Resenha: A Invasão de Tearling, de Erika Johansen

quarta-feira, janeiro 31, 2018

A história da rainha Kelsea me fisgou completamente quando li A Rainha de Tearling. Mal podia esperar para ler o segundo livro e acabei adquirindo o ebook mesmo para ler o mais rápido possível. Aqui temos revelações importantes sobre a travessia que levou o povo de Tearling até esse lugar e como o passado conturbado acabou levando as pessoas a buscar uma nova terra.



Se quiser ler a resenha de A Rainha de Tearling, clique aqui!

O livro
Começamos o livro quase que imediatamente depois do fim do primeiro, onde ela quebrou o acordo com o reino inimigo. Kelsea está atrás dos traidores do trono enquanto prepara o reino para a invasão de Mortmesne. A rainha Kelsea é jovem, determinada e sabe de todos os problemas que o Tearling possui. Ainda assim, está determinada a perder o mínimo possível em vidas e recursos quando o exército inimigo vier. Assim manda evacuar as vilas próximas à fronteira e envia seu exército para assegurar as estradas até Nova Londres.


A Kelsea do primeiro livro começa a mudar radicalmente aqui. Seu corpo, suas feições, tudo parece estar mudando. O que estaria causando tais comportamentos estranhos da rainha, como quando ela fica em estado catatônico, perambulando pela ala da rainha, acompanhada de sua fiel guarda? Nestes instantes de catatonia, Kelsea se vê em um tempo estranho, do passado, antes da travessia, acompanhando a vida de uma mulher chamada Lily, que sofre nas mãos de um marido possessivo. Neste mundo de Lily, vemos uma sociedade em decadência, pobre, assolado por ataques e opressão, onde as mulheres possuem poucas liberdades. Aliás, ler essas partes foi bem complicado, pois não dá para deixar de fazer um paralelo com a situação atual, em que o conservadorismo continua aumentando.

Erika criou personagens absolutamente reais e bem descritos. Kelsea, por exemplo, toma decisões ora equivocadas, ora acertadas. Ela está fora do padrão de beleza, luta para ser aceita pelo povo e por sua corte e ainda precisa se preocupar com os inimigos do trono, como a igreja de Deus. Ela sabe que não tem condições de salvar o reino sozinha. O Tearling vinha em decadência já há muitos anos, enquanto Mortmesne prosperou. Como resistir a um reino que possui uma verdadeira máquina de guerra?

Li algumas críticas à personagem, de que ela não conseguia defender os princípios feministas que detinha e que isso a tornava uma personagem mal construída. Kelsea é uma personagem ficcional e tal como nós, ela também erra. Ela defende sim seu ponto de vista e seus pensamentos várias vezes durante a trama, como quando recusa se casar e ser uma concubina para se salvar da guerra. Não entendo como podemos cobrar posicionamento feminista de personagens que estão lá justamente para ser falhos e humanos. Não existe feminista perfeita, não existe mulher perfeita, tampouco personagem perfeita. É irreal cobrar isso de um livro.

Nesta edição não encontrei tantos erros de tradução como no primeiro livro. Alguns erros de digitação apenas, nada gritante. Gosto muito dos personagens secundários, como Clava e o pobrezinho do Padre Tyler, que apresentam uma força que até mesmo eles não conheciam. Em alguns momentos a narrativa pode dar uma desacelerada, mas acredito que elas eram necessárias para podermos acompanhar a visão de outros personagens. Kelsea se projeta como a rainha que ela precisa ser, não a que ela quer ser e isso trará consequências para o bombástico final.

— Eu não mudei, Lazarus. Só amadureci, só isso. Ainda sou eu.

— Não, Lady. — Clava suspirou, e o suspiro pareceu atravessar Kelsea, um bafo de desgraça em asas frias. — Conte para si mesma as histórias agradáveis que quiser, mas você não é mais a garota que buscamos no chalé. Você se tornou outra pessoa.

Ficção e realidade
Uma coisa interessante é ver o mundo anterior à travessia. E tal como outras autoras imaginaram momentos históricos semelhantes, o mundo fica mais cruel para as mulheres conforme ele muda para pior. Os grupos minoritários em direitos sempre são os mais afetados quando uma mudança no poder acaba favorecendo demais apenas um grupo. Isso é bem visível em O Conto da Aia e em como as mulheres foram divididas para não poderem se unir.

Erika Johansen

Neste mundo de antes da travessia, os Estados Unidos estão afundando em uma grave crise. Vê-se que a elite vive cercada de muros, mulheres são proibidas de prevenir gravidez, todos possuem chips implantados no corpo, mulheres devem ficar em casa e ter filhos. E Lily não quer nada disso. Ela percebe, ainda que tarde demais, que seu marido é um grande merda, mas também sabe que não tem como escapar de sua influência. Como seu arco aqui permanece em aberto, mal vejo a hora de ler O Destino de Tearling para saber o que acontece.

Pontos positivos
Kelsea e Lily
História de Tearling
Luta pelo trono e poder
Pontos negativos

Pode ser lento em algumas partes

Título: A Invasão de Tearling
Título original: The Invasion of the Tearling
1. A Rainha de Tearling
2. A Invasão de Tearling
3. O Destino de Tearling
Autora: Erika Johansen
Tradutor: Cássio de Arantes Leite
Editora: Suma
Páginas: 400
Ano de lançamento: 2017
Onde comprar: Amazon

Avaliação do MS?
Rainha Kelsea é uma personagem incrível. Adoro sua construção, a forma como ela cresce de um livro para o outro e como ela pode parecer totalmente humana. Poucas personagens conseguem se destacar dessa forma e poucos são os autores que conseguem escrever ficção científica e fantasia sem perder em um estilo ou outro. Quatro aliens para A Rainha de Tearling e uma forte recomendação para você ler também.


Até mais!

Já que você chegou aqui...

Sybylla

Fã do futuro e da ficção científica. Geógrafa, professora, blogueira, escritora de FC. Capitã da Frota Estelar. Esperando para voltar para o meu planeta. Leia mais.





Leia esses também...

1 Comentário

  1. Gostei de como apontasse que personagens não precisam ser perfeitos. Hoje em dia, a tendência é justamente esta em literatura, filmes... mostrar que as pessoas não são perfeitas, que mocinhos não são bons o tempo todo, vilões não são maus o tempo todo..que não existe só o preto e o branco, mas também o cinza(e todas as cores!).
    A história parece realmente interessante,ainda mais misturando fantasia com ficção científica.
    Abraços e boa quarta!

    ResponderExcluir

ANTES DE COMENTAR:

Comentários anônimos, em caixa alta, incompreensíveis ou com ofensas serão excluídos.
O mesmo vale para comentários:
- ofensivos e com ameaças;
- preconceituosos;
- misóginos;
- homo/lesbo/bi/transfóbicos;
- com palavrões e palavras de baixo calão;
- reaças.
A área de comentários não é a casa da mãe Joana, então tenha respeito, especialmente se for discordar do coleguinha. A autora não se responsabiliza por opiniões emitidas nos comentários. Essas opiniões não refletem necessariamente as da autoria do blog.

Curta no Facebook

Viajantes