Resenha: Se eu não te vir primeiro, de Eric Lindstrom

Este foi um livro muito instrutivo sobre as coisas idiotas que os cegos são obrigados a aguentar de pessoas que enxergam. De algumas eu já tinha me dado conta, em outras fui pega de surpresa em o quão banal uma coisa é para nós, que é totalmente diferente para quem não enxerga. A protagonista é Parker, que perdeu a visão em um acidente de carro quando era criança. Desde então, seu pai tentou protegê-la do mundo e das pessoas más.



Parceria Momentum Saga e
editora Rocco


O livro
Todos os dias, Parker sai para correr num campo perto de casa. Bastante independente em muitas coisas, ela veste sua roupa de corrida e vai para o campo, sentir o vento no rosto, o corpo quente pelo exercício. Depois disso, volta para casa, se arruma e vai para a escola. Parker tem uma série de regras para as pessoas seguirem, algumas baseadas à cegueira, outras a experiências do passado. Faz total sentido que ela peça que as pessoas não sejam cretinas, ainda mais usando a cegueira como desculpa. Mas uma das regras que Parker terá que considerar é sobre não dar segundas chances a ninguém.

Resenha: Se eu não te vir primeiro, de Eric Lindstrom

As pessoas não mudam. Elas só aprendem com a experiência e se tornam atores melhores.

Página 71

A vida de Parker mudou drasticamente quando seu pai morreu. Por acharem que ele tinha cometido suicídio, Parker não pode receber o seguro de vida. Mas ela não acredita em suicídio, acha que ele foi vítima de superdosagem de medicamentos. Por ser menor de idade, ela ainda não tinha como se manter sozinha, então sua tia e toda a família se mudaram para sua casa de mala e cuia. Aqui entra um ponto importante: eles fizeram isso não apenas porque a casa da Parker e do pai era melhor que a deles, mas porque seria uma difícil adaptação para Parker ir para outra casa, outro bairro, outra cidade e em casa ela já conhecia a disposição de tudo. A questão é que Parker não é uma personagem tão legal assim.

E aqui acho que devo deixar óbvio: não é porque ela é cega, mas é por ter sido mal construída pelo autor. Há momentos excelentes em que somos ensinados por Parker a como nos comportar com uma pessoa que não enxerga. Essa dinâmica foi excelente, falando de coisas como sempre avisar se vai tocar nela, afinal ela vai se assustar por não estar vendo; ela é cega e não surda, então não precisa gritar; sempre anunciar sua chegada ou saída e entender que uma pessoa cega não é incapaz de realizar compras numa loja ou cozinhar. A tia de Parker tem até boas intenções, mas não entende que a sobrinha é independente.

A questão é que Parker é, por falta de palavra melhor, uma escrota. De novo, pra mim foi falha na construção do enredo. Ela não se importa com os sentimentos de ninguém, só com os seus, a ponto de ter um atrito com a melhor amiga de anos e quando fica claro o motivo, você tem vontade de segurar a Parker pelos ombros e sacudir pra ver se ela acorda e passa a tratar melhor as pessoas.

Quando Parker tinha 13 anos, seu namorado fez algo que a magoou profundamente. Esse ato afetou a todos à sua volta e quando o garoto volta para a escola onde ela estuda, ela vai precisar rever seus conceitos. Acho que a juventude de todos os envolvidos na história complicam para que a gente se apegue aos personagens. Não porque eles são jovens, mas porque ficaram rasos. Todos eles. Os diálogos especialmente são um problema. Não sei se pelo passado do autor ser em videogames, tive a impressão de que os diálogos eram legendas de jogos. E longas, looooongas explicações e blábláblá.

Sobre a mãe e o pai de Parker pouco sabemos, ela mal fala a respeito. Sei que dói ter que mexer em lembranças dolorosas, mas como ela é a narradora faltou uma maior lembrança deles. Parker pensa muito em si mesma, e não há nada de errado em fazer isso de forma saudável, só que ela acaba impactando negativamente a vida dos outros e só depois quando as pessoas de fato explodem e falam o quanto ela está sendo egoísta é que ela se toca. Mas como ela poderia saber de uma série de pistas que nossos gestos, nosso olhar, nossa atitude corporal dão? Ela não enxerga. Talvez achemos suas regras exageradas, mas se estivéssemos em sua pele, a forma de avaliar os outros seria diferente.

O livro não é ruim, mas senti que poderia ser melhor nos diálogos, no final e sem longas explicações. A tradução ficou por conta de Maryanne Linz. O livro tem braile na capa, que segue a edição francesa e não a edição norte-americana. Não encontrei erros de diagramação, revisão ou tradução, algo muito pontual e olhe lá.


Ficção e realidade
Livros como esse são bastante instrutivos para as pessoas que não possuem qualquer deficiência, além da falta de educação. Apesar de eu saber de algumas coisas que Parker menciona no livro, outras foram bastante educativas. Esse é poder da literatura, de instruir, de te levar para dentro de uma história, de te fazer pensar sobre coisas que antes você nem tinha ideia. A gente pode ver uma série de coisas, mas precisamos aprender a enxergar também e isso nem sempre depende de um par de olhos.

Eric Lindstrom

Eric Lindstrom trabalhou por anos como designer de jogos, diretor criativo e escritor. Hoje se dedica totalmente à escrita. Mora na Costa Oeste dos Estados Unidos, com a esposa e os gatos.


Pontos positivos
Protagonista cega
Discussão sobre capacitismo

Pontos negativos
Cansativo
Longos diálogos ruins
Personagens mal construídos

Título: Se eu não te vir primeiro
Título original: Not If I See You First
Autor: Eric Lindstrom
Tradutora: Maryanne Linz
Editora: Rocco Jovens Leitores
Ano: 2019
Páginas: 320
Onde comprar: Amazon


Avaliação do MS?
Não vou dizer que o livro é totalmente horrível, pois você aprende algumas coisas com ele, vê o valor das amizades, especialmente entre as garotas. Mas sinto que se o livro fosse entre Parker e seu pai, seus sentimentos não resolvidos sobre sua morte ao invés do triângulo amoroso, teria aproveitado mais. E os diálogos precisam melhorar, Sr. Lindstrom, por favor. Três aliens para o livro.

É bom, mas...

Até mais!

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