O Efeito Matilda

quinta-feira, janeiro 30, 2014

O Efeito Matilda é uma daquelas coisas que você vê ou lê e não acredita que possa ser verdade. Imagina isso acontecer, ainda mais numa área tão séria quanto a ciência. Depois, é só procurar um pouquinho pelas "interwebs" que você logo acha as consequências deste efeito em várias áreas da ciência, em várias partes do mundo, em vários momentos da história. A principal e nefasta consequência dele é que mulheres ficam relegadas à posições secundárias na ciência e, muitas vezes, são acusadas de "não combinarem" com ela, tendo seus trabalhos considerados inferiores, baseados unicamente em sues gêneros.




O Efeito Matilda foi cunhado, em 1993, pela pesquisadora da história da ciência Margaret W. Rossiter, homenageando a ativista dos direitos das mulheres do século XIX, abolicionista, ativista dos nativos-americanos, Matilda Joslyn Gage, aquela simpática senhora que abre o post lá em cima, que já naquela época percebeu que ele ocorria. Basicamente, ele diz que as descobertas e contribuições científicas feitas por mulheres são negadas à elas e atribuídas a pesquisadores homens, com sua participação diminuída ou completamente negada. Isso não é novo e temos muitos casos no meio acadêmico e científico. Ele está relacionado com o Efeito Matthew, que diz que a contribuição de certos cientistas é valorizada mais do que o devido.

Mas por que isso acontece? Acho que é fácil de identificar a razão. Ciência é um campo que foi, por muito tempo, dominado por homens, desde os antigos mosteiros e academias até nos grandes laboratórios modernos dos dias de hoje. Com a democratização do ensino e com a popularização das ciências, temos áreas que são cada vez mais populares, atraindo mais e mais moças e mulheres para a ciência. Mas ainda somos vistas e muitas vezes avaliadas como "Maria Diplomas", em alusão a outros títulos machistas como "Maria Chuteira" e afins. É uma maneira de diminuir a capacidade intelectual de uma pessoa, baseada em seu gênero, achando que ela tem menor ou nenhuma capacidade do que seus colegas do sexo masculino.

Um dos primeiros casos relatados por Rossiter foi dA Doutora Trotula de Salerno, que nos séculos XI e XII contribuiu significativamente para a saúde feminina e obstetrícia ao escrever vários livros sobre menstruação, ginecologia, menopausa, concepção, parto, puerpério, controle de natalidade, as doenças do útero e das vias urinárias. Já naquela época, ela considerava a prevenção a melhor maneira de se fazer medicina, impedindo que uma doença se instalasse para não ter que tratá-la depois. Toda a sua obra foi atribuída a autores homens posteriormente e seu nome foi esquecido nas faculdades de medicina.

Uma das principais obras de Trotula, fala de como conservar a pele e em como tratar diversas afecções e doenças de pele, com receitas e uma lista de plantas medicinais. 

Nettie Stevens também foi uma que sofreu com o Efeito Matilda. Nascida em 1861, em Vermont, EUA, recebeu seu Ph.D. em biologia em 1903. Ela descobriu que os cromossomos determinam o sexo de um indivíduo ao estudar larvas. Foi Nettie quem apontou que indivíduos masculinos carregavam cromossomos X e Y, enquanto os femininos carregavam XX. A ideia de chamá-los de X e Y, inclusive, partiu dela. Nettie também explicou que o sexo é herdado como fator cromossômico e que os machos que determinam o sexo, por carregá-lo no momento da concepção. Para a época, era um avanço incrível para a ciência da concepção, pois acreditava-se que a mulher era quem determinava o sexo do bebê. Quantos homens se separaram de suas esposas por que elas "não tiveram filho homem"?

Porém, seu colega Thomas Hunt Morgan, com quem ela trabalhou durante este período, acabou levando o crédito de Nettie, junto de outro colega de profissão, Edmund Wilson, e os dois levaram o Prêmio Nobel pela descoberta.

Nettie Stevens, 1861-1912.

Marietta Blau foi uma importante física austríaca. Ela se formou em Física e Matemática pela Universidade de Vienna, em 1918, com Ph.D. na mesma área em 1919. Marietta foi a responsável pela criação da emulsão nuclear que é a emulsão fotográfica destinada à fixação e observação da trajetória individual das partículas ionizantes. Além disso, ela estabeleceu um método acurado de estudar as reações causadas por raios cósmicos. Seu trabalho avançou o campo de física de partículas na época. Por conta da ascendência judaica, Marietta deixou a Áustria em 1939, interrompendo sua carreira científica, até conseguir uma posição como professora no México e depois nos Estados Unidos. Por seu trabalho, Erwin Schrödinger a indicou ao Prêmio Nobel de Física, em 1950, mas infelizmente seu trabalho foi todo creditado a Cecil Frank Powell.

Marietta Blau.

Lise Meitner, física austríaca, trabalhou com radiatividade e física nuclear, foi responsável por descobrir a fissão nuclear. Em 1938, ela precisou abandonar a Alemanha, onde trabalhava no Instituto Max Planck com outro químico, Otto Hahn. Em 1944, Hahn ganhou o Nobel de Química e Meitner foi ignorada. Cecilia Payne-Gaposchkin, astrônoma e astrofísica, com Ph.D. em astronomia, foi a responsável por descobrir do que o Sol e o universo inteiro são feitos. Determinou a temperatura das estrelas e a abundância de elementos químicos. Foi a primeira mulher a chefiar um departamento em Harvard. Sua tese de doutorado "Stellar Atmospheres, A Contribution to the Observational Study of High Temperature in the Reversing Layers of Stars" é considerada como a mais brilhante tese já escrita em astronomia. Seu trabalho foi creditado a Henry Norris Russell.

Rosalind Franklin é considerada a "mãe do DNA". Biofísica britânica, foi pioneira da biologia molecular onde, empregando a técnica da difração dos raios-X, concluiu que o DNA tinha forma helicoidal. Cartas descobertas alguns anos atrás mostram que o chefe do laboratório a odiava, a chamava de bruxa e fazia de tudo para dificultar seu trabalho. Em todas as aulas de biologia, aprendemos que o DNA foi descoberto por Watson e Crick, ganhadores do Nobel em 1962, sem reconhecer o trabalho de Rosalind, que morrera quatro anos antes, aos 37 anos, por câncer de ovário.

Cecilia Payne-Gaposchkin.

Eu poderia continuar aqui, falando e falando de várias mulheres brilhantes e aposto que muita gente vai dizer: "Ahhh, vai, que é isso, não é tão ruim assim. Elas foram injustiçadas, ok, mas isso é exagero." Pois então conheçam a história de Ben Barres. Ele é neurobiólogo, professor da Universidade Stanford. Seu estudo foca a interação entre os neurônios e as células gliais no sistema nervoso, tendo a cadeira do departamento de Neurobiologia na escola de Medicina de Stanford.

Barres se chamava Barbara antes da cirurgia de redesignação sexual (comumente chamada de "cirurgia de mudança de sexo"). Barres foi o primeiro homem a levantar a bandeira do sexismo na ciência ao perceber a mudança de comportamento de revisores e revistas científicas com relação a seus artigos. Aqueles onde ele assinou como Barbara eram tidos como superficiais e pouco precisos, enquanto os de Ben eram muito mais concisos, sendo que eram trabalhos da mesma pessoa. Ele também denunciou a falta de respeito com mulheres cientistas, baseado unicamente em seus gêneros.

Ben Barres.

Ben criticou abertamente o ex-presidente da Universidade Harvard, Lawrence Summers, que disse que a ausência de mulheres nos altos níveis da ciência e da pesquisa se deve às inatas diferenças biológicas entre as aptidões de homens e mulheres. Seríamos "menos aptas" às ciências, por isso que os homens as dominam. Ben disse que essa discussão é como uma "briga de rua", onde as mulheres estão levando a pior, pois somos consideradas intelectualmente inferiores por sermos mulheres. Para ele, existe uma gangue de cientistas homens que desencorajam moças ainda na graduação, pois foi o que aconteceu com ele, ainda como Barbara, quando foi desencorajado por um professor a ingressar no MIT.

Barres também apontou que, quando cientistas avaliam propostas de projetos, sem saber nomes, tanto homens quanto mulheres têm chances iguais. Mas quando o nome é apontado, as mulheres precisam apresentar uma produção científica três vezes maior que seus colegas homens, mesmo que tenham a mesma titulação e competência que eles.

Ou seja, parece que para alguns homens, ciência não é lugar de mulher. Mal sabem eles que o lugar de mulher é ONDE ELA QUISER. Seu trabalho deve ser avaliado independente de seu gênero. Não é de se espantar que a área acadêmica espante tantas mulheres, sendo que já desde a graduação somos desencorajadas por alguns professores e até pela família, cuja única função, muitas vezes, é apontar que a mulher ainda está solteira e que estudar não leva à nada. Que o futuro seja mais promissor e brilhante para as mulheres na ciência e que seus feitos sejam corretamente creditados.



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Sybylla

Fã do futuro e da ficção científica. Geógrafa, professora, blogueira, escritora de FC. Capitã da Frota Estelar. Esperando para voltar para o meu planeta. Leia mais.





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James W. Harris