Crônicas de Amor e Ódio e representatividade feminina

Eu não sou uma ávida leitora de fantasia. Aliás, dificilmente saio da minha zona de conforto da ficção científica. Para um livro desse gênero me fisgar, ele precisa se esforçar, precisa sair do lugar comum. Tem que ter personagens femininas importantes, atuantes no enredo, que não sejam meramente decorativas, que sejam donas de si. O excesso de magia, seres fantásticos demais e a balada do cavaleiro, tudo isso me incomoda muito na maioria dos livros do estilo. Por isso que eu curto tanto As Crônicas de Amor e Ódio e a convite da DarkSide, resolvi falar da representatividade feminina na série.





Se você não conhece os livros, eu fiz as resenhas de toda a trilogia e de um prequel que saiu lá fora apenas no formato eletrônico, ganhando no Brasil uma linda edição em capa dura. Uma nova aventura está chegando, dentro do mesmo universo e mal posso esperar para ler.

Este é o mundo da princesa Lia, uma Primeira Filha da Casa de Morrigan, que é obrigada a se casar com um desconhecido devido à uma tradição de longa data e sem sentido. Lia quer ser a dona de sua vida, quer poder tomar suas próprias decisões e se casar com um completo estranho, um príncipe de um reino vizinho, dada como uma oferenda em busca de um acordo comercial, é algo que Lia abomina. O fato de Lia não ser subserviente, de querer mais para si ao invés de acatar ordens sem pestanejar é algo que já me atraiu logo de cara para o enredo.

Não só ela é determinada, obstinada, como ela tem a ajuda de sua dama de companhia e amiga de longa data, Pauline. Já vimos em muitos enredos como as poucas personagens femininas acabam competindo entre si, são vazias, ocas de experiência e identidade. Aqui não. Lia e Pauline se unem, se abraçam, se apoiam. E as mulheres que lemos e conhecemos ao longo da trilogia são bem construídas, ativas no enredo. Quando é necessário lutar, elas não perderão tempo em se armar e partir para a briga.

Você deu ouvidos à verdade que estava falando dentro de você. Pode não parecer que é assim agora, mas você é mais forte hoje do que era ontem. Amanhã, será mais forte ainda.

The Beauty of Darkness - Página 176

Se olharmos bem, todas nós fomos educadas para sermos como Lia: subservientes, recatadas, que sejamos capazes de atender apenas às demandas dos outros, ter pouca ou nenhuma ambição, de evitar qualquer protagonismo, de sermos coadjuvantes. Nosso valor vive atrelado ao parceiro masculino. Lia não se conforma com os mandos e desmandos em sua vida. Assim, no dia de seu casamento, com a ajuda de Pauline, Lia foge.

Em um primeiro momento, temi que o famigerado triângulo amoroso surgisse para testar os sentimentos da heroína. Novamente, a autora toma outra direção. Lia tem certeza de quais são seus sentimentos desde o início. E isso fica óbvio para o segundo rapaz que surge em sua vida. A trilogia trata de uma jornada de Lia para conhecer a si mesma e para definir seu destino, não para encontrar um amor para a vida toda. Foi refrescante demais ler os livros por essa sensação de poder contar com as personagens, poder se identificar com elas, poder andar ao seu lado.

Arte do tumblr Remnant Chronicles

A força feminina está presente desde a fundação dos reinos que compõem o universo de Lia até a amizade que une as mulheres do enredo. E é uma trilogia violenta. Lia evolui nos três livros de maneira meteórica, deixando para trás a imagem da princesa fugitiva para se tornar líder e soldado. Seu corpo é marcado pelas batalhas, a política nem sempre condiz com seus sentimentos, o dever nem sempre coincide com seus desejos. Ler mulheres que são mostradas como pessoas, com seus defeitos e virtudes, é o que mais encanta na literatura e na trilogia.

Para não dizer que não há uma certa magia no livro, ela existe mas de maneira crível, que cabe na narrativa e - sim! - feminina. Sendo a força feminina combatida e demonizada a menos que caiba nos parâmetros da sociedade, a autora me ganhou ao mostrar esse dom como algo que não é uma maldição e sim uma característica da protagonista que precisa aprender a lidar com isso.

Amizade, companheirismo, força, resistência, palavras que descrevem a jornada de Lia e a de todas as outras mulheres dos livros. Palavras que descrevem a nossa jornada, pois juntas sempre somos mais fortes.

Paviamma! ❤️

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1 Comentário

  1. A série está na minha lista faz tempo mas ainda n dei uma chance a ela!
    Pretendo fazer isso o mais breve possível

    Bjoooos
    muitospedacinhosdemim.blogspot.com.br

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