Resenha: O Poder, de Naomi Alderman

Li esse livro e fiquei dias digerindo ele, sem saber exatamente o que tinha gostado e desgostado dele. A ideia me pareceu excelente: inverter a balança de poder e colocar na conta do sexo feminino o poder de oprimir. No fim, a conclusão que cheguei foi que o poder, definitivamente, corrompe. Não importa quem o tenha.



O livro
A história que a gente lê no livro é recontada por um escritor que está submetendo seu livro para uma editora. Então existem floreios e excessos na visão dele e até um comentário ácido da editora de que um mundo dominado por homens seria mais "meigo". O verdadeiro mundo dominado pelas mulheres não é visto, mas esse comentário já indica algumas coisas. Ele então reconta a história de algumas pioneiras, aquelas que fizeram a diferença quando o "poder" surgiu.

Resenha: O Poder, de Naomi Alderman

E o que é o tal do poder? As mulheres desenvolvem uma trama elétrica na região da clavícula, que desce pelo braço e para na mão. Assim elas passam a dar choques nas pessoas, alguns fortes o bastante para matar. No começo, ninguém entende direito o que está acontecendo. Acham que são fake news, pegadinhas de internet, mas os governos começam a se preocupar e tentar organizar campos para treinar as meninas. Começam a surgir veículos segregados, já que os meninos estão com medo delas. Gangues de meninas se formam e passam a humilhar e torturar rapazes aqui e ali.

Nós temos quatro personagens principais que não são exatamente os narradores, nós acompanhamos suas vidas, caindo no meio delas quando elas descobrem o poder. Allie é uma adolescente adotada e abusada pelo padrasto; Roxy é uma jovem inglesa que faz parte de uma família criminosa e que viu a mãe sofrer violência; Tunde é um jornalista nigeriano que se envolve com a ascensão do poder pelo mundo e passa a relatá-lo e; Margot, que é prefeita de uma cidade nos Estados Unidos e que vê o poder surgir nas filhas.

Como a história não é um romance sobre uma única mulher que muda o mundo para melhor, o formato pode incomodar. Houve momentos lentos, em que o livro perde ritmo, mas é interessante demais de acompanhar as inversões nas situações sociais, políticas e culturais agora que as mulheres podem revidar da opressão sofrida. Essa inversão de situações foi muito utilizada por mulheres que queriam evidenciar as desigualdades para com o gênero feminino. O primeiro conto de ficção científica feminista, O Sonho da Sultana, é um exemplo. Outras autoras, como Margaret Cavendish também fizeram isso.

O que Naomi fez aqui foi uma inversão 2.0. Ela mostra sim as desigualdades acontecendo, mas são os homens os estuprados, os mortos, os brutalizados, os amedrontados e perseguidos, destituídos de direitos. Os radicais tentam organizar formas de protestar e obter o poder de volta, mas não têm como lugar contra choques e amputações.

O assunto é: de quantos homens nós realmente precisamos? Pensem bem, (...). Os homens são perigosos. Cometem a maioria dos crimes. São menos inteligentes, menos diligentes, menos esforçados, seus cérebros estão nos músculos e no pênis. Ficam doentes mais vezes e drenam os recursos do país. Claro que precisamos deles para produzir bebês, mas de quantos precisamos para isso? Não precisamos do mesmo número de homens e de mulheres. Evidente que sempre haverá lugar para homens bons, limpos, obedientes. Mas de quantos precisamos? Talvez de dez por cento deles.

De pouco em pouco, vemos o mundo dominado pelos homens ruir. As mulheres arrancam seus véus, tomam seus governos, expulsam homens violentos de casa, vão estudar, trabalhar e viver suas vidas como bem entendem. Mas a barbárie também toma conta quando mulheres vendidas como escravas sexuais descobrem o poder e se libertam, tornando-se tão cruéis quanto os homens que as violentaram. Homens começam a ser violentados, continuamente excitados com choques e depois assassinados. Homens desacompanhados precisam ter cartas assinadas por uma mulher que os autorizem a andar pelo país e até viajar... Parece familiar?

Junto dos textos, o livro vem com imagens de relíquias arqueológicas encontradas em várias partes do mundo, inclusive luvas que potencializavam os choques e que serviam para amputações penianas. Ano a ano o mundo se ajusta a essa nova ordem, homens aprendem a não revidar, os que revidam acabam tendo destinos piores do que imaginavam. Interessante que a autora também mostra casos de meninas que não têm tanta força e até alguns casos de rapazes com alterações cromossômicas que podiam dar choques.

Em vários momentos em que as crueldades contra os homens pareciam terríveis demais, eu lembrava de duas coisas: uma é que o "autor" era um homem enviando uma obra romanceada para uma editora e dois é que é uma realidade para muitas mulheres em zonas de guerra. Li a versão em ebook, mas a edição física vem em capa dura.

Ficção e realidade
A Pam Gonçalves falou algo muito certo e que acabou definindo bem o que achei do livro: ele é uma paródia do patriarcado. Houve vários momentos em que eu me imaginei dona de um poder como esse e de como reagiria com c e r t o s caras se pudesse fazê-los pagar por todas as merdas que me fizeram. Eu sou um ser humano, com qualidades e defeitos e sim, em determinados momentos eu poderia machucar alguém se tivesse o poder. Mas esta é uma paródia de um sistema que existe. Se você, leitor, se sentiu incomodado com a forma como os homens foram tratados no livro, então entendeu por alguns instantes o que é ser tratada assim uma vida toda, temendo por sua integridade.

Naomi Alderman

Naomi Alderman é britânica, tendo estudado na Universidade Oxford, escritora de jogos e de vários romances, tendo recebido vários prêmios. É professora de escrita criativa na Universidade Bath Spa e teve como mentora ninguém menos que Margaret Atwood.

Pontos positivos
Subversão dos estereótipos
Ilustrações
Críticas sociais
Pontos negativos

Guerra
Violência

Título: O Poder
Título original em inglês: The Power
Autora: Naomi Alderman
Tradutor: Rogério Galindo
Editora: Planeta (selo Minotauro)
Páginas: 368
Ano de lançamento: 2018
Onde comprar: Amazon

Avaliação do MS?
Mesmo não tendo gostado de algumas partes e de outras terem sido bem lentas, acredito que o livro vale pela discussão que levanta e pela inversão de papéis que suscita. A discussão apenas nessa inversão vai longe! Aos rapazes que se incomodarem com a forma como são tratados no livro, use isso como um momento de reflexão sobre nossa existência. Quatro aliens para o livro e uma forte recomendação para você ler também.

MUITO BOM!

Até mais! ⚡

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