Resenha: Ecos, de Pam Muñoz Ryan

quarta-feira, dezembro 06, 2017

Este é, provavelmente, um dos livros mais lindos já lançados pela DarkSide. Não é só o trabalho gráfico fantástico, mas o enredo criado por Pam é uma fábula moderna que trata de preconceito, racismo, esperança e magia. Todas as histórias narradas aqui estão ligadas por um instrumento musical que carrega uma história secreta.



Parceria Momentum Saga e
editora DarkSide


O livro
Começamos o livro acompanhando uma fábula. Um garoto brincava de esconde-esconde, décadas antes da maioria de todas as guerras, e começou a ler enquanto ninguém o encontrava na brincadeira. A fábula conta sobre um rei ansioso para ter um filho. Só assim ele poderia assegurar sua linhagem no trono. Mas sua esposa teve uma filha. Assim o rei mandou a parteira se livrar da criança, abandonando-a na floresta. Porém, com dó da criança, a parteira pede a ajuda de sua irmã, uma bruxa, para que crie a menina.


O rei acabou tendo três filhas e mandou a parteira levar todas elas para a floresta, onde a bruxa as criou. Mas quando ela estava prestes a perder as meninas, ela as prendeu em uma maldição dentro de uma gaita. E dali só poderiam sair se salvassem alguém à beira da morte. Eis então que o enredo vem para a Alemanha durante a ascensão do Partido Nazista e uma família de músicos marcada pelo cenário de preconceito e fanatismo que ronda suas vidas. Devo dizer que esta parte me deu muita raiva, pois a irmã do protagonista se filiou ao partido e repete as mesmas merdas que eles disparavam sobre a superioridade da raça ariana e como gente com "defeitos" poderiam deixar a linhagem ariana "impura". Tipo o irmão dela, com uma simples marca de nascença no rosto.

A segunda parte do livro fala de dois órfãos que esperam uma adoção, especialmente se forem juntos, nos Estados Unidos, poucos anos depois da primeira parte acontecer. Exímios tocadores de piano, eles acabam escolhidos por uma misteriosa senhora rica que parece não gostar deles. Quem cuida dos dois garotos acaba sendo o advogado da família. Aqui você já começa a perceber que a música acaba sendo o fio condutor de todos personagens. De alguma maneira, todos eles são músicos ou tocam algum instrumento.

Toda injustiça que os nazistas impuserem aos judeus, eles imporão a você a qualquer pessoa que julgarem indesejável. É inconcebível!

Página 80

Na terceira parte, temos uma garotinha no sul da Califórnia, de família latina, que subitamente precisa se mudar de casa. E na escola ela enfrenta preconceito, pois enquanto os alunos brancos frequentam uma escola bonita, florida, com quadra de esportes, os latinos, japoneses, negros, frequentam uma escola menor, sem requinte algum, com um ensino defasado. Ela toca gaita e adora ajudar as pessoas, tanto que ajuda o pai e a mãe a cuidarem de uma propriedade pertencente à uma família japonesa que foi obrigada a ir para um campo de concentração.

A autora nos narra essas três histórias com muita leveza, mesmo nas partes mais tensas. Não vou mentir que passar pela primeira história, no auge do nazismo, foi bem difícil, pois sabendo que tudo aquilo, todo aquele discurso de supremacista branco, ocorreu de verdade, é mais difícil ainda de entender como tanta gente engolia esse discurso. E alguns, hoje em dia, o aplaudem. E as pessoas que tentaram lutar contra isso muitas vezes foram punidas.

Com um lindo trabalho gráfico, o livro é uma obra de arte. E a autora nos faz subir e descer numa montanha-russa emocional por nos apegarmos aos personagens. Você quer logo chegar no final para saber o que aconteceu, se todas as pontas soltas serão amarradas - e são! - e vai ser difícil segurar as lágrimas no final.

Ficção e realidade
Com leis absurdas e eventos históricos perturbadores, o leitor incauto pode achar que o livro fala apenas de fábulas. Quando você lê uma passagem falando da "Lei de Prevenção Contra Descendentes Hereditariamente Doentes", onde há uma lista de "transgressões" (cegueira, surdez, alcoolismo, deficiências físicas), determinando a esterilização compulsória de pessoas consideradas defeituosas, começa a achar que é tudo fantasia mesmo. Não é. A lei foi de fato promulgada na Alemanha Nazista, poucos meses depois da subida de Hitler ao poder.

Pam Muñoz Ryan

Famílias orientais foram mesmo enviadas para campos de concentração nos Estados Unidos depois do ataque a Pearl Harbor e todo e qualquer descendente de asiático era visto com desconfiança. O próprio George Takei, o Sr. Sulu de Star Trek, contou que sua família foi interrogada sobre ser uma "adoradora do império japonês", desconsiderando o fato de que a família estava nos Estados Unidos há pelo menos duas gerações. Dá uma vergonha danada da raça humana pensar que esses preconceitos absurdos ocorreram e ainda tem gente que concorda com muita coisa.

Pontos positivos
Magia e realidade
Bem escrito
Lindo trabalho gráfico
Pontos negativos
Racismo
Nazismo
Acaba logo!

Título: Ecos
Título em inglês: Echo
Autora: Pam Muñoz Ryan
Tradutor: Dalton Caldas
Editora: DarkSide
Ano: 2017
Páginas: 368
Onde comprar: Amazon

Avaliação do MS?
Prepare seus lencinhos quando ler este livro. Especialmente no final, que foi inesperado. A autora conseguiu falar de história e magia com grande propriedade, sem cair em sentimentalismo barato, feito para chocar o leitor. Ela consegue emocionar o leitor, chocar, deixar com raiva, querendo jogar o livro pela janela, mas vá em frente, continue a leitura e acompanha a luta dos personagens contra o preconceito, contra a tristeza, e de quebra todos eles ligados pela magia da música. Cinco aliens para Ecos e uma forte recomendação para você ler também!


Até mais! 🎶

(...) todo mundo precisa de um pouco de beleza e leveza na vida, principalmente nas piores épocas.

Página 326

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Sybylla

Fã do futuro e da ficção científica. Geógrafa, professora, blogueira, escritora de FC. Capitã da Frota Estelar. Esperando para voltar para o meu planeta. Leia mais.





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1 comentários

  1. Esse está, literalmente, do lado da cama, pra ler. Comprei junto com o da Becky Chambers, mas a faculdade está me sobrecarregando tanto, que ainda não consegui começar. Mas da semana que vem, não passa! Acabam as provas! rsrsrs
    Tem um vídeo sobre no Pipoca Musical. Foi o que me incentivou a comprar.
    Mas voltando ao texto, a gente ainda faz essas burradas, outro exemplo é a questão religiosa no país, como está escalando para algo (que eu acho) assustador.

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