A importância de Katniss Everdeen

Podemos tecer muitas críticas a Jogos Vorazes, mas se há uma coisa que sempre gostei na trilogia é sua heroína, Katniss. Muito do que ouvimos de negativo sobre a trilogia vem de gente que nunca leu os livros ou deu pouca importância para os filmes. A trilogia inteira é centrada numa garota que, para não perder a irmã e não deixar a família morrer de fome, se voluntaria para um entretenimento brutal de alcance nacional que serve apenas para manter no cabresto uma população oprimida e faminta.




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Só o fato de termos uma personagem adolescente, que não entra nos jogos por causa de um interesse romântico, já foi um salto imenso diante de outras distopias juvenis e livros de "jovens adultos" (young adults ou YA) que vimos por aí. Ainda tem gente que pensa que três livros e quatro filmes são sobre "Quem vai ficar com Katniss?", porém os livros tratam de muita coisa. MUITA.

Para começar fala de um país saturado, estrangulado pela perda de recursos naturais e que precisa extrair tudo o que tem para manter a Capital na opulência. Sabendo que uma população mal nutrida e mal tratada pode, facilmente, se erguer em insurreição - como já aconteceu - o governo instituiu os Jogos Vorazes. E é uma maneira muito cruel de controle social, já que 23 adolescentes são mortos numa arena futurista para o deleite da elite. Não apenas isso, se você colocar seu nome mais de uma vez no sorteio anual dos tributos, você ganha mais comida, óleo para aquecimento e outros suprimentos essenciais. Este é o mundo de Katniss.

Katniss não é seduzida pela opulência da capital e seus falsos sorrisos, seus implantes e roupas espalhafatosas. Ela sente falta da mata ao redor de sua casa, do ar puro das montanhas. Mas além disso, Katniss sente falta de ser ela mesma. No começo dos jogos, enquanto conversa com Cinna, há uma das mais importantes falas da trilogia: não sei como fazer as pessoas gostarem de mim. E Haymitch bate nessa tecla o tempo todo, de que ela precisa conquistar o público, o que já é meio caminho andando para conquistar o título de vencedora dos jogos.

Por não se sentir particularmente simpática, carinhosa, positiva, extrovertida ou feminina - que é a primeira coisa que a equipe de estilistas e maquiadores mudam na hora de apresentá-la - Katniss teme começar em desvantagem quando comparada aos outros jogadores. E este é um temor de muitas mulheres, uma pressão socialmente aceita de que temos que ser sempre amáveis, nunca ser ambiciosa demais, séria demais, pouco feminina ou feminina demais (ou seremos fúteis). Mulheres não podem se comportar da maneira que Katniss sempre se comportou longe das câmeras: pouco simpática, pouco interessada em relacionamentos românticos, fria e até cínica. Não, não pode. Se você é mulher precisa ser doce e receptiva, especialmente com os homens. #SQN

Cirurgias plásticas, tratamentos estéticos e dietas impossíveis viraram moda entre as meninas com idades próximas às de Katniss. Até vaginoplastia algumas estão fazendo para se fazerem caber um molde irreal, irresponsável e danoso. Katniss precisou fingir ser alguém completamente diferente pelo medo de morrer na arena, mas o medo das garotas da vida real é tão vívido e mortificante quanto. Na adolescência, nosso cérebro muitas vezes exagera nossos sentimentos e reações enquanto ele mesmo amadurece, assim como nossa personalidade. E nada dói mais nessa idade do que não se encaixar nos grupos.

O enredo de Jogos Vorazes cativa muitos jovens justamente por discutir seus dilemas: serei boa o bastante? As pessoas gostarão de mim? Serei capaz o suficiente ou vou falhar no primeiro teste? Cinna cria um truque de luz no vestido de Katniss em sua primeira aparição na TV, mas vemos que a preocupação de Katniss acabou quando as pessoas riram de suas piadas bobas. Ela tinha apenas que ser ela mesma, com pensamentos e emoções genuínos. Em uma Capital fabricada com base na mentira e no fingimento, Katniss se sobressai por trazer a verdade nua e crua, inclusive sobre quem ela era.


É preciso levar essa mensagem para além da arena, para além da Capital, saindo da ficção e entrando nos espaços sociais que ocupamos: seja você mesma, seja o que você quiser ser e não o que os outros esperam que você seja ou forcem a ser. Se forçarem, lute para ser o que quiser. Só aqueles que de fato te amam poderão aceitá-la com seus defeitos e virtudes.

Happy Hunger Games! And may the odds be ever in your favor!

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