Resenha: Diário de uma Escrava, de Rô Mierling

quarta-feira, março 15, 2017

Fiquei muitas semanas tentando digerir esse livro e não consegui. É um livro de tema certamente importante para ser discutido, que é o sequestro e encarceramento de meninas e adolescentes, usadas como escravas sexuais, tal como aconteceu com Natascha Kampusch. Mas muita coisa neste livro poderia ser diferente.



Parceria Momentum Saga e
editora DarkSide


O livro
Laura é uma adolescente aprisionada em um buraco no subsolo de uma casa de campo. Seu captor, Ogro, como ela o chama, a abusa, estupra e humilha quase que diariamente. Ele lhe dá banhos dolorosos, puxa pelo cabelo, alimenta mal e a obriga a fazer todas as necessidades em um balde. É uma situação de extrema violência que a garota passa e muita humilhação.


Alternada com a realidade da jovem, temos o Ogro em ação, tentando fisgar mais vítimas pela internet, se passando por um namoradinho apaixonado em redes sociais e marcando encontros, onde sequestra, estupra e depois desova os corpos nas estradas e florestas ao redor. A família de Laura e das outras meninas, ficam profundamente mudadas pela experiência traumática e a polícia não tem provas do assassino.

Não sei de onde as pessoas tiram essa ideia, absurdamente fraca e sem lógica, de perdoar quem as maltrata. Posso estar errada e parecer anticristã, mas, Deus me perdoe, não sai de mim nada além de pura escuridão.

Página 123

Ogro é o marido exemplar, apesar de ser muito calado. Frequentava a mesma igreja de Laura, perseguindo a jovem até finalmente conseguir colocá-la no buraco. A família de Laura acredita até que a moça esteja morta, passados tantos anos desde seu sumiço. Com o tempo, ela passar a conhecer melhor seu captor, mesmo com o abuso físico e psicológico. E acaba ligada a ele de maneiras que nem ela mesma pode compreender. Laura atribui à sobrevivência, que ela fará tudo para poder viver, até mesmo colaborar com ele, conversar, tentar entender que sana sanguinária é aquela que o leva a matar tanto.

A narrativa de Rô Mierling é direta, crua, sem muitos floreios e passa bem rápido. Isso não quer dizer que você vai digerir rápido o livro. Com dados no final sobre desaparecidos - 250 mil no Brasil, todos os anos, sendo que 40 mil são menores de idade - o livro alerta o leitor sobre não confiar em qualquer pessoa, em sempre se manter alerta para pessoas desconhecidas na internet que querem puxar papo e já pedem intimidade. E o principal, a forma como muitas vítimas negociavam com seus captores para sobreviverem.

Porém, o livro tem um grande problema. A cada vez que Laura ou qualquer outra menina é estrupada, essa cena é descrita em cada mínimo detalhe. E acho que já temos exemplos suficientes na literatura, no cinema e na TV de que é possível falar de estupro sem descrever, sem chocar o leitor ou expectador. Não é necessário descrever toda uma sequência de estupro, inclusive com descrição da penetração forçada. Sério, eu não precisava, nem queria ler aquilo. Acredito que muitas leitoras também não vão querer. É um tema muito importante para tratar assim de maneira a chocar a audiência. Muitas mulheres guardam lembranças horríveis sobre violência sexual e não precisam de um livro para lembrá-las dos detalhes.

Apesar do trabalho gráfico impecável da DarkSide, como sempre, o livro tem um segundo defeito: não há nenhum aviso de gatilho no livro para leitoras que possam ficar traumatizadas com a experiência da leitura. Isso não é mimimi, isso é sério. Eu larguei o livro e só voltei semanas depois e ainda assim, já perto do final, pulei outras cenas desnecessárias de descrição de estupro.

Cheguei a ler comentários de leitores admitindo que algumas cenas eram excitantes, apesar de violentas. Como uma pessoa pode achar uma cena de estupro "excitante"? Percebe então a importância de pôr um aviso de gatilho no começo do livro, avisando para cenas que contém conteúdo impróprio e perturbador? Não é o tipo de livro que se vende aberto, por exemplo.

Ficção e realidade
Um aspecto positivo do livro são as estatísticas no final. Além de termos casos reais de jovens que se tornaram escravas sexuais depois de sequestradas, temos dados no Brasil e no mundo. O livro nos traz a podridão desses casos, pois geralmente vemos as jovens já limpas, com suas famílias, em segurança, mas não sabemos o durante. Muitas sofrem terror psicológico e acabam desenvolvendo até mesmo afeição pelo sequestrador, que é a única pessoa com quem ela tem contato.


Outras desenvolvem Síndrome de Estocolmo e algumas podem até mesmo se tornar cúmplices do abusador. Eles destroem a mente da vítima, que é obrigada a se reconstruir com base no cenário de destruição, estupro e violência que tem ao seu redor.

Pontos positivos
Tema pertinente
Projeto gráfico
Dados sobre violência sexual e sequestros
Pontos negativos
Violência e estupro explícitos
Sem nenhum aviso de gatilho

Título: Diário de uma Escrava
Autor: Rô Mierling
Editora: DarkSide
Páginas: 220
Ano: 2016
Onde comprar: Amazon

Avaliação do MS?
É um livro de tema importante, uma situação que acontece, é preciso proteger crianças e adolescentes de predadores sexuais. Só não consigo entender como um livro que deixa estupro e violência tão explícitos pode colaborar com isso, chocando e amedrontando leitoras. Deixo aí a resenha e na sua mão a decisão de querer ler ou não. Três aliens.


Até mais.

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Sybylla

Fã do futuro e da ficção científica. Geógrafa, professora, blogueira, escritora de FC. Capitã da Frota Estelar. Esperando para voltar para o meu planeta. Leia mais.





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1 comentários

  1. As resenhas dessa livro me distanciaram dele... Não estou psicologicamente preparada para mergulhar nesse mundo!

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James W. Harris