Ellie Arroway e o machismo

sábado, março 04, 2017

Nesta semana da mulher, de 1º a 8 de março, portais nerds feministas se juntaram em uma ação coletiva - Ação Nerd Feminista - para discutir de temas pertinentes à data e à cultura pop, trazendo análises, resenhas, entrevistas e críticas que tragam novas e instigantes reflexões e visões. São eles: Collant Sem Decote, Delirium Nerd, Ideias em Roxo, Momentum Saga, Nó de Oito, Preta, Nerd & Burning Hell, Prosa Livre, Séries Por Elas, Valkírias, Psicologia&CulturaPop. #WeCanNerdIt




Contato (1997), baseado no livro homônimo de Carl Sagan, é um dos meus filmes favoritos da vida. A primeira vez que assisti foi no Telecine (na época em que só havia um canal Telecine) e lembro de ficar encantada com o enredo, com um contato alienígena fora dos padrões de Hollywood, de ver uma cientista tão bem interpretada e que acredita tanto no que faz que enfrenta qualquer obstáculo para ter sucesso. É também um dos poucos filmes com uma mulher cientista como protagonista. Ellie é uma das minhas heroínas do coração. ♡

Mas se tem uma coisa que sempre me incomodou e que apenas nos últimos anos é que pude nomear era como vários personagens tentavam impedir Ellie de continuar seu trabalho no SETI. Ela foi desacreditada, sua carreira virou motivo de chacota e quando seu projeto foi fechado em Arecibo, Porto Rico, a desculpa era que "era por sua carreira" e que ninguém dava crédito à um projeto que buscava encontrar vida alienígena inteligente. Ellie não queria ninguém metendo o bedelho em sua vida, só queria que a deixassem trabalhar. "É a minha vida!", ela bradou. É bastante perturbador perceber neste filme vida alienígena existe, mas infelizmente o machismo também.

Ellie é o que nós classificaríamos como um gênio. Incentivada pelo pai nas áreas de matemática, astronomia e física, ela se destacava pelo interesse em rádio-amadorismo e por eventos celestes e convenhamos que isso foi incrível, porque muitos pais provavelmente achariam que essas áreas "não são adequadas para meninas". Nunca se conformou com a morte do pai, mas formou-se com louvor no MIT e recusou uma cátedra em Harvard para perseguir seu sonho de trabalhar no SETI, o programa que busca por sinais de vida extraterrestre. A abordagem do SETI é investigar sinais de rádio de baixa frequência captados por radiotelescópios terrestres (principalmente o de Arecibo), já que este tipo de sinal não ocorre naturalmente, podendo ser interpretado como evidência de vida extraterrestre.

Tentaram impedi-la de continuar em Porto Rico, então ela partiu para a iniciativa privada, alegando que até Hollywood deveria ajudar, afinal eles lucravam com a ficção científica durante todos esses anos. Deixando de lado um relacionamento romântico com um escritor e ex-padre, anos se passam no deserto, no Very Large Array (VLA), no Novo México, enquanto ela e sua equipe investigam milhares de estrelas. Ouviam apenas silêncio lá fora. Mas quando o projeto está prestes a ser fechado, novamente por insistência de agentes externos que insistiam em querer controlar sua vida, o sinal aparece.

Sabendo que o sinal era para todo o planeta e não apenas para os americanos, Ellie avisa a imprensa mundial, o que causa um alvoroço. Seu laboratório é invadido por homens, alguns deles militares armados, com suas interrupções clássicas, paternalismo, homexplicação e toda a descrença natural que um sinal alienígena causaria. Políticos estão preocupados que o aviso seria uma quebra da segurança nacional. Todo tipo de maluco aparece no deserto tentando captar alguma mensagem de Vega, a estrela de origem. E Ellie está lá, lutando pelo sinal e para descobrir as informações que ele contém. Seus velhos adversários estão todos lá. E eles tentam roubar seu projeto, sua descoberta, de todas as maneiras.


A começar pela coletiva de imprensa. É David Drumlin, conselheiro de ciências da presidência quem dá a coletiva, sendo que ele fechou o projeto de Ellie em Arecibo e tentou de novo no Novo México. Depois, queriam militarizar seu trabalho, por ordem do conselheiro de segurança nacional, Michael Kitz. Mas seu trabalho era privado e ela precisou, mais uma vez, brigar para se manter no lugar. Em seguida, quando descobrem o conteúdo da mensagem e escolhem um emissário especial da raça humana, ela é a preferida, mas novamente a atrapalham, dando para Drumlin o cargo. E NINGUÉM questionou. Isso parece familiar?

O Efeito Matilda pressupõe que contribuições científicas feitas por mulheres serão diminuídas, apagadas, ou creditadas a homens. Ellie foi vítima de um sistema machista, onde seus feitos, suas capacidades e sua perseverança foram diminuídos e entregues a terceiros, todos homens, todos protagonistas em seu lugar. Duvido que nenhuma mulher assistindo a esse filme não tenha visto semelhanças com sua própria história. Ellie enfrenta o machismo institucionalizado na ciência, lugar que sabemos ainda precisa evoluir muito no quesito respeito às mulheres cientistas.

O tempo TO-DO Ellie é questionada, indeferida, ignorada e subestimada por aqueles fora de sua pequena equipe. David Drumlin considera que sua carreira está indo para o ralo em um esforço inútil que é o SETI, segundo sua percepção. Para ele, Ellie deveria fazer "ciência séria" para conseguir financiamentos e projetos. Drumlin queria que Ellie se encaixasse no modelo de cientista que ELE achava ser o adequado, um controle paternalista e machista no talo. Aí, para piorar o que já estava ruim, o escritor ex-padre apaixonado derruba sua candidatura em rede mundial, alegando que não poderia deixar um emissário que não acredita no Deus cristão ir naquela missão. Depois ele diz que é porque a ama, coisa e tal, mas se a amasse de verdade, não teria interferido.

E o que dizer de Michael Kitz, que interroga Ellie a ponto de cometer gaslighting quando ela retorna da missão que todo mundo acha que falhou? "Ela é louca, inventou tudo, está delirando, não acreditem nela!". Em nenhum momento estes três homens que decidem por ela, contra ela e roubam seu protagonismo explicitam que mulheres sejam inferiores ou usam ofensas misóginas. Eles apenas estão tão seguros de suas posições e autoridades que agem sem nem pensar uma segunda vez. Ellie é altamente qualificada e uma cientista competente, mas o sistema é tão insidioso e a tanto tempo consolidado, impondo barreiras e obstáculos que, não podendo ter sucesso com financiamento público, ela precisou pedir o apoio de um bilionário excêntrico que lhe dá as chances de prosseguir. Ellie precisa se submeter a esses homens poderosos para poder alcançar seu sonho.

Na vida real, a luta contra o machismo na ciência é muito difícil, pois os próprios cientistas homens têm dificuldades de enxergar o problema. Os homens do filme Contato provavelmente ficariam indignados se apontassem para suas caras todo o machismo de suas ações. E no final ainda temos outra cena que, infelizmente, é muito comum: depois de toda aquela incrível jornada, ninguém acredita nela. Justo Ellie, a mais qualificada na sala, implora que as pessoas acreditem nela, que não é um delírio, que não é uma alucinação, que tudo aconteceu, mas muitos acham que tudo não passou de uma piada. É mais fácil construir uma máquina que faz uma viagem de 26 anos-luz do que acreditar na palavra de uma mulher. Eis então que surge a prova: a gravação de 18 horas feita por Ellie.

Ellie Arroway é tudo o que as garotas precisam ver e se espelhar: ela é apaixonada pelo o que faz, devotada, otimista, não aceita 'não' como resposta e é extremamente inteligente. Ela não se desculpa por suas ações ou por estar naquela sala cheia de homens que a detestam ou tentar roubar seu trabalho. Protagonistas que sejam profissionais em suas áreas, seguras de si e de suas carreiras, estes são os exemplos que precisamos ver em tela, alguém que erga sua voz e que represente o melhor da humanidade.


Até mais!

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Sybylla

Fã do futuro e da ficção científica. Geógrafa, professora, blogueira, escritora de FC. Capitã da Frota Estelar. Esperando para voltar para o meu planeta. Leia mais.





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2 comentários

  1. Amo muito esse filme!!!! lembrei muito dele após assistir A Chegada. Ótimo texto! =)

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  2. nossa amei essa perpectiva e o assunto que irá ser relatado, acho super bacana e bem diferente ein, esse angulo que precisa ser visto, eu n assisti esse filmes mais ja fiquei na curiosidades
    http://dosedestrelas.blogspot.com.br/

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"A ficção científica é um substituto para todos os lugares que eu nunca vou alcançar nessa vida."

James W. Harris