Resenha: O Androide, de Paulo de Castro

quarta-feira, agosto 30, 2017

Quando vi a Tati Feltrin falando tão bem desse livro, me despertou o interesse na hora. Ficção científica nacional e ainda mais com robôs, em um mundo distópico? O apelo foi imediato. Mas em geral, apesar de admirar o trabalho da Tati, não temos um gosto literário parecido. Mesmo assim, decidi investir na leitura por conta de sua indicação. Devia ter gasto meu dinheiro em outra obra.



O livro
Em um futuro próximo, as máquinas se revoltaram contra seus criadores. Os seres humanos foram exterminados e as máquinas herdaram o planeta. Mil anos depois do fim da raça humana, um androide solitário, JPC-7938, salva animais feridos, já que sua programação é médica. Ele vive há mil anos, consumindo livros dia após dia, acreditando que o H1N1, a inteligência que comanda a grande maioria das máquinas, teria aniquilado qualquer androide independente. O H1N1 enviou um vírus, que infectou os robôs e androides, para que fossem submissos a ele. JPC, o protagonista, escapou de seu controle.


Um dia, enquanto estava na biblioteca, ele se depara com o OPR-4503, que um dia fora engenheiro. OPR conta que em suas andanças, fugindo das sentinelas, encontrou uma câmara com material reprodutivo humano congelado. JPC acreditava que nada mais relacionado aos humanos tinha sobrado, exceto por suas construções e carros em ruínas. JPC então propõe a OPR trazer a raça humana de volta. Ele acredita que o planeta criou os humanos e eles não deveriam ter sido extintos e que havia um propósito maior para sua existência.

Aqui entra o primeiro problema do livro. Os dois androides, seja pelo raio que for, decidem que para trazer um ser humano de volta, ele precisa ser gestado dentro de uma androide feminina. Uma androide feminina. PRA QUE? OPR tem a capacidade de criar um útero artificial. Me diga então qual é a utilidade de uma "androide feminina" e me responda sem cair numa resposta machista. Vai ser difícil, lhe garanto. Como se programa gênero num androide ou num robô? E mesmo que fosse possível programar, maternidade é automático, uma configuração de fábrica do feminino.exe? O autor poderia ter feito desses androides os novos genitores da raça humana, sem cair num estereótipo tão batido quanto esse.

OK, a leitura prossegue e os dois androides vão até o depósito de ferro velho onde mora essa tal androide feminina. Vamos para o primeiro clichê da tal androide: ela era uma prostituta. Lembrou do clichê da mulher prostituída que se redime na narrativa? Então, foi usado aqui, sem tirar nem pôr. Leia a descrição que o autor deu à ela:

Apesar de não ser muito alta, era magra, com medidas muito certas. Usava um vestido que ondulava precisamente cada curva bem desenhada, bem definida, sem qualquer imperfeição. O rosto moreno, de um mulato gostoso, realçava os negros olhos largos. Com um vestido leve e branco, um pouquinho dos cabelos levemente ondulados, de um louro nas pontas, sinuoso sobre os finos e bonitos ombros, toda ela induzia uma impressão de brandura e luxúria.

Página 69

Aqui entra outro estereótipo que muitos autores usam: a de descrever suas personagens de maneira sensual. Pergunta se os dois androides são descritos assim? Não são, óbvio. A justificativa para usar uma androide feminina é vazia e não dá nenhuma resposta. Se há um útero artificial disponível, por que nenhum deles poderia usar? Até porque um deles é engenheiro e o outro é médico, melhor dupla impossível. Não, os dois vão atrás da tal da androide e dizem isso aqui para ela:

- Você seria o androide ideal para o sucesso da gestação. Um androide com características femininas proporcionaria uma adaptação melhor ao feto. Organismos orgânicos são sensíveis ao meio em que se encontram.

Página 70

Falei que a resposta era vazia. Em seguida, ficamos sabendo da história da androide NCL-6062. Ela é um combo de estereótipo feminino batido e bastante danoso: prostituta "morena e gostosa", cujo cliente principal se apaixona, a torna uma "respeitável dona de casa" com quem ele gostaria de ter um filho. É sério. Mulheres negras sofrem com o pesado estereótipo que as hipersexualiza, sendo vistas como "fogosas e selvagens". É um estereótipo velho e muito perigoso, mais uma vez repetido na literatura. Outro estereótipo: as recomendações que o androide médica dá à NCL que transformam gravidez em uma doença que a torna praticamente uma inválida. Que eu saiba, gestantes podem ser bem ativas, não estão condenadas.

Outro problema: o autor repete à exaustão que os androides são indiferentes, sem emoção alguma. Cada ato desses androides tem essa reafirmação, TODA SANTA VEZ. Então, como que androides sem emoção, sem sentimento algum, indiferentes, acabam preocupados em trazer a raça humana? Se você não se importa com nada, se importaria ainda menos com os seres humanos. Todo momento tenso, preocupante, desesperador, cada momento de conflito, o autor sentiu a necessidade de te dizer "ó, mas eles não tão nem aí com o basquete". Ficou bem contraditório isso.

Ficção e realidade
Robótica é um assunto recorrente aqui no blog. E um dos temas foi sobre o levante das máquinas. Uma questão pertinente é se uma máquina atingirá consciência e se atingir se ela terá valores humanos. Quase sempre vemos na ficção que as inteligências artificiais nos odeiam, especialmente depois de serem usadas como mão de obra barata e super explorada. Mas há também um outro viés no assunto: as máquinas podem simplesmente nem se importar conosco.

Por serem uma criação nossa, tendemos a lhes dar valores humanos. Empatia por robôs é algo que já acontece, como falei nesse post aqui. Isso não quer dizer que uma máquina acabe nos reconhecendo como uma forma de vida. Ela pode simplesmente não se preocupar, nem nos ver como algo perigoso.

Pontos positivos
Se passa no Brasil
Capa

Pontos negativos
Personagens rasos
Estereótipos negativos
Muitos clichês óbvios

Título: O Androide
Autor: Paulo de Castro
Editora: Novo Século
Páginas: 256
Ano: 2016
Onde comprar: Amazon

Avaliação do MS?
Era um livro com um grande potencial de sair do lugar comum, de contar uma boa história, ainda mais se passando em território nacional. Mas infelizmente o autor reproduz estereótipos e clichês sem nenhuma necessidade. Clichês bem usados dá para aguentar, mas não é o que acontece aqui, infelizmente. Um alien apenas para O Androide.


Até mais!

Já que você chegou aqui...

Sybylla

Fã do futuro e da ficção científica. Geógrafa, professora, blogueira, escritora de FC. Capitã da Frota Estelar. Esperando para voltar para o meu planeta. Leia mais.





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3 comentários

  1. Um assunto pouco discutido são "booktubers" que possuem a pretensão de serem críticos literários e, com isto, cometem gafes incríveis. Assisti a um vídeo no qual uma pessoa fazia uma avaliação do livro Contato, de Carl Sagan. Os vários minutos gastos foram dizer que a história é muito difícil, pois possuía diversos termos técnicos eram empregados. Não estou dizendo que a literatura seja tratada como monopólio, mas grande parte das resenhas, impressões ou opiniões são carentes de uma avaliação consistente. O que falta de conhecimento do tema proposto, sobra oportunismo.

    Também assisti a este vídeo no qual o livro é descrito. Embora tenha ficado intrigado com algumas informações fiquei curioso, pois trata-se um autor nacional. Pensei: Quem sabe poderia surgir um novo Jorge Luiz Calife? Ao buscar informações adicionais no site da Amazon, a minha surpresa foi me deparar com uma sinopse completamente diferente daquela apresentada no vídeo. Deixei a vontade de adquirir o livro até o assunto voltar a tona com esta ótima avaliação. O YouTube ao monetizar canais que publicam diversos vídeos diariamente estimula a baixa qualidade em detrimento do conteúdo. Claro, o problema envolve diversas outras questões como falta de conhecimento do assunto abordado, oportunismo, possibilidade de aumento do número de inscritos, etc.

    Para quem já possui uma certa experiência e conhecimento do assunto abordado pode-se sair imune. Mas imagino os indivíduos que são consumidores destes conteúdos. Irão surgir diversos defensores da terra plana, outros que a ciência e matemática são inacessíveis ou aqueles que não possuem o ceticismo como discernimento.

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  2. Gosto da Tati, gosto do Momentum e não li esse livro (depois dessa resenha que não quero ler mesmo).
    A Tati faz um trabalho, ao meu ver, bom. Mas ela é pouquíssimo, ou quase nada, ligada em questões relacionadas ao feminismo, representatividade etc. Infelizmente não conheço booktuber algum que aborde esses temas em vídeo.
    Felizmente conheço alguns blogs, como o momentum :P

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    Respostas
    1. Tudo bem ela nem fazer essa análise de representatividade ou feminista, mas o livro tem outros problemas que ela não mencionou. Isso sim eu acho errado.

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