6 estereótipos negativos sobre mulheres cientistas na ficção

terça-feira, março 14, 2017

Um dos lugares onde as pessoas mais têm suas primeiras impressões sobre profissões é em filmes e séries. Sobre a ciência, então, é a cultura pop que acaba contribuindo (nem sempre de maneira positiva) para a visão do público sobre como a ciência funciona. Até hoje, tudo o que as pessoas sabem sobre paleontologia vem dos filmes de Jurassic Park. E a maioria das pessoas nunca conhecerá um cientista 'de verdade'. Portanto, é na cultura pop que as pessoas acabam absorvendo as visões de como cientistas são e trabalham. Na mídia em geral, os cientistas em posições-chave para o enredo são normalmente homens. As mulheres cientistas são raras e quando aparecem diferem muito dos colegas masculinos. Um dado de 2002 aponta para 82% de supremacia masculina na ciência fictícia da cultura pop.




O lugar em que mulheres cientistas mais aparecem é na ficção científica, por questões óbvias. E sobre elas existem muito estereótipos negativos e repetidos à exaustão. Por exemplo, quando olhamos a qualificação acadêmica destas cientistas e sua idade, vemos que há uma incompatibilidade gritante, pois elas são ultra especialistas e absurdamente jovens para papel. Até mesmo nas cientistas que mais admiro da ficção científica, elas acabam se encaixando em algum estereótipo abaixo. Algumas, se encaixam em mais de um. Os estereótipos também mostram que é possível aliar feminilidade com inteligência, mas dificilmente com sucesso.

A lista foi composta por Eva Flicker, do Instituto de Sociologia, da Universidade de Viena, em seu estudo intitulado Between brains and breasts—women scientists in fiction film: on the marginalization and sexualization of scientific competence. Ela trabalha com sociologia de filmes e mídia de massa, sociologia de comunicação e estudos sociológicos de gêneros e dinâmicas de grupo. Mesmo tendo sido publicado em 2003, praticamente nada mudou na forma como as cientistas são retratadas na cultura pop.

6. Cientista solteirona
Essa é aquela cientista casada com o trabalho. Não há qualquer dúvida a respeito de sua competência, mas como mulher ela peca em alguma coisa. Normalmente tem o look de uma CDF, de óculos, roupas desleixadas, largadas, até mesmo fora de moda. Todos os sinais tidos como femininos ficam de fora, enquanto ela se dedica integralmente ao trabalho de maneira quase maníaca.
Mas em algum momento sua "feminilidade" será restaurada, pois um homem aparecerá para salvá-la dessa vida cafona e solitária, então ela se transformará em uma atraente e sensual mulher. O que importa nesse estereótipo é que inteligência e beleza são excludentes. Não se pode ter os dois. E a gente sabe que não é verdade. A primeira cientista que me veio na mente foi a de Poção do Amor Nº 9, com Sandra Bullock.

5. Cientista macho
Ela é um dos caras. Se veste praticamente igual a eles, usa o mesmo linguajar, chulo muitas vezes, bebe, fuma, tem uma vida pouco saudável, é workaholic (lembrando que são características normalmente associadas aos personagens masculinos, não é padrão). O que acontece aqui é que eles repetem um personagem masculino, mas colocam uma mulher no papel "para ficar em igualdade aos caras". Este estereótipo perpetua a ideia de que mulher é incompatível com ciência. Assim, costuma ser uma mulher mais velha, sem muito apelo com o público. Ela prefere conviver com seus objetos de estudo do que com humanos.
Apesar de ser competente e de ser necessária para resolver algum problema no enredo, tendo uma grande sensibilidade com sua área e uma paixão pelo o que faz, ela acaba sendo descartável. Sua competência é questionada e suas descobertas podem ser ridicularizadas. É praticamente uma descrição completa da Dra. Grace Augustine, de Avatar.

4. Cientista ingênua
Ela é aventureira, curiosa, ultra especialista em sua área, bonita e atlética, que se joga de cabeça no trabalho, sem pensar nas consequências. Apenas a audiência e seu namorado, que parte em seu encalço, sabem do risco que ela está correndo. A cientista ingênua não tem lá muita relevância para o enredo em si além de trazer a carga dramática e, muitas vezes, de ação da história.
Suas emoções e sua ingenuidade a colocam em dificuldades no enredo, o que faz com que seu intrépido namorado saia em seu resgate. Ela não acredita que as coisas são tão ruins assim, mesmo estando atolada até o pescoço na merda. Ela pode dar alguma informação científica para a audiência aqui e ali, mas é só isso também. A Dra. Sarah Harding, de O Mundo Perdido: Jurassic Park é a personificação do estereótipo.

3. Cientista maligna
Bonita, sensual, inteligente acima da média, jovem demais para sua formação de ulta especialista, esta cientista colabora com o herói em sua busca, fazendo tudo pela ciência. Nem mesmo o mais sério dos homens deixaria de se encantar por sua sedução. No fim, descobrimos que ela colabora com o inimigo, é facilmente corrompida, sendo extremamente egoísta e narcisista, deixando óbvio que nada se colocará entre ela e sua busca.
Este é o estereótipo que ilustra o medo de parte do público com a ciência. De que pessoa inescrupulosas estarão sempre por trás de buscas e descobertas para seu uso indiscriminado. Colocar uma mulher no papel apenas reforça os dois estereótipos. A Dra. Elza Schneider, a historiadora que engana Dr. Jones pai e filho é o estereótipo perfeito, em Indiana Jones e a Última Cruzada.

2. Cientista assistente
Ela tem a competência necessária para ser cientista, porém seu personagem está ancorado no relacionamento que tem com o personagem masculino. Ela pode ser filha, namorada, esposa e mesmo tendo a mesma formação, fica claro que o papel dominante do enredo é do cientista homem. Ele terá aquelas características clichês de cientistas: nervoso, introvertido, extremamente inteligente e que deixa com ela a parte social.
A personagem feminina terá toda a parte social da história, bem como emocional. Seu perfil depende do personagem masculino, que é obviamente a estrela. Seu papel é de ser a ponte dele com o restante da sociedade e outros personagens. Apesar de adorar a Dra. Ellie Sattler, em Jurassic Park, ela acaba retratada como a cientista assistente, casada com o paleontólogo estrela da história, aquela que quer ter filhos e ele não.

1. Cientista solitária
Este talvez seja o estereótipo mais repetido na ficção em geral. É uma cientista ultra competente, que se sobressai entre os colegas, talvez até a mais qualificada de sua área. É emancipada, independente, tem atributos femininos, é curiosa, modesta, íntegra, com opiniões e posicionamentos fortes, dos quais não abre mão. Normalmente é jovem demais para ter tanta qualificação assim. Vida pessoal e carreira não são excludentes, desde que ela mantenha o foco em seus objetivos científicos, às vezes abrindo mão da vida pessoal.
Porém, algo ainda falta da vida desta cientista. Provavelmente será reconhecimento de seus pares, ela ficará em uma situação difícil, isolada. Sua vida acadêmica está nas mãos dos pares masculinos, que podem atrapalhar seus objetivos. Triste de ver que a brilhante Dra. Ellie Arroway, de Contato, se encaixa nesse estereótipo.

A ficção tende a perpetuar mitos e boatos sobre ciência ao representar cientistas desta maneira. Como por exemplo, que mulher não gosta de ciência. Não só gosta, como o Brasil é exemplo em igualdade de gênero na produção científica. O que não quer dizer, vale ressaltar, que as oportunidades de cargos de chefia e salários sejam os mesmos de seus colegas homens. Ainda há uma grande diferença nas ciências exatas, onde ainda somos minoria, mas nas áreas de saúde, mulheres são maioria. Isso mostra que sim, ciência também é lugar de mulher. A ficção precisa é melhorar a forma como nos representa.

Até mais!

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Sybylla

Fã do futuro e da ficção científica. Geógrafa, professora, blogueira, escritora de FC. Capitã da Frota Estelar. Esperando para voltar para o meu planeta. Leia mais.





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3 comentários

  1. super fascinante artigo sobre estereótipos-de-mulheres-cientistas...
    vc vai escrever outro sobre cientistas q são ' maneiras ' ?
    RomanBRuni.net desenvolvimento de Roteiro !

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  2. Nossa, eu nunca tinha reparado nessa "cientista maligna" dentro desse papel específico, mas já tinha reparado o papel "da traidora". Ela SEMPRE é uma marionete do grande vilão, masculino, movida por interesses pessoais mas que se deixa levar pela lábia do cara. Muitas vezes, algum fator emocional (always) faz ela voltar atrás e ir contra o tal vilão. A participação dela na vitória do mocinho não é fundamental, é mera ferramenta pra facilitar o enredo, de modo que a redenção dela no máximo dá um empurrãozinho pra ele vencer no final. E isso acontece MUITAS VEZES com personagens cientistas. Péssimo

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  3. Adorei o texto! Antes de ler eu estava lendo a HQ força v (não sei se vc curte e tal, mas é uma equipe de heroínas lideradas e praticamente só de mulheres) e ainda assim é visível a construção de cientistas dessa forma. A hierarquia não é de gênero, e sim racial, daí encaixa perfeitamente no seu tópico 6.

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