Resenha: H.P. Lovecraft: Medo Clássico Vol. 1, da DarkSide

Mesmo que você nunca tenha lido HP Lovecraft na vida, já deve ter sentido sua influência na cultura pop. O autor americano revolucionou o gênero de terror, usando-se de elementos fantásticos típicos dos gêneros da fantasia e da ficção científica. Sua obra apresenta vários óbvios problemas de racismo e xenofobia, porém é inegável a importância do seu imaginário do terror cósmico.



Parceria Momentum Saga e
editora DarkSide


O livro
Este primeiro volume traz 9 contos de Lovecraft que ilustram bem a técnica e o estilo do autor. Conhecido mais por seu pavoroso monstro Cthulhu, seus contos abordam o desconhecido por diferentes frentes e enredos, indo de explorações geológicas, seres demoníacos e o livro dos mortos.

Resenha: H.P. Lovecraft: Medo Clássico, da DarkSide

A introdução é uma das partes mais importantes do livro, pois apresenta a figura e a carreira de Lovecraft. Muitas vezes achamos que um autor clássico foi uma figura proeminente em sua época, mas na verdade muitos deles morreram no esquecimento e empobrecidos. Howard Philips experimentou um modesto sucesso na época em que viveu, tendo trabalhos publicados em revistas pulp cujo teor sensacionalista trazia muitos autores de talento. Os rendimentos de suas publicações não eram o suficiente para sua sobrevivência e ele viveu sendo ghost writer, revisor e datilógrafo para muitos autores iniciantes.

Nesta edição, a DarkSide trouxe algumas das obras mais importantes do autor:

  • Dagon
  • A Cidade Sem Nome
  • Herbert West: Reanimator
  • O Depoimento de Randolph Carter
  • O Cão de Caça
  • O Chamado de Cthulhu
  • Nas Montanhas da Loucura
  • A Sombra Vinda do Tempo
  • A História Do Necronomicon

De longe, e por razões óbvias, o meu conto preferido é Nas Montanhas da Loucura, já que explora a geologia e a paleontologia tal como eram conhecidas na época. Tido como um dos melhores trabalhos do autor, muita gente se perde pelo excesso de termos, mas para mim isso é uma delícia de acompanhar. Inclusive é possível acompanhar a evolução do conhecimento paleontológico se compararmos algumas expressões que o autor usa com a ciência moderna. Aliás, uma das maiores raivas que já passei foi ler um sujeito dizer que o livro é cheio de "pseudociência". FILHO, pelamor!

Curti muito as referências de ficção científica e fantasia nos contos, como em A Sombra Vinda do Tempo, mas nem todos os contos fluem bem. Alguns deles parecem multiplicar as palavras e parece que nunca vão terminar. Alguns são menos extensos, como O Depoimento de Randolph Carter e outros têm mais de mais de 20 páginas. Tente não ler tudo de uma vez, para não cansar.

É também possível observar seus preconceitos expressos em seus trabalhos. Muitos podem dizer que são os narradores se expressando, mas é inequívoco que o autor tinha aquelas opiniões. E se tem uma coisa que o ser humano mais teme é o desconhecido. Ele pode vir na forma de imigrantes, de alienígenas ou monstros cósmicos e tudo isso refletia a época que Lovecraft vivia, num momento de intensas mudanças políticas e sociais do início do século XX.

Para um branco tradicionalista com vãs pretensões aristocráticas como Lovecraft, esse era um cenário de pesadelos. Não é à toa que seus personagens perdem a razão quando se deparam com o desconhecido e o estranho.

Página 16

Esse livro vem em duas edições: a Miskatonic e a Cosmic, que é a da imagem acima e a que eu recebi. Enquanto a Miskatonic é mais sombria, como um livro proibido, a Cosmic tem um que de alucinação cósmica típica das obras de Lovecraft. E tem um bônus: deixe a lombada e a capa pegarem luz um instante e depois fique no escuro! No final há extras com reproduções de anotações do próprio Lovecraft e algumas cópias datilografadas. A arte interna é impecável, demoníaca e insuperável, como outros livros da DarkSide, com ilustrações de Walter Pax e Robert Bloch separando as obras.

Há também um app de realidade aumentada para que você descubra mais detalhes do livro. Se seu celular é Android, pode baixar aqui. Depois siga as instruções da tela para descobrir o conteúdo exclusivo para os livros de Lovecraft e Edgar Allan Poe.

Ficção e realidade
Uma coisa que distingue as obras de Lovecraft são seus personagens pouco convencionais, além da indiferença que tinha com relação às crenças e normas das atividades humanas. Seus monstros pavorosos, seres fantásticos esquecidos no tempo, civilizações desconhecidas, corpos reanimados, criaram o chamado "cosmicismo" característico do autor. Mas é inegável que o autor tinha problemas com o diferente, com o desconhecido, quando estes vinham da própria raça humana. Seu conto O Horror em Red Hook, que não está neste volume, é uma das obras cujo racismo e xenofobia estão mais que escancarados para quem quiser ler.

H.P. Lovecraft

A questão é: você consegue separar autor de obra? Não são poucos os casos de autores cujas obras são excelentes, visionárias e que marcaram época, mas o autor é ou foi um tremendo de um otário. O que a gente enquanto leitores não deve fazer é fechar os olhos para os problemas evidentes e consumir de forma crítica.

Pontos positivos
Ilustrações e arte
Terror cósmico
Extras
Pontos negativos

Alguns contos lentos
Xenofobia e racismo

Título: H.P. Lovecraft: Medo Clássico Volume 1
Autor: H.P. Lovecraft
Ilustrações: Walter Pax e Robert Bloch
Tradutor: Ramon Mapa
Editora: DarkSide
Páginas: 416
Ano de lançamento: 2018
Onde comprar: Amazon, edição Miskatonic e edição Cosmic

Avaliação do MS?
Esse é um daqueles livros que, além de ser um tributo à obra de um autor, é uma obra de arte. Uma edição com o esmero e cuidado da DarkSide. Tenha em mente os preconceitos vívidos de Lovecraft, mas embarque na leitura. Até ler este volume, o único trabalho de Lovecraft que eu tinha lido foi A Cor Que Caiu do Espaço, o que me rendeu um episódio muito engraçado no médico. Quatro aliens para o livro e uma forte recomendação para você ler também.

MUITO BOM!

Até mais! 🐙

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