I Am Mother, maternidade e robôs

I am Mother entrou recentemente para o catálogo da Netflix. A produção de Grant Sputore com roteiro de Michael Lloyd Green, nos fala de um laboratório onde milhares de embriões humanos congelados estão armazenados e um robô, chamada apenas de Mãe, gera em um útero artificial uma criança, de quem se torna mãe, professora e cuidadora. O começo nos mostra uma criança em vários estágios de desenvolvimento e somos levados a crer que todas se tratam da mesma pessoa, a personagem da Filha, interpretada por Clara Rugaard.

I Am Mother, maternidade e robôs



Filha é inteligente e curiosa, sempre se questionando sobre o que aconteceu com o mundo lá fora. Sua única companhia são vídeos antigos que assiste em um tablet e a robô, a quem chama de Mãe. Mãe diz que a contaminação do mundo exterior é alta demais e que ela não pode permitir que a filha tenha contato com qualquer coisa vinda de fora. O equilíbrio da relação delas é abalado quando Filha deixa entrar uma Mulher ferida (Hilary Swank), que lhe diz que não deve acreditar em nada que venha de um robô.

Robôs e inteligências artificiais são figurinhas carimbadas da FC desde que o gênero moderno se estabeleceu. A criatura feita em laboratório por Viktor Frankenstein nada mais é do que uma inteligência artificial. A diferença dele para a personagem da Mãe é que a criatura de Mary Shelley é orgânica. A FC se vale de androides, drois, robôs e IA's como forma de tecer críticas e paralelos com a realidade ou de extrapolar um determinado cenário para nos fazer enxergar as aplicações dele.

Aqui entra uma questão: é possível que robôs tenham consciência? Uma coisa que fica evidente ao olharmos para os robôs e IA's modernos é que conseguimos fazer com que eles pensem e tomem decisões, mas tudo o que é espontâneo do ser humano ainda não é possível de programar em uma máquina. Nós já superamos o Teste Turing, que estabelecia que para determinar se uma inteligência artificial era de fato inteligente, ela devesse conversar com um ser humano e passar por outro ser humano. O assistente do Google pode marcar hora no salão de beleza, no restaurante, te lembra de tarefas e até conta piadas se você pedir.

É aí que surgiu o chamado Teste Lovelace. Ele entra onde o Teste Turing falha. Uma máquina pode responder a perguntas simples em uma conversa, te lembrar de coisas importantes, criar uma lista de supermercado pelo o que você tem na geladeira, mas não tem condições de criar uma obra de arte. Não é apenas imitar o estilo de Picasso, é criar algo genuíno, próprio, é ter espontaneidade, criatividade e assumir comportamentos que divirjam de sua programação. Tem que ser algo que seus programadores não possam explicar, pois seria necessário espontaneidade, intenção, atitude.

E como se programa isso? Pois é, é a questão de 1 milhão de dólares aqui. Quem deu uma saída elegante para o assunto foi a série de apenas duas temporadas, Extant. Nela havia os Humanics. O criador dos Humanics acreditava que, para termos robôs que de fato sejam humanos e se preocupem com a raça humana, eles precisariam ser criados como um. Então eles faziam "nascer", ou seja criavam uma IA num servidor e interagiam com ela todos os dias, tal como você faria com um bebê. Não é assim que somos criados como seres humanos, com a interação entre e com outros seres humanos? Coloque uma criança para ser criada entre lobos e ela será um.

Depois a IA amadurecia, ela era transferida para um corpo mecânico de uma criança e seria criada como uma, indo à escola, brincando, aprendendo conceitos morais e sociais. É quase a mesma coisa que aconteceu com o Doutor, em Star Trek Voyager e com o Odo, em Deep Space 9. Com o tempo aquela inteligência artificial seria transferida para um outro corpo robótico. A moral da história é que só assim um computador seria capaz de criar, de pensar e de ser espontâneo e ainda adquirir humanidade, já que isso não se programa.

Quando olhamos a personagem da Mãe, interpretada por Luke Hawker, que usava a pesada roupa de robô, e brilhantemente dublada por Rose Byrne, percebemos que ela tem uma visão rígida e estruturada de mundo, onde cada um deve servir a um propósito bem definido. Qualquer obstáculo, qualquer coisa que fuja dos planos deve ser eliminado ou corrigido. Ela não tem sentimentos de humanidade ou maternidade, nem mesmo no final. A forma como o filme acaba também está em seus planos, pois a Mãe está em controle de tudo. Sua tarefa de criar humanos melhores do que aqueles que existiam teve a primeira tarefa completada com sucesso, mas não há nada ali que ela já não tenha previsto e planejado.

Nesse sentido ela não difere da Skynet, que também é outra IA onisciente e onipresente, com planos rígidos e nem um pouco humanos. A Mulher chega a afirmar isso para a Filha, de que aquela "lataria" não tem nenhum sentimento por ela. E nesse sentido é verdade. A máquina apenas tem planos, que estão sendo seguidos à risca para um determinado fim.

Alguns poderiam dizer que a máquina tem sentimentos maternais com a Filha. Tal como a sociedade define, o instinto materno não existe. Se existisse, muitas mães amariam seus bebês incondicionalmente e sabemos que não é verdade. Sarah B. Hrdy, antropóloga e professora emérita na Universidade da Califórnia, acredita que o que acontece é uma predisposição biológica para o investimento no filho – determinada pela fria relação entre custo e benefício.

Que é o que vemos a Mãe fazer no filme. Todo o seu investimento na educação e cuidado da Filha é para chegar a um fim, um plano que ficamos sabendo perto do final. O que nos separa de robôs frios e programados é nossa capacidade de ter emoções e nossa educação para nos tornar humanos, nossa capacidade de amar nossas crianças (alguns por suas vez não amam). Se a Mãe tivesse sido criada como os Humanics, de Extant, será que ela, de fato, nutriria sentimentos pela Filha ou pela Mulher? Ela seria dotada de humanidade, talvez visse que seus planos frios eram desumanos e desistisse deles.

I Am Mother é um filme que nos faz questionar a humanidade e a maternidade, a consciência dos robôs e sua moralidade, algo que a ficção científica sempre fez.

Até mais!

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