Resenha: Holocausto Brasileiro, de Daniela Arbex

Este foi um dos livros mais impactantes, mais importantes que já li. Gostaria que cada brasileiro pudesse ter um exemplar desses na mão, que conhecesse a tragédia e o holocausto que ocorreram sob a anuência do Estado, da sociedade e da classe médica por décadas. Um lugar que deveria tratar pessoas com doenças mentais, mas que apenas as desumanizou e serviu como depósito para aqueles que a sociedade queria que sumisse.



Este livro foi uma cortesia da Editora Intrínseca


O livro

(...) nenhuma violação dos direitos humanos mais básicos se sustenta por tanto tempo sem a nossa omissão.

Página 15

Holocausto Brasileiro é um livro reportagem que escancara os crimes cometidos contra seres humanos dentro dos muros do Centro Hospitalar Psiquiátrico de Barbacena, Zona da Mata, em MG, ou como é mais conhecido, o Colônia. O centro foi fundado em 1903 e recebia centenas de pessoas todos dias, ainda que no papel devesse ter apenas 200 internados. O Colônia foi o porão para onde a sociedade mandou aqueles que não desejava em seu convívio: mulheres grávidas, esposas que ousassem desafiar seus maridos, filhos rebeldes, pessoas com problemas com a bebida, gays, prostitutas, pessoas com epilepsia, mães solo, mendigos, melancólicos ou apenas introvertidos, inimigos políticos, negros, pessoas sem documentos ou apenas desafetos. Cerca de 70% dos internados ali não tinham qualquer problema ou doença mental. Só eram indesejados pela sociedade ou por alguém poderoso.

Resenha: Holocausto Brasileiro, de Daniela Arbex

Os internados eram acordados logo cedo pela manhã, mandados para o pátio, onde ficavam ociosos até a hora de dormir. Não havia camas, não havia roupas suficientes, não havia água potável, então era preciso matar a sede no esgoto a céu aberto. Homens, mulheres e crianças conviviam todos juntos e na hora de dormir era necessário se amontoar para não morrer de frio. Mas de manhã era possível encontrar cadáveres, que logo se tornaram fonte de lucro com a venda de seus corpos para faculdades de medicina. Os eletrochoques eram comuns e aplicados a esmo, sem nenhuma indicação terapêutica. Eles eram dados com fins de intimidação e eram tão frequentes que às vezes a rede elétrica da cidade não dava conta da demanda do Colônia.

Eu lia um capítulo do livro e tinha que parar, porque era demais. Só voltava à leitura depois de uma semana, depois parava mais um tempo. É assim o ritmo de leitura, é assim que você lerá este livro, mas você vai ler, porque precisa, porque deve. Assim como os alemães são educados desde a infância para terem ciência dos crimes nazistas, nós deveríamos ter essa ciência também. Deveríamos desde cedo saber o que foi que aconteceu no Colônia, como e porque aqueles crimes foram permitidos para impedir que fossem novamente cometidos.

No meu curso de Geografia nós tínhamos uma disciplina chamada geografia da saúde e não consigo entender porque não tivemos uma menção sequer aos crimes do Colônia. Nada. Só soube do crime que estava acontecendo lá quando li a sinopse do livro ao ver o anúncio do documentário de mesmo nome da HBO. E se na faculdade, em uma disciplina específica como essa, eu não tive acesso à essa história, que dirá a pessoa comum, em seu dia a dia?

Com tamanhos variados e temas que vão desde à fundação da instituição ao processo que levou à política antimanicomial no Brasil, os capítulos possuem fotos da época do "auge" do Colônia, mostrando pessoas semi-nuas, dormindo em meio às moscas, definhando em situações sem a menor higiene. E uma coisa salta à vista ao olhar para as fotos e para as faces da maioria dos pacientes: a maioria é negra. Então aliado ao descaso das autoridades, à conivência da sociedade e da polícia, o crime ocorrido no Colônia é também racial.

As entrevistas foram feitas com ex-funcionários do Colônia, ex-pacientes que sobreviveram ao inferno, ex-médicos que denunciaram a situação várias vezes, com fotógrafos e jornalistas que mostraram as condições do manicômio ao país e com os políticos envolvidos nas leis que reconheceram os direitos das pessoas com transtornos mentais e a extinção progressiva dos manicômios. É desesperador saber como há uma possível regressão do (des)governo atual em desfazer décadas de luta para tratar pessoas com transtornos como seres humanos.

Eu não tenho mais palavras para dizer tudo o que esse livro é e representa, nem tenho como escrever tudo o que a gente sente ao ler o que Daniela Arbex colocou nessas páginas. Me revoltei, chorei, escrevi palavras indignadas na beirada das páginas, marquei com post its, larguei a leitura para poder espairecer e depois voltar. Não tem como terminar uma leitura como essa e sair dela inteira. É impossível, não dá. Você vai deixar algo seu nas páginas. Cerca de 60 mil pessoas morreram no Colônia, abandonados pelo Estado, por suas famílias e pela sociedade.

Foto de Luiz Alfredo do Colônia, com uma mulher à grade da janela
Foto de Luiz Alfredo de dentro do Colônia para a revista O Cruzeiro, com uma mulher à grade da janela

A edição da Intrínseca conta com um posfácio da autora, com uma reflexão sobre o que aconteceu desde a primeira edição em 2013, pela Geração Editorial, até esta, que é de 2019. A diagramação está um primor e também a qualidade das imagens, mesmo aquelas que são dos anos 1960. A revisão também está ótima, não encontrei problemas na leitura.


Obra e realidade
Em 1914 já havia queixas sobre as condições no Colônia, ou seja, 11 anos depois de sua fundação, já havia problemas com o atendimento e as condições aos pacientes. O primeiro hospício do Brasil foi instituído por decreto de Pedro II em 1841, sendo que a psiquiatria se constituiu no Brasil somente no início do século XIX. Os loucos eram normalmente enviados para delegacias ou para hospitais, sem nunca receber o tratamento adequado e a atenção médica que precisavam. O que antes eram possessões demoníacas tinham agora uma explicação pela ciência. Mas o cuidado devido, a atenção psiquiátrica, demorou para vir. O Brasil levou décadas para humanizar o tratamento e ainda que apresente falhas, o Colônia não mais existe tal como vemos nas fotos do livro.

Hoje o Centro Psiquiátrico Hospitalar tem cerca de mil funcionários para 300 leitos. Cerca de 170 das vagas são ocupadas por doentes cronificados pela instituição. A cidade de Barbacena hoje conta com residências terapêuticas, onde ex-internados moram, depois de décadas de isolamento e abandono da família. Pessoas que nunca tiveram cama, documentos ou puderam antes acender e apagar as luzes de seus quartos podem ter alguma dignidade. Infelizmente, manicômios ainda existem no Brasil e uma inspeção feita em várias instituições encontrou falta de higiene e condições de atender aos pacientes. A luta antimanicomial não pode parar nem sofrer retrocessos, ou as 60 mil vítimas do Colônia terão morrido em vão.

Daniela Arbex

Daniela Arbex é uma jornalista brasileira dedicada à defesa dos direitos humanos. Formada em Comunicação Social pela Universidade Federal de Juiz de Fora em 1995, iniciou a carreira no jornal Tribuna de Minas, do qual foi repórter especial por mais de duas décadas.

A medicina brasileira tem tradição de cárcere. Por isso a lógica da internação faz com que os recursos médicos sejam predominantemente hospitalares, subtraindo recursos do tratamento ambulatorial, comunitário, aberto.

Página 236

Pontos positivos
Autora nacional
História do Colônia
Fotos, dados e entrevistas
Pontos negativos

Aviso de gatilho para violência e abuso

Título: Holocausto Brasileiro
Autora: Daniela Arbex
Editora: Intrínseca
Páginas: 280
Ano de lançamento: 2019
Onde comprar: Amazon


Avaliação do MS?
Desde a primeira edição que o livro virou referência para TCCs, dissertações, teses e matérias na mídia. Mais do que isso, pessoas reconheceram parentes seus em fotos do livro e assim puderam desvendar mistérios de infância, abandonos, medos, saudades. Um dos poderes da literatura é humanizar as pessoas. E Daniela fez isso com este livro, dando voz àqueles que partiram, àqueles que nunca puderam falar, àqueles que berraram e nunca foram ouvidos. É também um alerta de que direitos duramente conquistados podem ser retirados com uma simples canetada de demagogos com respostas fáceis para problemas complexos. Não deixe a memória do Colônia se esvanecer. Leitura essencial e obrigatória.

Até mais.

O que acontece no Colônia é a desumanidade, a crueldade planejada. No hospício, tira-se o caráter humano de uma pessoa, e ela deixa de ser gente. É permitido andar nu e comer bosta, mas é proibido o protesto qualquer seja sua forma.

Página 210


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