5 estereótipos asiáticos que ainda vemos na TV e no cinema

terça-feira, outubro 17, 2017

Quando se trata de estereotipar pessoas, poucos lugares conseguem fazer isso por tanto tempo e tantas vezes quanto a indústria do cinema e da televisão. Desde os tempos de Anna May Wong, as leis anti-miscigenação e do cinema mudo que os asiáticos são perpetuados em estereótipos negativos e danosos, dificilmente ganhando o papel de protagonista, mesmo que a personagem tenha origem asiática.




No Brasil, não faz muito tempo, uma novela colocou um ator branco para interpretar um senhor japonês em mais um escandaloso caso de whitewashing. E para piorar ainda mais, nosso país possui a segunda maior população japonesa fora do Japão. O que uma novela colocando um branco no papel de um japonês está dizendo à essa comunidade? Que suas histórias não podem ser interpretadas por eles e sim que serão sempre usurpadas pelo status quo. Hollywood não teve problema em achar atores japoneses para Ghost in The Shell, mas para a protagonista, de repente, uma atriz japonesa não servia e escalaram Scarlett Johansson.

No que diz respeito aos estereótipos, a indústria continua a repetir os mesmos de sempre:

China Doll
Ou "boneca de porcelana" e todas as suas variações coloca a mulher asiática sempre em uma posição servil e submissa. A geisha, empregada, serviçal, cujas características principais são obediência, reverência, submissão e docilidade. Elas também podem estar na posição de vítimas de trabalho escravo ou sexual, que necessitam desesperadamente de ajuda. Um exemplo clássico da China Doll é Madame Butterfly, ópera que já é criticada há tempos pela forma como estereotipou o povo japonês e pela forma como usa a alegoria do Ocidente dominando o Oriente. A personagem Taka, em O Último Samurai também se encaixa nesse estereótipo.

Dragon Lady
Diferente da China Doll, que é submissa, a Dragon Lady é perversa, sensual, voraz, dominadora, agressiva e misteriosa. Anna May Wong, nos anos 1920, interpretou dezenas de papéis de Dragon Ladies, até que a própria atriz se cansou e partiu para a Europa na tentativa de conseguir papéis melhores. A revolta de Anna começou quando o livro The Good Earth foi adaptado para o cinema e ao invés de lhe darem o papel da protagonista, que era uma mulher chinesa, eles deram à uma atriz branca, Luise Rainer.

Uma Dragon Lady é tida como exótica, uma predadora sexual, pronta para agradar aos personagens brancos do enredo. A atriz Lucy Liu acabou perpetuando esse estereótipo com sua personagem Ling Woo em Ally McBeal, que conhecia técnicas sexuais "desconhecidas" no Ocidente, tida como agressiva, fria e voraz. Dragon Lady pode também ser associada a uma mulher de grande poder político, como Soong Mei-ling, primeira-dama da China e esposa de Chiang Kai-shek.

Geeks
Esse é um estereótipo e também um senso comum muito popular, o que diz que asiáticos são todos fascinados por tecnologia e são capazes de hackear qualquer coisa, possuidores de uma inteligência acima da média. São vistos desde comerciais e propagandas, até séries de TV e filmes, baseados em uma característica de muitos países asiáticos em valorizar o ensino e a educação. Eles são colocados como tecnicamente superiores que os ocidentais na inteligência e na capacidade matemática\analítica, mas não são colocados como os bons partidos, nem os mais atraentes ou sensuais (se você for homem, claro). E dificilmente são os protagonistas, são apenas coadjuvantes. É comum que junto da área geek ele seja um homem emasculado ou uma mulher fora do padrão de beleza. Nos anos 1800, o trabalhador chinês nos Estados Unidos era visto de maneira assexuada e muitos eram vistos como mulheres por trabalharem em tarefas tipicamente femininas.

Lutadores de Kung Fu
Quando Bruce Lee explodiu nos cinemas do mundo todo, a comunidade asiática acabou levando um pouco de sua fama, que virou um estereótipo. Bruce Lee não interpretava um personagem secundário ou estereotipado, ele era um homem forte, determinado, um personagem complexo, mas logo em seguida Hollywood se aproveitou do gancho deixado por Lee e passou a retratar os orientais como sendo especialistas automáticos em artes marciais. Segundo Tisa Chang, diretora do Pan Asian Repertory Theatre, em Nova York, produtores e diretores logo perguntam aos candidatos asiáticos: e aí, você luta o que? Atores como Jet Li e Jackie Chan ganharam os cinemas americanos justamente por suas habilidades em luta.

Minoria modelo
Muita gente vê esse estereótipo como positivo, mas na verdade não é. Asiáticos são representados como sendo trabalhadores árduos, politicamente inócuos, estudiosos, inteligentes, produtivos e - o principal - inofensivos. Se seu povo é visto dessa forma pela maioria, você não pode se dar mal na escola, afinal "você não é super inteligente por ser 'insira aqui qualquer nome pejorativo para descrever um asiático'?" Na realidade, povos asiáticos precisam estudar tanto quanto um branco, mas tem que trabalhar mais horas do que colegas brancos para conseguirem o mesmo salário ou uma fração disso. Por exemplo, nos Estados Unidos, 21.2% dos asiáticos acima de 25 anos possuem pós-graduação, contra 15,5% dos restante da população americana.

No entanto, destes 21.2%, apenas 6,9% são cambojanos e 6,2% são laosianos, um número atribuído aos anos de guerra civil que destruiu boa parte da infraestrutura de educação e saúde de seus países. Para os colegas de estudantes asiáticos, fica implícito que eles serão bem sucedidos por serem "gênios naturais", mas estão lutando para ter boas notas como todo mundo.

Vistos como uma "minoria modelo", o racismo e o preconceito para com asiáticos acaba sendo minimizado ou ignorado completamente, vindo na forma de piadas e ironias perversas e um nivelamento de que todo asiático é "japa". E se a pessoa revida, as pessoas acabam considerando um exagero, porque recaem novamente no mesmo estereótipo do asiático submisso, calmo, sábio, que nunca se revolta com a situação.

Como a indústria pode mudar o cenário? Com protagonistas e personagens complexos interpretados por atrizes e atores asiáticos, representando sua etnia, com roteiros bem escritos e filmes e episódios bem dirigidos. O cinema criou e/ou ajudou a perpetuar muitos desses estereótipos, então o cinema também pode ajudar a derrubá-los.

Até mais!

Leia também:
4 Coisas que Hollywood me Ensinou sobre Asiáticos - Nó de Oito
Interesting Facts About Asian Americans - Tought.co
Censo 2010: população asiática no Brasil cresceu 177% em dez anos - Estadão

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Sybylla

Fã do futuro e da ficção científica. Geógrafa, professora, blogueira, escritora de FC. Capitã da Frota Estelar. Esperando para voltar para o meu planeta. Leia mais.





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1 comentários

  1. Para quem ler mangás, as vezes ver os asiáticos na telona é só frustração...

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