Resenha: Corte de Névoa e Fúria, de Sarah J. Maas

sexta-feira, agosto 25, 2017

O que não andou muito bem no primeiro livro melhora consideravelmente no segundo. Feyre terá que enfrentar desafios ainda mais perigosos do que os enfrentados em Corte de Espinhos e Rosas e não sabe como agir neste novo mundo que a cerca, que agora pode chamar de lar. Sua família, do outro lado da muralha, acabará envolvida em todos os problemas que se desenrolarão por aqui. Este sem dúvida é um livro muito melhor do que o primeiro.



Por ser o segundo livro de uma trilogia, pode conter alguns spoilers do primeiro livro. Caso queira ler a resenha de Corte de Espinhos e Rosas, clique aqui!

O livro
A vida de Feyre mudou completamente em um espaço de poucos meses. Levada para as terras feéricas, ela se envolveu na vida e sociedade de seres que aprendeu a temer durante toda uma vida, até se apaixonar por deles. A estranha doença sobre as terras feéricas foi curada em uma ação impulsiva de sua parte, enfrentando preconceito da parte dos feéricos por ser uma relés humana e as pessoas agora a veem como uma figura quase sagrada, lhe rendendo bênçãos por ter destruído a horrível maldição.


O que ninguém sabe é que os horríveis acontecimento de Sob a Montanha a perturbam. Todas as noites Feyre se arrasta para o banheiro onde vomita e chora e é perseguida pelo horror que enfrentou. E o pior, Tamlin não a inclui nas decisões que toma, nas viagens que faz. Feyre está cansada de ficar cercada pelas paredes da casa, tendo poucas pessoas como companhia, incluindo a grã-sacerdotisa Ianthe, que vem organizando o casamento de Feyre com Tamlin, alguém que tem seus próprios objetivos.

Mas Feyre afunda na tristeza e no desespero, como se nadasse na lama, sem condições de reagir por si mesma. Aqui temos um ponto muito forte do livro tratado pela autora: a depressão. É isso o que Feyre enfrenta. Completamente mudada pelas experiências e pelo terror que lhe foi imposto, ela não dorme, mal come, tem pesadelos horríveis e vomita todas as noites. Para sobreviver aos horrores de Sob a Montanha, Feyre precisou fazer um acordo com o ardiloso grão-senhor da Corte Noturna, Rhysand. E ele volta para cobrar seu acordo no dia do casamento de Feyre com Tamlin.

O que ninguém sabia é que Feyre hesitou no altar, sem conseguir dar um passo rumo ao noivo. Um noivo que depois vai fazê-la de prisioneira dentro de casa, que vai querer que ela seja apenas um bibelô em sua corte. Cada vez que Rhysand aparece, Feyre se sente livre, se sente viva e relutantemente aceita a ajuda oferecida por Rhysand, como o de fazê-la aprender a ler. Seu analfabetismo quase a matou em Sob a Montanha. Com o tempo, Rhysand expõe a verdadeira situação das terras feéricas: uma guerra está a caminho deles e dos humanos. E ele quer sua ajuda para os preparativos e quer que ela desenvolva seus poderes, coisa que Tamlin quer a todo custo suprimir.

Agradeça por seu coração humano, Feyre. Tenha piedade daqueles que não sentem nada.

Página 15

Outro ponto forte da história e que Sarah soube trabalhar muito bem: Tamlin é um sujeito abusivo e parece desconhecer o conceito de "consentimento". Existem alguns momentos em que você quer esganar o sujeito, que trata Feyre como um prêmio, não como um indivíduo, que pensa que ela é sua posse e vai levá-lo a cometer qualquer loucura. Há até um momento em que Rhysand questiona se os sujeitos da Corte Primaveril não entendem quando uma mulher diz "não". Enquanto isso, o ardiloso Rhysand se mostra alguém totalmente diferente do que aparentava, o que só reforça o quanto nós realmente não conhecemos as pessoas com quem convivemos.

Feyre se surpreende por não ter percebido isso antes e chega um determinado momento em que ela questiona seus sentimentos de maneira relevante até mesmo aqui, nas terras humanas: será que ela se agarrou à primeira pessoa que a tratou com bondade? Será que está aceitando o amor que acha que merece? Este também é outro ponto alto do livro, que Sarah trouxe para dialogar com suas leitoras: a de não aceitar o amor que venha de qualquer maneira só para não ficar sozinha, só porque acha que tem obrigação de retribuir alguma coisa.

É inquietante acompanhar o crescimento de Feyre neste livro, algo que foi tão tímido no primeiro livro. Em Corte de Espinhos e Rosas, o livro esfria no meio para dar uma guinada perto do final. Neste livro aqui a escrita de Sarah está mais madura, mais pé no chão, mais concisa e Feyre, Rhysand, Tamlin, Lucien, todos adotam mais contornos de personalidade que mal dava para reconhecer antes. Feyre continua sendo a personagem inteligente mais burra da história toda, pois tem horas que ela toma uma decisões tão equivocadas, que você quer pular nas páginas e sacudir a moça até ela tomar juízo. Já no final, Sarah tira algumas decisões não sei onde para justificar não sei o que e você literalmente fica com cara de 'ué'.

Outro ponto forte do livro é o preconceito que feéricos sofrem por não serem grão-feéricos e como a sociedade parece firmemente dividida por isso. Tirando a parte da magia e da longevidade, feéricos e humanos se parecem muito, brigando por poder, riquezas, traindo e se reconciliando com a mesma facilidade. Interessante pontuar também que o pouco que vimos das terras feéricas aqui se expande para que possamos ver a ilha praticamente inteira e há uma riqueza de detalhes nas descrições que diferem uma corte da outra.

- Pequeno Lucien - ronronou Rhysand - A senhora da Corte Outonal não ensinou a você que quando uma mulher diz não, é não?

Página 483

Ficção e realidade
Eu esperava bem menos do livro depois de lido o primeiro, mas fiquei grata com a surpresa de tantos temas pertinentes sendo tratados pela autora. São poucos os livros que conseguem envelopar depressão, consentimento, opressão e preconceito e ainda assim manter a narrativa. Relacionamentos abusivos muitas vezes são romantizados em obras de entretenimento, veja o caso de Cinquenta Tons de Cinza e todo o alcance que teve, tendo um relacionamento desses visto como algo ~romântico~. Muitas leitoras não perceberam que os atos de Christian Grey são típicos de um abusador de mulheres.

Se elas não conseguem notar o abuso em um personagem de ficção, notará em uma pessoa real? Perceberá isso na sua própria relação? Quando Sarah nos mostra quem é Tamlin de verdade, a própria Feyre leva um tempo para perceber, uma vez que está analisando a relação de fora, enquanto está na Corte Noturna. E perceber que ele não se preocupa de verdade com ela é devastador. Destruída e depressiva demais para reagir, ela quase caiu numa armadilha, maquiada de amor, quando na verdade era apenas posse. Ponto positivo para Sarah por ter trazido o assunto para seu livro sem perder o tom da narrativa.

Pontos positivos
Terras Feéricas
Rhysand e a Corte Noturna
Universo se expande bastante
Pontos negativos
Feyre
Violência
Pode ser devagar em algumas partes

Título: Corte de Névoa e Fúria
Título original em inglês: A Court of Mist and Fury
Série
1. Corte de Espinhos e Rosas
2. Corte de Névoa e Fúria
3. A Court of Wings and Ruins
Autora: Sarah J. Maas
Tradutora: Mariana Kohnert
Editora: Galera Record
Páginas: 656
Ano de lançamento: 2017
Onde comprar: Amazon

Avaliação do MS?
Gosto de pegar livros que me surpreendam, como este fez. Admito que fiquei curiosa de ler por causa de Rhysand, que sem dúvida é o personagem que mais se destaca no livro. Não só ele como sua Corte Noturna foram bem trabalhados. E os problemas de Feyre são extremamente pertinentes e bem discutidos no livro. Ela finalmente ascende como não tinha conseguido no primeiro livro. Quatro aliens para o livro e uma forte recomendação para você ler também.


Até mais!

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Sybylla

Fã do futuro e da ficção científica. Geógrafa, professora, blogueira, escritora de FC. Capitã da Frota Estelar. Esperando para voltar para o meu planeta. Leia mais.





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