O melhor casal de Star Trek Discovery

segunda-feira, novembro 20, 2017

Com um legado de 51 anos de igualdade, respeito às diferenças e fim das desigualdades sociais, a franquia Star Trek apenas arranhou questões de gênero, raça e sexualidade. Os roteiristas deram seus pulos para levar à audiência episódios que pudessem desafiar convenções há muito estabelecidas, como o beijo de Uhura e Kirk, Jadzia Dax e as discussões de sexualidade e genderfluid, o relacionamento aberto de Troi e Riker, sexualidade na terceira idade, depressão, entre muitos temas. Mas algo que os espectadores há muito tempo esperavam surgiu apenas recentemente: um casal abertamente gay em uma de suas séries. O que antes eram apenas sugestões se concretizou na imagem do Dr. Culber e do tenente Stamets, em Star Trek Discovery.




Com o fim de Enterprise, em 2005, não havia mais nenhuma série de Star Trek no ar. Era a primeira vez, desde 1987, que isso acontecia, ou seja quase 20 anos com ao menos uma série no ar. Com os reboots de JJ Abrams, crescia a pressão sobre a CBS para uma nova série de TV, ainda mais com a aproximação do aniversário de 50 anos da franquia. Discovery tem seus problemas, mas nada podemos apontar de negativo em seus personagens, que são certeiros em tudo o que a franquia sempre defendeu.

No artigo sobre como Star Trek tratou questões LGBT, eu comentei sobre as poucas e raras vezes que os roteiristas ousaram discutir sexualidade e identidade de gênero em episódios que são lembrados por todos os fãs. E mesmo com a ótima discussão que geraram, apontei o que havia de negativo em todos eles: o fato de um personagem ser gay não era algo inerente a ele, era apenas uma situação causada por algum evento gerado pela ficção científica. Eram, em geral, alegorias para se tratar do assunto da semana.

Consigo entender as barreiras que os roteiristas enfrentavam da audiência, dos estúdios, para tratar de assuntos que ainda hoje, 2017, século XXI, são tabus na sociedade. A audiência conservadora fez um escândalo com o beijo de Lenara e Jadzia, nos anos 90, com gente preocupada em como seus filhos seriam destruídos pela cena. Mas é através da cultura pop e da representação correta das pessoas que podemos mostrar que não há nada errado nas orientações, arranjos familiares, cores e ideias de grupos que ainda são marginalizados na sociedade. Muita gente reclamou do Sulu e seu marido e filha no filme Star Trek Beyond, que era "desnecessário". E eu pergunto: por que? Esse arranjo familiar incomoda de alguma maneira? Tente responder sem ser homofóbico e você vai perceber que foi puro preconceito o que essas reclamações escondiam.

Hugh Culber é o médico chefe da USS Discovery. O tenente Paul Stamets é um cientista, cuja pesquisa foi cooptada pela Frota Estelar na tentativa de vencer os Klingons. Nenhuma indicação de que pudessem ser um casal foi dada ao longo dos episódios. Quando um personagem não tem sua orientação revelada para o público, geralmente as pessoas atribuem que ele seja heterossexual. Isso também acontece com a cor dos personagens, em especial nos livros, nacionalidade, e etc., porque vivemos em um mundo essencialmente masculino, branco e heterrocisnormativo.

Foi então que a bonita cena de Culber e Stamets, em um ato íntimo de escovar os dentes na pia para irem dormir, com seus pijamas da Frota Estelar, foi ao ar, no final do terceiro episódio. Culber estava preocupado com Stamets - SPOILER! - depois de vê-lo se colocar no lugar do tardígrado que era responsável pelo salto da nave na rede micelial. Não há aqui um evento anômalo que fez os dois se relacionarem. O que existe é apenas o amor entre os dois, que vem sendo bem representado pelos excelentes atores Anthony Rapp e Wilson Cruz. Eles são um casal como qualquer outro, não estão lá para servirem de enredo do episódio.

Outra coisa: é um casal gay e interracial. Os dois evocam o beijo interracial de Uhura e Kirk na série clássica (que não é o primeiro beijo interracial da TV, nem da TV americana, mas ainda assim é um marco televisivo para a época). Wilson Cruz nasceu nos Estados Unidos, mas é de origem porto-riquenha e é abertamente gay, tendo até sido expulso de casa pelo pai, vivendo em seu carro e na casa de amigos (ele e seu pai se reconciliaram). Bryan Fuller, o produtor original da série é gay e o produtor atual, Aaron Harberts também é. Isso talvez explique a forma brilhante com a qual o casal é retratado e interpretado.

Anthony Rapp foi um dos primeiros homens a falar abertamente de sua homossexualidade no entorno da Broadway e foi quem denunciou o abuso sexual da parte de Kevin Spacey, que já resultou em uma enxurrada de denúncias. Sua coragem levou muitos homens a denunciar a postura de Spacey e de outros produtores, diretores e caça-talentos, como o ator Anthony Edwards, que relatou recentemente o abuso que sofreu quando criança.

A Frota Estelar não se intromete nos relacionamentos entre colegas, desde que eles cumpram com suas funções. É assim desde sempre, desde T'Pol e Tucker, que se passa cem anos antes de Discovery e série clássica. Desde Riker e Troi, Jadzia e Worf, B'Ellana e Paris. A sociedade da Federação não julga as pessoas por seus parceiros sexuais, com quantos eles dormem no mês, nem a raça ou etnia deles. A raça humana evoluiu brilhantemente e como disse o capitão Archer, a raça humana não abomina mais as diferenças, ao contrário, ela as abraça.

Quando você vem de um grupo marginalizado, sua posição costuma ser tomada como sendo política, não importa qual seja o papel ou função. E política é algo que Star Trek sempre lidou e trabalhou, criticando nossos modelos, nossos arranjos, nossos preconceitos, nossos crimes. Torço para que mais casais como Culber e Stamets sejam representados e trazidos ao público e que fique claro que eles podem ser oficiais da Frota Estelar, cientistas, médicos, capitães, possam ser o que quiserem ser.


Vida longa e próspera!

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Sybylla

Fã do futuro e da ficção científica. Geógrafa, professora, blogueira, escritora de FC. Capitã da Frota Estelar. Esperando para voltar para o meu planeta. Leia mais.





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2 comentários

  1. O título da postagem não poderia ser mais justo. Além da representação super positiva dentro da série, é lindo ver a construção que foi feita em torno do casal, o que os transforma no casal com quem mais surto em STD. Adorei a postagem demais <3

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  2. STD <3!!!
    Apesar de todas as críticas que a série vem sofrendo, eu adorei. Mal vejo a hora de chegar janeiro para acompanhar os episódios finais da temporada! :-)

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