por essa perspectiva. Ler, em especial a ficção científica, nos ajuda a extrapolar um cenário futuro positivo ou aprender a evitar um negativo.

Mesmo livros sobre viagens espaciais distantes se resumem à emoção humana e ao pensamento humano.

Susan Sontag

Muitas pessoas veem a FC como uma coisa boba, escapista, coisa para se distrair em uma tarde de tédio, algo que não precisa de muito esforço mental. Por sua vez, a ficção científica, também chamada por muitos como uma "literatura de ideias", trata dos mesmos dilemas morais e humanos de qualquer livro fora do gênero especulativo. Trata dos conflitos que nos levam a percorrer as páginas e acompanhar personagens que vão nos ensinar a como nos colocar no corpo de outra pessoa, na mente de outra pessoa e a pensar como outra pessoa. Não é, nem nunca foi sobre viagens com FTL drives ou sobre contatos alienígenas, é sobre como os humanos se comportariam se tivessem a capacidade de viajar acima da velocidade da luz, é sobre como o ser humano se sentiria ao entrar em contato com indivíduos radicalmente diferentes dele mesmo.

Os professores Chris Gavaler e Dan Johnson descobriram que palavras como "antigravidade", "motor de dobra" e outros termos normalmente associados à ficção científica fazem com que muitos leitores não levem a sério a leitura de um texto. Eles fizeram um experimento com um texto de mil palavras que foi reproduzido em uma versão literária e outra em ficção científica. Eles esperavam que as pessoas percebessem que era exatamente o mesmo enredo, mas aqueles que já tinham um certo preconceito com FC disseram que não entenderam o enredo nem se conectaram aos personagens que eram alienígenas, robôs e androides, ainda que o texto fosse IGUAL.

Esse preconceito está privando as pessoas das análises mais importantes do nosso tempo. Com a ficção científica nós podemos inspirar o futuro, podemos ter vislumbres de cenários fictícios, mas que são baseados nos dilemas atuais. Nos permitimos fazer perguntas sobre nosso futuro, nossa sociedade e civilização, que de outras maneiras nós não faríamos. Quem somos nós? Para onde vamos? Como vamos superar os desafios do presente? Nem sempre as perguntas serão respondidas porque muitas vezes elas são pessoais e apenas você pode responder a questão.

Mas com a questão feita podemos extrapolar sobre ela o quanto quisermos. Darko Suvin, em seu livro Metamorphoses of Science Fiction (1979), nos trouxe o termo "estranhamento cognitivo", algo próprio da FC ao retratar a realidade. É com esse estranhamento que podemos observar o mundo em que vivemos com um olhar de fora, para que possamos olhar tudo aquilo que damos por certo e assim questionar e, quem sabe, nos abrirmos à mudança. As inovações sociais, culturais e tecnológicas que são características do gênero são os vetores de transformação de pensamento.

Só por nos obrigar a enxergar o mundo por esse olhar é que a leitura de FC deveria ser feita com mais frequência. Ainda é difícil vencer o preconceito das pessoas, onde muitas ainda encaram a FC como coisa de criança, que é só por diversão que nos jogamos em naves interestelares. Não que a gente não se divirta, mas não há como discutir os grandes desafios tecnológicos e sociais sem ficção científica. E é por essas e outras que devemos ler FC, mais do que nunca.

Vida longa e próspera!


Leia mais:
3 Reasons Why You Should Read Science Fiction - Ricmac
Why Everyone Should Read More Science Fiction - Huffpost
Why Do People Not Read Science Fiction? Reading from only one side of the brain - Carol Pinchefsky
(Im)possível experiência: literatura e alteridade, teoria crítica e ficção científica - Diogo Cesar Nunes


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2 COMENTÁRIOS

  1. É triste porque fica claro a falta de capacidade imaginativa dessas pessoas. Principalmente quando você pensa que desde cedo, já na escola, a criatividade e a curiosidade já não são mais estimuladas. As pessoas só aceitam e se conformam com a "realidade da TV" e do dia a dia. E depois viram adultos com preguiça intelectual e sedentos por verdades imediatas, dessas que cabem em um tuíte... :-/

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