Os telepatas e os mundanos em Babylon 5

Eu amo Babylon 5. Amo. Conheço a série do avesso, alguns episódios eu consigo lembrar das falas. É uma das melhores séries de ficção científica que a televisão já teve e uma pioneira em vários aspectos em suas época. Diferente de Star Trek, que dominava a televisão na época de seu lançamento, a humanidade continua com os velhos problemas de antes, apesar de várias conquistas que nos levaram ao espaço. Esta é uma humanidade que nos parece muito mais próxima do que aquela que vemos em Star Trek.

Alguns acreditam que ela foi pioneira em trazer séries episódicas, ao invés das seriais para a televisão. Sabe as séries em que você tem que acompanhar todo e qualquer episódio para não perder o enredo, ao invés das séries com o monstro da semana? Babylon 5 já fazia isso nos anos 90 e começou a inspirar várias outras. Foi a primeira a ter um fandom na internet, com o autor conversando com os fãs e foi escrita quase integralmente por ele, J. Michael Straczynski. Ela trouxe para a TV todos os nossos preconceitos, medos e problemas na figura de alienígenas, mas também na figura dos telepatas.

Os telepatas e os mundanos em Babylon 5, arte de VelaKs
Bester e Talia Winters, telepatas da série. Arte de VelaKs no DevianART



A humanidade deu um passo à frente na evolução. Por volta de 2100 começaram a surgir casos de pessoas que podiam ler os pensamentos dos outros, captavam sensações, emoções e intenções. Eles surgem praticamente do nada, mas a série dá uma explicação para eles posteriormente. Para esses telepatas, que são uma minoria entre a população geral, o governo cria uma organização chamada de Psi Corps., que treina e emprega telepatas. Se você for fazer uma transação comercial, por exemplo, pode contratar um telepata licenciado que pode garantir que o negócio seja transparente.

Existem diferentes níveis de aptidão, partindo do P-1 até o P-12, o nível mais alto e perigoso. Leituras não autorizadas são ilegais e telepatas precisam usar um uniforme, usar luvas e seguir um código específico. Raças alienígenas como os Minbari e os Centauri também têm seus telepatas. Os únicos que não possuem mais o gene da telepatia são os Narns e todos esses acontecimentos estão interligados pela mesma explicação.

Acontece que a Psi Corps. é uma organização pra lá de controversa. Um telepata não pode fugir dela. Tanto que o lema é "A corps é mãe, a corps é pai". Telepatas que não queiram estar filiados a ela são perseguidos e presos, alguns usados em pesquisa ilegal, outros usados como armamento. Alguns telepatas em posição de chefia, como Alfred Bester (da imagem lá em cima) inclusive chamam os seres humanos comuns de "mundanos", que se proliferam como coelhos e que telepatas são especiais.

Alguns telepatas se veem presos em um dilema, sendo obrigados a escolher entre uma organização que os oprime e retira sua liberdade em nome de sua suposta segurança e ser vista com desconfiança pelos humanos "normais". É o caso de Lyta Alexander. Ela é uma das personagens mais complexas em Babylon 5 e a forma como foi usada diversas vezes sem nenhuma consideração explica grande parte do ressentimento que ela tem que a leva a se aliar a telepatas em fuga. Lyta ajudou os "mundanos" várias vezes nos conflitos em que a tripulação de B5 se envolveu, foi usada como arma e depois, quando mais precisou, todos a abandonaram.

Chega um momento em que o conflito entre os telepatas renegados e a Psi Corps. explode. A série termina, mas no cânone temos as guerras telepatas, onde cansados de esperar por uma resolução a respeito de sua situação e liberdade, eles decidem tomar a Aliança Terra, que é o governo global da série.

Talia Winters telepata comercial de Babylon 5

O que é mais interessante dos conflitos entre os telepatas é que eles são uma minoria explorada por outros membros desta minoria, a maioria deles telepatas poderosos dentro da própria organização. Os telepatas mais poderosos, como Bester, veem o restante da raça humana como baratas e se sente especial sobre os demais, conspirando e usando as pessoas quando melhor lhe convém. Ele dá mais do que um motivo aos humanos normais para não se confiar em telepatas e explora a desconfiança ao máximo, sabendo que separando-se dos demais ele gera mais medo e paranoia para seu benefício.

Mas aí temos Lyta, temos Byron e todos os telepatas em fuga da Psi Corps. que querem um planeta para si, equipamentos, onde possam viver em paz, viver sem a opressão da corporação. Grupos minoritários não são necessariamente grupos em menor número, isso apenas quer dizer que eles têm menos direitos que outros grupos. No caso da Psi Corps. ela representa uma minoria, mas também a explora, criando uma hierarquia de poder dentro do grupo.

Depois de anos de conflitos pacíficos, chega um momento que os telepatas passam a reagir com armas e ataques terroristas, o que podemos ver como uma crítica direta da forma como os Estados Unidos alimentaram conflitos em várias partes do mundo e depois de abandoná-los à própria sorte, se voltaram ao terrorismo como forma de combater a tirania. É fácil julgá-los como os errados da história, sendo que por anos as táticas pacíficas não deram certo. Violência não deveria ser usada, mas é possível compreender a insatisfação de um grupo que vem sendo moído pelos próprios companheiros e traídos por aqueles que julgavam amigos.

É possível fazer um paralelo da trajetória dos telepatas com grupos minoritários aqui na vida real. O desconhecimento do público em geral leva a muito medo e preconceito, estereótipos, julgamentos. E dentro dos grupos podem existir pessoas com poucos escrúpulos, capazes de usar os outros em benefício próprio. De certa forma, a Psi Corps. é uma crítica em menor escala da nossa sociedade, utilizando-se uma minoria fictícia para falar dos problemas que já conhecemos.

Babylon 5 não está na Netflix, mas a última notícia que eu tive dela é que estaria entrando na programação da Amazon Prime. Se alguém souber, me avisa!

Até mais!

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