Mina Harker, a feminista?

Em 26 de maio de 1897 foi lançado Drácula. E depois disso, a literatura nunca mais foi a mesma. A figura do vampiro se cristalizou no imaginário popular com Bela Lugosi e desde então a produção com vampiros, sejam eles heróis ou vilões disparou. A figura do vampiro que sai à noite para drenar o sangue de humanos incautos já era bastante popular em épocas passadas. Se doenças atingissem vilas e comunidades de interior, especialmente na Europa Oriental, era comum que atribuíssem à atividades de vampiros à solta. Porém, foi o romance de Bram Stoker que catapultou a ideia do vampiro e o tornou um marco de nossa cultura no Ocidente. Quando foi lançado, Drácula teve um sucesso modesto, porém com a montagem do romance para a Broadway, nos anos de 1920 e o filme da Universal, as vendas estouraram.

Vampiros são a representação do sombrio e dos não-vivos (e nosso medo da morte) da maneira mais sedutora e glamorosa possível, algo que até mesmo a agente Scully comenta em um episódio maravilhoso de Arquivo X. E a figura da vampira sensual e lasciva também é algo que vem na esteira do sucesso de Drácula, pois no romance nós temos três delas. Além destas figuras femininas, temos Lucy e Mina.

Mina Harker, a feminista



É muito complicado tentar avaliar qualquer coisa do passado usando nosso tempo atual e nossa cultura como bases. Você vai cair em generalizações e erros de discurso, isso é certo. Enquanto lia Drácula e Dracul, caí em algumas análises variadas e comentários de leitores (que levaram a esse texto), reclamando de como o livro era difícil de engolir, como era uma obra machista e que por isso era uma história ruim. Algumas pessoas simplesmente largaram a leitura e não continuaram.

Eu entendo o desconforto e também fico incomodada com uma série de coisas em livros de vários autores. De autores que não sabem escrever personagens no geral, especialmente as femininas, com enredos sem pé nem cabeça a passagens misóginas e homofóbicas. Mas eu também tento me colocar na época em que aqueles livros foram escritos na tentativa de absorver o momento. Enquanto nos tempos atuais não dê para desculpar autores que não saibam escrever personagens femininas ou negras ou gays, tentar lançar o mesmo olhar para livros de cem anos ou mais é querer cair no erro.

Isso porque a forma como vemos a literatura hoje depende de uma série de eventos, acontecimentos e demandas que são necessárias, baseadas em um histórico de lutas, de discussões e, principalmente, de avanços. Até mesmo Mary Shelley, tida como a criadora da ficção científica moderna, filha de uma feminista extremamente importante, Mary Wollstonecraft, não colocou uma protagonista feminina em seu clássico, Frankenstein. Significa que Frankenstein é um livro ruim? Não, é claro que não.

Eu acho Isaac Asimov um misógino babaca, mas não descarto a obra dele e tenho minha parcela de agradecimento pelo impacto que O homem bicentenário teve em mim. Hoje sei que não consigo mais ler como lia antes, até porque já li MUITO Asimov e sempre tive que usar um óculos de neutralidade para ler seus livros para tentar me irritar menos e assim apreender as mensagens por ele passadas. Nem sempre é fácil, admito.

Com Drácula é preciso usar esse óculos. Acredito que com qualquer livro (ou qualquer outra produção artística, como filmes, quadrinhos e TV) precisamos usar algum tipo de discernimento, pois nada, nunca, é 100% inclusivo. Mas seres humanos são dotados de empatia por uma razão. Drácula tem seus problemas com relação à representação femininas, mas tem também seus créditos e não devemos relegar o livro para o fundo da estante por causa disso. Ele é machista? É e a sociedade ainda é machista, misógina, capacitista, homofóbica e tem preconceito enraizado, indo do humor às novelas das 8 aos seriados em pleno século XXI.

O que nos interessa aqui é o contexto de quando Drácula surgiu. O livro para a sua época pode ser considerado feminista devido à figura de Mina Harker?

Precisamos entender que, independente de um livro clássico transcender a época em que foi criado, ele ainda é fruto de seu tempo. E Drácula é um livro vitoriano por excelência. O fascínio com os mortos e os rituais de morte, os avanços científicos estrondosos, as mudanças sociais e o movimento sufragista, tudo isso fazia parte da mente coletiva da época. Era um momento de intensa dúvida sobre o que o futuro traria para o moral britânico, com ameaças estrangeiras ao modo de vida vitoriano. Um conde e vampiro vindo das ermas terras da Europa Oriental exalava ameaça e pavor por onde passava. E Bram Stoker não estava imune a isso.

Na edição de Drácula lançada pela DarkSide, há uma excelente introdução de Márcia Heloísa, tradutora desta edição e estudiosa de literatura de horror:

Além de trabalhar, estudar, ser datilógrafa, estenógrafa e taquígrafa, ela [Mina] possui memória prodigiosa, raciocínio arguto e está familiarizada com a antropologia criminal. Até mesmo depois de vampirizada, ela encontra um modo de defender sua atuação indispensável, tornando-se sacerdotisa oracular - respeitada e reverenciada como uma deusa ctônica. É uma mulher prendada que cuida da casa e do marido? Sim; afinal, trata-se de um texto vitoriano. Mas na hora do combate, ela conduz cavalos bravos por estradas inclementes na Transilvânia e não hesita em apontar um rifle contra seus inimigos. Por fim, não podemos esquecer que Mina é a responsável pela organização dos relatos dos demais personagens em uma espécie de dossiê. Esse dossiê compõe o próprio romance. Sendo assim, Mina é, ao mesmo tempo, protagonista e editora de Drácula.

Página 22

Mina está dentro do que era esperado para a mulher vitoriana da época e por isso muito de sua representação nos incomoda nos dias atuais. Lucy e Mina chegam a tirar sarro da figura da Nova Mulher, que queria ter o direito ao estudo e trabalho, porém Stoker fez de Mina uma figura que também cabe nos ideais da Nova Mulher. Mina trabalha, é inteligente, não é passiva com as coisas que acontecem ao seu redor, foi a principal responsável pela captura de Drácula e até sua afirmação de querer estar a par dos estudos de Jonathan e de se interessar pelo o que ele faz pode ser visto como uma busca por igualdade com o noivo e futuro marido.

Na verdade, seu noivo Jonathan Harker, é quem ocupa o papel da "dama em perigo" em boa parte da história e Mina além de tomar para si a narração e organização dos eventos, também foi a única a mostrar qualquer humanidade para com Drácula, vendo-o como uma alma humana presa ao corpo de um monstro.

Mas isso torna Mina a figura feminista da história? O livro é recheado com as repressões sexuais existentes na Era Vitoriana e, de várias maneiras, Stoker trata de adultério, incesto, desejos reprimidos e até sexo grupal. O livro é bem claro em como a sociedade e via e ainda vê as mulheres: valoriza aquelas que são castas e submissas e aquelas que são donas de seus desejos são maléficas e precisam ser extirpadas do convívio social. Não só isso, elas são malignas por seu poder de enfeitiçar os homens, coisa que "mulher direita" não faria.

Apesar de todas as qualidades de Mina como uma Nova Mulher, inteligente, que trabalha fora e que conhece as novas tecnologias, além de organizar a narrativa da história e os documentos produzidos pelos companheiros na busca por Drácula, Mina representa uma versão aceitável da Nova Mulher, uma que não ameaça os homens do enredo, uma que eles não precisaram mudar ou matar, pois se encaixa naquilo que eles esperariam dela, ainda que seja a mais inteligente de todos ali. Em um determinado momento, Van Helsing diz que ela tem um "cérebro de homem". Quem nunca foi "elogiada" dessa mesma maneira nos dias de hoje?

Nós não precisaríamos de feministas se o mundo fosse justo e igualitário, certo? Posso entender completamente o medo dos homens vitorianos com essa nova mulher que emergia, exigindo direitos e como isso se refletia na literatura da época. E consigo entender o incômodo de muita gente com a personagem e com as outras mulheres do livro, pois nossa mente atual não aceitaria essa condição. Porém, dentro do que se esperava das mulheres na época, Mina é uma revolucionária. Ela transcende sim o que se esperava de personagens femininas da época, ainda que caiba no padrão vitoriano.

Mina desponta como uma chama de mudança na época, uma mudança apavorante para os homens, algo explícito no romance na figura das outras personagens femininas. Uma mudança onde as mulheres não aceitavam mais a passividade do lar. Queriam estudar, conhecer o mundo, queriam ter a chance de escolher seu destino. Se para nós ela parece uma mulher vitoriana é porque ela era mesmo. Mas em 122 anos de lançamento do romance, muitas coisas continuam iguais desde então. Estaria Mina, tal como Sansa, de Game of Thrones, tão longe assim de nós?

Não pretendia responder a nenhuma pergunta fundamental sobre a personagem. Se Mina pode parecer deslocada para os nossos olhos do século XXI é porque nós evoluímos como sociedade e como mulheres. Mas não tem como tirar os métodos dela no romance, nem tentar encaixá-la à força nos moldes de hoje.

Até mais! 🦇


Leia também:
Dracula: The Brilliance of Mina Harker - Monique Ocampo Writes
"Dracula": Stoker's Response to the New Woman - Carol A. Senf
Ideals of the Victorian Woman as Depicted in ‘Dracula’ - The Artifice
Making Sense of Mina: Stoker 's Vampirization of the Victorian Woman in Dracula - Kathryn Boyd
Feminism, Sex Role Exchanges, and Other Subliminal Fantasies in Bram Stoker's "Dracula" - Stephanie Demetrakopoulos


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6 COMENTÁRIOS

  1. Que texto excelente, Sybylla!
    'Drácula' é um dos meus clássicos favoritos, e, por consequência, a própria Mina. Esse é um texto da série "coisas que eu gostaria de ter escrito". Bom demais! ♥

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  2. Texto excelente! Reli Drácula esses dias e acabei me apaixonando, coisa que não aconteceu antes. Mas me responda uma coisa. O que você achou do papel de Mina no filme? Eu revi o filme também e achei que ela foi meio que "diminuída" a interesse amoroso do conde, apenas. Qual a sua visão disso?

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    1. Nhaaaaa!

      Bem, é o que você falou. Aquela mulher inteligente, destemida, estenógrafa, que organiza as narrativas dos amigos, que se destaca como a Nova Mulher no livro, praticamente some pra ser só o par romântico do monstro. Infelizmente não temos essa mulher sendo mostrada na maioria das adaptações cinematográficas de Drácula.

      Já pensou uma série Mina Harker, caçadora de monstros?? Agindo com um Arquivo X vitoriano?? Olhaí, Netflix!

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    2. A mulher carrega aquele bando de marmanjo nas costas o livro todo, pra chegar no filme e ser a amada imortal dele. Socorro!
      E, sim, imagina uma série na pegada de The Alienist meio misturada com Penny Dreadful FAÇA ACONTECER, NETFLIX!

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  3. Texto perfeito! Já tive conversas com mulheres sobre essa questão... O que fazer quando gosto da obra, mas detesto o autor... Por ser machista ou algo do estilo?
    Eu levantei exatamente o questionamento de entender a época e o contexto em que a obra foi feita, e dei o exemplo do livro Elogio da Louca de Erasmo. Teve páginas que tive que respirar fundo para conseguir passar e continuar lendo, já que ele se mostra um belo exemplo de machista, mas entendia a época em que foi escrito. Seu texto não poderia ser melhor escrito para destrinchar esse tema. Sem falar que agora estou louca para ler Drácula. rs

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