Onde estão as utopias feministas?

No prefácio de Woman on the edge of time, um dos mais importantes livros de ficção científica feminista, a autora Marge Piercy disse algo que me deixou pensativa por vários dias: onde estão as utopias feministas? Onde estão as visões de um mundo igualitário, sem discriminação? Seu livro multipremiado foi escrito há mais de 40 anos, continua relevante, mas faz parte de um momento da literatura feminista que parece ter sumido das prateleiras, as utopias.

utopias feministas



Leia também: O problema das utopias

Se olharmos para livros, filmes e produções de TV que estão em voga hoje, veremos que a maioria trata de mundos distópicos, opressivos, ditaduras, ou a boa e velha distopia. Do sucesso de O Conto da Aia na TV às distopias adolescentes com jovens moças salvando o mundo, parece que as produções estão pessimistas, testando a resistência do público ao extrapolar os limites da realidade e colocá-los em enredos fictícios para nos fazer refletir. Distopias são ótimas nisso, mas se podemos fazer o oposto, por que não fazemos?

Isso é o que é uma utopia feminista para mim: um mundo onde os seus genitais, configuração hormonal ou identidade de gênero não importam. Onde emoções não pertencem a certos gêneros: todo mundo pode ser vulnerável e forte, agressiva ou carinhosa, inclusiva, confiante, compassiva e dominante.

Naomi Alderman

Muitas mulheres se dispuseram a escrever utopias feministas, inclusive na ficção científica. Algumas das primeiras utopias, como The Blazing World (1666), de Margaret Cavendish, fala de um mundo utópico e surreal, que poderia ser alcançado pelo Polo Norte, onde uma mulher consegue entrar e se tornar sua imperatriz, para depois se voltar contra seu mundo e invadi-lo. Mesmo com todas as fantasias, The Blazing World reflete ideias científicas que estavam em voga na época, em um momento em que o conhecimento passava a ser valorizado e buscado.

Em Millenium Hall (1762), de Sarah Scott, fala-se de uma comunidade composta por mulheres, todas devotadas às artes e à educação, filantropia e valores cristãos. Sarah fez grandes críticas à corte real britânica em seu enredo, assim como à impossibilidade de mulheres poderem ter acesso à educação e à literatura como quisessem. Ela comum que as escritoras precisassem publicar como anônimas para evitar o preconceito. Frankenstein, por exemplo, só foi ter o nome de Mary Shelley na capa da terceira edição.

O que é muito característicos destas utopias é que as mulheres imaginavam mundos fantásticos com ou sem a presença de homens. Em outros trabalhos, como O Sonho da Sultana, da Roquia Sakhawat Hussain, os papéis de gênero foram totalmente invertidos para mostrar a desigualdade. Utopias escritas por homens, muitas vezes, eram versões romantizadas dos governos existentes, onde mulheres eram apenas satélites girando ao redor dos homens. Não é à toa que tantas mulheres tentaram inverter o jogo para mostrar que a sociedade não estava sendo justa com elas.

Nos anos 60, houve uma redescoberta da utopia feminista. Autoras como Joanna Russ, Marge Pierce, Octavia Butler e Ursula K. Le Guin começaram a extrapolar o presente e as convenções científica e sociais para falar de violência, estupro, desigualdades, racismo, opressão e sociedade patriarcal. O momento histórico era um efervescente caldeirão político, de busca pelo otimismo e por uma sociedade que deixasse para trás os horrores de duas grandes guerras mundiais e genocídios. Nada mais lógico do que ver esse momento refletido nos enredos. Livros como Golden Witchbreed, de Mary Gentle, falam de um mundo onde a pessoa só escolheria seu gênero quando chegasse à maturidade.

Escrever sobre o futuro não é predizê-lo. Não quero ser uma Nostradamus. O objetivo de escrever sobre o futuro é de influenciar o presente ao extrapolar tendências atuais de avanços ou prejuízos.

(...)

Utopias feministas foram criadas pela necessidade de termos o que não tínhamos em uma época em que a mudança não parecia possível, mas provável. Utopias surgiram do desejo de imaginar uma sociedade melhor quando ousávamos fazer isso.

Marge Pierce

Se imaginamos utopias com um sentimento de urgência por um mundo melhor, as distopias parecem jogar sobre nós o fardo do negativismo, de sermos incapazes de pensar em um lugar onde possamos ser quem somos, não apenas mulheres pela definição social. Por que paramos de pensar neste mundo melhor? O que fizemos de errado?

A questão pode até nos envolver, envolver nossos medos e angústias e todas as violências cotidianas, grandes e pequenas, a misoginia online e os haters, mas envolve mais do que uma simples questão de escrita criativa. Quando a sociedade parece avançar um passos, quatro são dados para trás. Nem vou mencionar o Brasil nesse sentido, pois direitos reprodutivos por aqui são tabu, mas nos Estados Unidos, o país conseguiu tornar o aborto acessível e seguro para as mulheres, mas elegeu um presidente "agarrador de bocetas", misógino e totalmente despreparado para a Casa Branca.

A única reflexão que pude fazer da fala de Marge Pierce é que sim, as utopias feministas existem, mas apenas na nossa cabeça e na luta diária de tantas mulheres que marcham, escrevem, militam, vão ao congresso, senado, câmara municipal, assembleia legislativa, porque o mundo imaginado nos anos 60 se inverteu. A esperança de tornar o mundo melhor com a chegada do século XXI caiu por terra com o mundo polarizado e dividido como temos hoje. A utopia permanece no campo dos sonhos e da esperança, esses ainda intocáveis, já que estão dentro de nossas mentes.

Tanto a completa utopia quanto a completa distopia são impossíveis, pois elas se baseiam em perfeição total ou imperfeição total. E isso não existe. Existe no mundo ficcional para torná-los visíveis. A questão é que para as utopias feministas, a estrada à frente está carecendo de novos trabalhos e autoras e autores que ousem imaginar um mundo melhor, um futuro possível, um momento novo e revigorante. Quem embarcar nessa pode contribuir para um mundo mais próximo de uma utopia.

Até mais!

Leia também:
A Description of A New World, Called the Blazing-World, Margaret Cavendish - Christine Corbett Moran
Utopian thinking: how to build a truly feminist society - The Guardian
Imagine There's No Gender: The Long History of Feminist Utopian Literature - The Atlantic
3 Novels About Feminist Utopias, Because The World Is Dystopian Enough Right Now - Bustle

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