Resenha: A Rainha de Tearling, de Erika Johansen

sexta-feira, junho 30, 2017

Admito: quando este livro chegou, ele me passou a impressão que seria um romance "água com açúcar". Acabei deixando na pilha de livros para ler, até que recentemente eu pensei que seria um bom momento para isso. E me surpreendi com a história, com a protagonista e com a forma como a autora conduziu a narrativa, repleta de intrigas e mistérios. Pegue suas safiras e vamos falar de A Rainha de Tearling!



Este livro foi uma cortesia da Suma de Letras


O livro
Kelsea Glynn mora na floresta, em uma cabana simples, com Barty e Carlin. Ela não sabe quem é seu pai, apenas sabe que sua mãe foi a grande rainha de Tearling, Elyssa, um reino pobre e à mercê de um reino vizinho, Mortmesne. A fiel Guarda da Rainha chega à cabana, exigindo ver as provas que a filha de Elyssa carrega: a safira em seu pescoço e a grande cicatriz no antebraço. Ainda assim, alguns guardas parecem inquietos com a garota. Não se assuste com os nomes dos reinos, pois o livro tem um mapa!


Kelsea não é conhecida por sua beleza deslumbrante, ela até se acha muito comum, gordinha, pele morena e cabelos escuros. Foi bem educada para ser uma rainha, apesar de nada conhecer do mundo além da floresta. Quando ela parte com a guarda real, que deve escoltá-la até a Fortaleza, em Nova Londres, para ser coroada, uma corrida contra o tempo começa. Sua cabeça está a prêmio. E ela sabe que seu tio, o Regente, quer se manter no poder.

Kelsea ruborizou. Segundo Carlin, a rainha Elyssa tinha a beleza clássica de Tearling: alta, loura e graciosa. Kelsea também era alta, mas de pele morena e com um rosto que era, na melhor das hipóteses, comum. Também estava longe de ter um físico escultural; fazia muito exercício, mas possuía um grande apetite.

Página 13

De início, eu pensei que ela fosse aquela donzela em perigo que se desesperaria assim que os problemas aparecessem. Kelsea tem só 19 anos, pouco sabe do mundo, mas aí tomei na cara pelo preconceito inicial. Kelsea enfrenta uma longa e perigosa jornada com muita determinação, sabendo que o trono é seu e ninguém tem o direito de contestá-lo, já que assassinos profissionais foram contratados pelo regente e pela misteriosa Rainha Vermelha, de Mortmesne para impedir sua coroação.

Aí, você pensa "ah, bem, quando ela chegar à Fortaleza, tudo se resolverá". Então, não. No caminho para a Fortaleza, Kelsea quase morre nas mãos dos Caden, assassinos de aluguel, sendo resgatada por um ladrão conhecido por aquelas bandas, chamado Fetch. Infelizmente, as diversas perguntas de Kelsea sobre sua mãe, seu reinado, nunca são respondidas. Seu guarda mais legal, o Clava, fez um juramento e jamais o trairia. É com essas questões que ela chega à Fortaleza e testemunha algo brutal: devido ao acordo com Mortmesne, Tearling deve enviar escravos para o reino vizinho. Mulheres, crianças, homens, tudo feito através de um "sorteio", para passar a impressão que seria um sistema justo. Sistema justo com escravidão?

A politicagem palaciana é algo para o qual Kelsea não tem tempo, mas seu tio, o Regente, não vai largar o osso tão facilmente. Tearling é um reino pobre e Kelsea sabe. O tesouro foi dilapidado, as crianças não estudam, os livros são raros e a tecnologia trazida na Travessia para o novo mundo raramente faz alguma diferença. Outro ponto legal dessa história: ela se passa em um futuro onde a raça humana voltou para algo parecido com a Idade Média. Não sabemos o que fez as pessoas atravessarem o mar para este território, sabemos apenas que o sonho utópico de William Tear se desfez.

Todas as intrigas que você esperaria em um livro com esse tema estão lá, mas a autora inovou ao colocar ficção científica e fantasia, saindo dos clichês de obras com princesas e reinos pobres. Kelsea é uma grande protagonista, alguém com quem você pode caminhar ao lado tranquilamente. É aí que eu faço uma crítica à capa, que me enganou e enganou outras pessoas que também estão com o livro em mãos. Recebi comentários pelo Twitter de gente que acha o mesmo que eu achava no começo, que fosse água com açúcar e no fim é um livro violento, com muita luta pelo poder, uma inimiga forte e misteriosa e uma jovem que nasceu para ser rainha. Erika me conquistou pela forma como conduziu a narrativa, mas a edição brasileira certamente merecia uma capa melhor.

Capas da trilogia em inglês

Segunda crítica que faço é com relação à tradução. Stupid é uma palavra em inglês que se usa geralmente para burrice, idiotice, pois em português estúpido é usado como sinônimo de grosso, rude, bruto. Pois na tradução stupid saiu significando tudo - burrice, idiotice, brutalidade, grosseria - e chegou a mudar o sentido das frases. Pode parecer um detalhe sem importância, mas quando muda o sentido da frase, pode confundir o leitor e isso não é bacana. Ninguém tem obrigação de saber inglês para entender o significado da palavra na frase e me desanimou ver que com duas revisoras, o problema passou batido.

E a terceira e última crítica é para a adaptação do livro para o cinema que vai contar com a atriz Emma Watson. Kelsea tem "pele morena", como descrito no livro. Por que raios escolheram Emma Watson, branca e loira? Pois é, mais um whitewashing em Hollywood.

Ficção e realidade
A autora trabalha preconceito, homofobia, aborto, escravidão, machismo, e o fez de uma maneira primorosa ao inserir tudo isso no contexto histórico de Tearling. Como sou apressadinha, já garanti as edições em inglês para ler o mais rápido possível, pois o final, ah, o final me arrebatou. Essa é uma rainha que salva todo mundo e não só a si mesma.

Outra coisa bem legal, foi colocar a história em um contexto contemporâneo, porém nem tão moderno assim. Você jura que está lendo um romance de idade média, mas quando ela menciona ebooks, cirurgias plásticas e canhões a pólvora, começa a perceber que algo aconteceu para levar o mundo ao atraso. Isso me deixou muito curiosa.

Pontos positivos
Kelsea
História de Tearling
Luta pelo trono e poder
Pontos negativos
Capa
Revisão
Pode ser lento em algumas partes

Título: A Rainha de Tearling
Título original: The Queen of the Tearling
1. A Rainha de Tearling
2. The Invasion of the Tearling
3. The Fate of the Tearling
Autora: Erika Johansen
Tradutor: Cássio de Arantes Leite
Editora: Suma de Letras
Páginas: 352
Ano de lançamento: 2017
Onde comprar: Amazon

Avaliação do MS?
Rainha Kelsea certamente me ganhou. Mal vejo a hora de poder acompanhar seu reinado no segundo livro. Algumas análises do livro colocaram Kelsea e Katniss no mesmo nível, talvez seja por isso que eu tenha gostado tanto dela e lamento ter demorado tanto tempo para ler. Fãs de distopias, ficção especulativa, reinos em guerra e personagens fortes, você achou seu livro. Quatro aliens para A Rainha de Tearling e uma forte recomendação para você ler também.


Até mais!

Já que você chegou aqui...

Sybylla

Fã do futuro e da ficção científica. Geógrafa, professora, blogueira, escritora de FC. Capitã da Frota Estelar. Esperando para voltar para o meu planeta. Leia mais.





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2 comentários

  1. A capa engana, mas pelo review me deu bastante vontade de lê-lo.

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    Respostas
    1. Terminei de ler o livro após ter lido o review da Capitã.
      O livro é bem interessante ao mostrar uma personagem que evolui ao longo da trama. Apesar de sua costumeiras comparações com a Katniss, as considero personagens bem diferentes e talvez com alguns características semelhantes.
      Os últimos capítulos foram arrastados e poderiam ter sido condensados, além da capa ser inferior a trama.
      Tenho uma leve irritação por livros que começam a serem feitos pensando em formar um saga, muito por contar com pontas soltas propositais. Nesse por mais que elas existam me dei por satisfeito e não considero ler sua continuação.

      Excluir

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